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E se pudéssemos 
apagar memórias?

Getty

Um estudo sugere que vai ser possível apagar memórias associadas ao medo e ao stresse pós-traumático

A investigação é de fevereiro deste ano, e foi coordenada por Howard Eichenbaum, da Universidade de Boston, nos EUA. Apresentada na AAAS, a American Association for the Advancement of Science, argumenta que o hipocampo é central no processo da memória, no cérebro, e que há algum tempo que se aprendeu a “colocar células” no hipocampo que conseguem codificar os “locais” onde certos eventos ocorreram. Com experiências feitas em cérebros de ratos, os cientistas perceberam como ativar ou apagar memórias baseadas no medo. O que, se for transposto para o homem, poderá acabar com memórias traumáticas e negativas.

Ainda não chegámos lá. Mas nunca estivemos tão perto. No congresso anual da AAAS, ficou claro que os cientistas conseguirão um dia apagar memórias associadas a medos e stresse pós-traumático e memórias desordenadas associadas ao consumo de droga. Não deixa de ser um grande passo. José Barros, professor de neurologia e diretor do departamento de neurociências do Centro Hospitalar do Porto, explica o que é a memória: “Estamos permanentemente sujeitos a estímulos ambientais ou internos, mas apercebemo-nos apenas de uma parte (atenção), retemos alguns por breves momentos (memória imediata) ou dias (memória recente) e arquivamos poucos (memória remota). A memória remota tem habitualmente uma componente emocional e associa-se muitas vezes a factos vantajosos para o indivíduo. As memórias podem ser evocadas por estímulos paralelos, processados em simultâneo, podendo haver coexistência de memórias felizes e de memórias desagradáveis”.

O médico acrescenta: “As memórias podem ser apagadas, temporária ou definitivamente, por traumatismos cranianos, comportamentos aditivos (álcool, drogas), infeções do sistema nervoso, perturbações do sono e demências. Todas as memórias nos estruturam, fazendo-nos crescer, mas algumas vivências traumáticas podem dificultar-nos a vida e impedir-nos de avançar”. E questiona: “Poderão ou deverão essas ser eletivamente eliminadas? Quem nos garante a eletividade, no meio de tantos sistemas interligados? Não iremos mexer no desconhecido? Sendo possível apagar memórias, será ético? Qual será a meta seguinte? Recauchutar ou retocar memórias? Criar memórias falsas (por exemplo, pormenorizando um crime que nunca ocorreu)?”.

E alerta: “As experiências animais desta natureza são importantes, mas é bom lembrar que são pequenos arbustos de uma imensa floresta, ainda com muitos bosques enigmáticos. Crescerão para árvores robustas?”.