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“Não gosto da ideia de que temos de ser supermulheres”

ENTREVISTA. A secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, Catarina Marcelino, num jardim do Montijo. Era domingo e a família esperava-a para uma escapadinha até à Serra da Estrela

ana baião

Catarina Marcelino, secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade, quer que a paridade de género, que tem progredido no meio laboral, entre nas casas de família, onde as tarefas domésticas continuam a ser coisa de mulher. A solução, diz, está na escola, onde a educação para a cidadania vai começar a derrubar estereótipos desde o pré-escolar. “Temos uma base cultural que precisa de uma intervenção grande”, assegura. Em casa dela está tudo em pratos limpos

Raquel Moleiro

Raquel Moleiro

texto

Jornalista

Século XXI, ano de 2017. Nos lares portugueses, 72% dos homens consideram que a mulher é a pessoa mais competente para lavar e cuidar da roupa e só 2% chama a si o melhor desempenho na tarefa. Em 57% das casas acreditam que deve ser ela a cozinhar (ele 5%); em 41% a ajudar os filhos nos trabalhos de casa (ele 8%); em 44% a levar as crianças ao médico (ele 5%); em 42% a ficar com a custódia dos menores em caso de divórcio (ele 4%). Nas divisões domésticas salvam-se os pequenos arranjos e a bricolage: isso é coisa de homem, de 80% dos homens (delas 6%).

Os números saem do inquérito realizado pela GFK e pelo Social Data Lab, que entrevistou 1004 pessoas, homens e mulheres entre os 18 e os 64 anos, para traçar o perfil ao “Portugal que temos e o que imaginamos”, e que ontem, segunda-feira, foi tema da Reportagem Especial da SIC. Em matéria de igualdade de género o país é desigual.

“Estes números não são propriamente uma surpresa, mas não deixam de chocar-me, e muito. É assustador pensar que no geral as opiniões do estudo não são muito diferentes das que teríamos na primeira metade do século XX. E são estas mentalidades que são perpetuadas e que moldam a sociedade. Temos uma base cultural que precisa de uma intervenção grande, uma sociedade machista que é preciso mudar”, defende a secretaria de Estado para a Cidadania e Igualdade, Catarina Marcelino.

Em casa dela, não há margem para estereótipos. Gere-se pela lógica da partilha. “Eu trato mais da roupa, o meu companheiro mais da loiça e de despejar o lixo, mas a maioria das tarefas são divididas. Cozinhamos os dois, tratamos os dois do nosso filho”, garante. “Mas isso é quando tenho uma agenda mais compatível com a vida familiar. Neste momento em que estou secretária de Estado — eu não sou, estou — quase não há partilha, ele faz praticamente tudo. Agora sou eu que preciso de estar mais disponível para o trabalho, noutro momento pode ser ele, e nós conjugamo-nos nesta harmonia. Não é fácil, claro, mas felizmente tenho um companheiro com quem vivo há muitos anos que aceita que é assim e que enquadra bem a questão”, conta a secretária de Estado.

No estudo da GFK e do Social Data Lab, o lar de Catarina Marcelino seria a exceção à regra. “Nós reproduzimos modelos sociais desde criança e a minha família não era muito tradicional. Costumo dizer que sou feminista desde a barriga da minha mãe”. A mãe, licenciada em pintura e professora, envolveu-se nas lutas estudantis de 1969. A política, de esquerda, sentava-se à mesa lá de casa. A defesa dos direitos humanos e a justiça social eram o menu.

O exemplo familiar inspirou-lhe a solução. Como não pode entrar na casa de cada português para mudar mentalidades e derrubar estereótipos de género, a secretária de Estado arranjou uma chave alternativa: a introdução da Educação para a cidadania nos currículos do ensino público desde o pré-escolar. “Lembram-se da defesa da reciclagem e do ambiente? Começou na educação dos mais pequenos, que depois levaram esses valores para casa. E resultou. Quero que a igualdade de género faça o mesmo caminho. A escola pública forma pessoas, e formar pessoas não é só ensinar matemática”.

Eles princesas, elas Bob, o Construtor

EDUCAÇÃO A partir do próximo ano letivo, começam a quebrar-se estereótipos de género desde o pré-escolar

EDUCAÇÃO A partir do próximo ano letivo, começam a quebrar-se estereótipos de género desde o pré-escolar

ana baião

O plano, realizado em coordenação com o Ministério da Educação, arranca no próximo ano letivo, com a reintrodução nos currículos dos temas da cidadania. A área de Formação Cívica foi introduzida em 2001, mas desapareceu na última revisão, em 2012, era então ministro Nuno Crato. “Há vinte anos que se fala da educação para a cidadania, mas o facto é que nunca foi estruturante. Porque se tivesse sido estruturante não se tinha destruído tão rapidamente. Não era perfeito mas existia. Agora não existe nada”, critica a secretária de Estado. “Costumo dizer que as meninas não precisam todas de ser princesas nem os meninos o Bob, o Construtor. Tem de se explicar às crianças que os rapazes podem brincar com bonecas e as raparigas com carrinhos, que os homens podem lavar a loiça e as mulheres fazer arranjos em casa, e que isso não tem nada a ver com identidades de género de outra natureza da sexualidade.”

Catarina Marcelino vê esta alteração curricular como o motor de ignição de uma catadupa de mudanças estruturais na sociedade portuguesa a longo prazo. “A igualdade de género, os papéis do homem e da mulher na família tem muito a ver com a conciliação futura da vida privada com a vida profissional, e também vai influenciar o combate à violência doméstica porque deixam de existir desigualdades nas relações de poder. Daqui a dez anos já haverá efeitos sociais positivos”, acredita a secretária de Estado.

Vida privada. Vida profissional. No seu cargo atual — e antes, quando presidiu a Comissão para a Igualdade no Trabalho e no Emprego (CITE), ou quando foi conselheira municipal para a igualdade na câmara do Montijo, ou mesmo enquanto presidente das Mulheres Socialistas — Catarina Marcelino acumula histórias de mulheres de sucesso em que a criatividade de gestão entre os dois polos é o elo comum. “Aquela ideia das super-mulheres é uma coisa de que não gosto. Acho que não temos de ser super-mulheres, temos de ser pessoas normais que devem poder ser aquilo que querem ser. Claro que não é fácil gerir o dia-a-dia, mas as mulheres também se autocondicionam um bocadinho. Tenho encontrado mulheres nos conselhos de administração que fizeram as vidas delas com filhos e estão ali, chegaram ali, porque nunca se autolimitaram, nunca admitiram escolher um ou outro lado, a carreira ou os filhos”, aponta a secretária de Estado.

Até às 9h, Catarina é só do João

REGRA É a secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade que todos os dias acorda o filho, de 5 anos, o veste e o leva à escola no seu carro. Só depois vai para o Ministério

REGRA É a secretária de Estado para a Cidadania e Igualdade que todos os dias acorda o filho, de 5 anos, o veste e o leva à escola no seu carro. Só depois vai para o Ministério

ana baião

Catarina Marcelino, 46 anos, inclui-se nesse rol de mulheres. Sem limites autoimpostos. Quando o ministro adjunto Eduardo Cabrita a convidou para o cargo aceitou imediatamente, mas com um pedido. Não ter marcações antes das dez da manhã. “Fazer a rotina da manhã com o João, que tem cinco anos, é importante para mim. E é perfeitamente conciliável. Sou eu que o acordo, que lhe dou o pequeno-almoço, que o visto, que o levo à escola no meu carro. As crianças precisam de rotinas e nós precisamos de organizar as nossas vidas em função de tudo o que temos de gerir”, explica.

Ao fim do dia — “impus-me essa regra” — esforça-se para chegar a casa antes das 21h, com João ainda acordado. Nem sempre consegue. Na passada sexta-feira, dia 17, conseguiu. Foi às 14h ao Porto encerrar o V Congresso de Saúde Pública. Quando no regresso esperava pelo avião para Lisboa, às 19h30, ligou para a churrasqueira ao pé de casa a encomendar o jantar. Aterrou às 20h30 e às 21h estava em casa e com frango para o jantar.

“Não podemos criar dificuldades mentais ao que é a normalidade num dado momento”, explica sentada num banco de jardim junto a casa, pouco depois das nove da manhã do passado domingo, no Montijo. Catarina Marcelino é de lá. O dia e a hora da entrevista foram negociados com a família. A data estava reservada para uma viagem até à Serra da Estrela. Deram-lhe uma hora, e ela cumpriu. Quando se despediu já a esperavam dentro do carro.