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César Bona:“Tendemos a educar como fomos educados”

É espanhol e um dos 50 melhores professores do mundo, finalista do Global Teacher Prize. no livro “A Nova Educação” defende que o papel da escola é convidar os alunos a pensar

Luciana Leiderfarb

Luciana Leiderfarb

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Jornalista

Luís Barra

Luís Barra

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Fotojornalista

luís barra

Qual o papel da escola?
A pergunta é: para que serve? É algo sobre o qual todos têm opinião. Mas falar dela ou fazer rankings, como o PISA, não significa que se lhe preste verdadeira atenção. A educação tornou-se uma competição desportiva, não é valorizada. E falamos demasiado de macroeducação — PISA, Governo — e não da microeducação, que começa nas famílias.

Em Portugal há uma insatisfação generalizada. Como descreve a escola de hoje?
Penso que as intenções de mudança chocam contra uma grande resistência. A mudança não passa por mexer nos programas ou por comprar computadores. Tem de se ir à raiz e acabar com a oposição entre escola tradicional e inovação. Há coisas que há 50 anos funcionaram e que daqui a 50 continuarão a funcionar.

Por exemplo?
Ouvir. Perguntar aos alunos que tipo de escola querem. Esta é a proposta de “A Nova Educação” — não um método novo, mas um convite a pensar na educação que queremos. E a educação que quisermos será a sociedade que quisermos. Um dia perguntei a uma mãe: “Como queres que o teu filho seja?” Ela respondeu: “Quero que saiba muitas coisas.” Mas que coisas? O conhecimento é importante, mas outros aspetos também o são. Noções como a empatia, a imaginação e o respeito são essenciais numa sala de aula.

Fala desta como ‘microssociedade’. Quais os erros mais frequentes nesse contexto?
Diria antes vícios — coisas que continuamos, por inércia, a repetir. Um é pensar que o respeito se impõe, em vez de se ganhar. Outro é achar que a escola serve para transmitir conteúdos. A educação para a felicidade é banalizada: à escola não se vai para ser feliz, vai-se para aprender.

O que significa educar para a felicidade?
Significa voltar ao básico. Dar ferramentas, entre elas o conhecimento. Mas também o respeito por si próprio e perante o outro, a responsabilidade social. John Hattie, investigador nesta área, concluiu que os dois fatores de sucesso académico são a autoestima e a forma como lidamos com as expectativas dos outros.

Num dado momento aborda a ‘autoexigência’. O que é?
É uma criança poder avaliar o seu próprio trabalho e dizer: se eu não acho isto bom, o professor também não vai achar. Isto é válido para o docente: não grites se não queres que gritem; respeita se queres que te respeitem; usa corretamente a tecnologia se queres que eles a usem... Não podemos pedir-lhes o que não lhes vamos dar.

O que pensa sobre a relação entre exames e a reprodução de conteúdos?
Damos importância a perguntas cuja resposta já lhes demos previamente. E queremos que a reproduzam, esquecendo o processo. A pergunta serve para eles se envolverem, investigarem, partilharem. Mas, no fim, o que conta é que repitam o que o professor disse. Que saibam ‘a’ resposta. Creio que devemos ensiná-las mais a refletir e menos a passar nos testes.

A dificuldade em mudar a educação não tem a ver com o facto de que as decisões são tomadas por quem não está no terreno?
Para haver uma mudança significativa, as decisões deveriam envolver famílias, estudantes e professores. E os políticos só deveriam assinar. Muitas vezes quem legisla não sabe como funciona a educação nem percebe as dificuldades dos pais. Isto chama-se microeducação e é muito mais importante do que os resultados do PISA. Conheço centenas de professores disponíveis para ter esta conversa. Para falar do ‘para quê’ da educação.

E o que está a faltar na formação dos professores?
Em geral, aprendem cada vez mais matéria de língua e de matemática, mas não as ferramentas para ensinar. E acredito que, no ingresso à universidade, ter notas altas não deveria ser suficiente. Deveria ser possível medir o grau de compromisso social do candidato, porque trabalhar em educação é um privilégio e uma responsabilidade enorme.

Defende que o professor deve convidar a aprender em vez de empenhar-se em ensinar.
Deve convidar os alunos a extrair o que está dentro deles. Eles são curiosos por natureza. Bastaria sermos capazes simplesmente de alimentar essa curiosidade.

Em Portugal assistimos a uma excessiva escolarização das crianças. A escola entra-lhes em casa.
As escolas têm horas estabelecidas, que se podem alargar consoante a necessidade dos pais. Isso é uma questão. Depois está o tema dos TPC, que é o braço invasivo da escola e dos seus piores vícios em casa. É o absoluto esquecimento da infância.

Porquê?
Porque o tempo voa, a infância passa num instante. Se as crianças passarem as tardes a trabalhar, vão perder coisas verdadeiramente importantes. Os TPC impedem que elas façam coisas com os pais, mexem com o tempo interno das famílias, carregam os laços familiares de tensão e de uma sensação de perda de oportunidades. E o mais paradoxal é haver famílias que exigem TPC para os filhos. A essas gostava um dia de lhes perguntar: conseguiram desfrutar da infância deles?

Como é que este assunto deve ser gerido?
As crianças não têm culpa que os currículos sejam tão extensos. E os TPC não podem servir para compensar isso. Se existirem, devem servir para complementar ou investigar certas coisas. Mas pontualmente. A criança tem direito ao seu tempo, a chegar ao fim de semana e desligar — e ao fim de semana levam mais trabalhos porque têm mais tempo! Não podemos exigir-lhes algo que não queremos para nós.

Porque é que os currículos são tão extensos?
Porque quem os revê não se atreve a cortá-los e acrescenta sempre qualquer coisa. No entanto, há outras formas de educar. Conheci escolas que baseiam os programas nas perguntas dos alunos. Por exemplo: porque temos umbigo? Isto leva a uma explicação e a uma outra pergunta. E o impulso vem da curiosidade.

Como explica que haja tanto medo de mudar?
Tendemos a educar como fomos educados. E achamos que qualquer mudança vai levar ao cataclismo. Mas o cataclismo já está a acontecer: os resultados não são bons e há cada vez há mais fracasso escolar. Porém, as crianças são a projeção dos pais, e os pais da sociedade. Vivemos submersos em stresse, consumismo, competitividade — e é o que lhes estamos a dar.

Como se reverte isto?
Não tenho a receita. Talvez deixando de dar tanto valor aos números. O exame não é importante, o que importa é a avaliação. E o que devemos avaliar é a aprendizagem. Aprender é encontrar as ferramentas para obter a informação e partilhá-la. Quem souber fazer isso, pode fazer mil exames. Queremos dar às crianças ferramentas para o futuro, mas quais são elas? Os conteúdos, aquilo que todos nós esquecemos? Não. A maior ferramenta é saber pensar.