Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Ordem e sindicatos viram as costas ao ministro da Saúde

ANTÓNIO COTRIM / Lusa

Governo quer aumentar em dez meses a idade com que os médicos são dispensados dos serviços dedicados às emergências. Bastonário está contra e os sindicalistas avisam que a medida “despertará na classe a mais resoluta e gravosa resposta”

A classe médica está em sobressalto. A intenção do ministro da Saúde de prolongar a idade de dispensa dos médicos do trabalho na Urgência dos 55 para os 55 anos e 10 meses gerou uma contestação generalizada. A Ordem dos Médicos está a preparar um comunicado, para divulgar na tarde desta segunda-feira, e os sindicatos avisam que não haverá negociação possível.

A proposta foi avançada por Adalberto Campos Fernandes na Comissão Parlamentar de Saúde da passada sexta-feira, com a justificação do aumento da esperança média de vida em Portugal e mereceu a reprovação imediata dos dois sindicatos da classe.

Num comunicado conjunto enviado esta segunda-feira, o Sindicato Independente dos Médicos e a Federação Nacional dos Médicos afirmam que o ministro, "médico que é, e médico de Saúde Publica, é lamentável que queira associar à penosidade e ao risco associados à prestação de trabalho em serviço de Urgência o aumento da esperança de vida, aumento esse para o qual os médicos no ativo têm sobremaneira contribuído".

Explicam ainda no documento que "o aumento da esperança de vida tem acarretado uma ainda maior penosidade e responsabilidade do trabalho dos médicos nos serviços de Urgência, confrontados que são diariamente com as solicitações de doentes mais envelhecidos e com patologia múltipla". E avisam: "O Sindicato Independente dos Médicos e a Federação Nacional dos Médicos declaram desde já, e independentemente de eventual tentativa de negociação sindical, que esta é uma matéria que não é passível de entendimento e que, em caso de imposição, despertará na classe médica a mais resoluta e gravosa resposta."

Em reação, o Ministério da Saúde responde que “tratar-se de matéria objeto de negociação sindical“ e que, nesse sentido, “nada será feito sem serem ouvidas as estruturas representativas dos profissionais médicos, como aliás foi referido pelo ministro na audição parlamentar”.

Dispensa desde 1979

Os médicos são dispensados de trabalharem na Urgência durante a noite a partir dos 50 anos e totalmente deste serviço aos 55. É assim desde 1979 e muitos especialistas abdicam deste direito para que a população não fique sem resposta. "Há várias unidades onde isto acontece. Em Beja, se os médicos continuam a trabalhar é por opção, porque se não o fizessem não havia Urgência", diz o bastonário da Ordem dos Médicos (OM) Miguel Guimarães.

Ao Expresso, Miguel Guimarães explica que a proposta ministerial "é uma questão laboral e de negociação com os sindicatos, mas a OM não está de acordo porque os médicos já têm uma situação de stresse elevado, o trabalho na Urgência é complexo e não faz sentido aumentar a sobrecarga que já existe". Defende, por isso, precisamente o contrário do que o ministro advoga.

"Devemos discutir se a profissão médica não deve ser encarada como de alto risco e desgaste rápido, como já o é vários países, por exemplo em França." Miguel Guimarães salienta que o caminho proposto por Adalberto Campos Fernandes não é o indicado para melhorar o funcionamento da Urgência.

Na sua opinião, a solução para melhorar o atendimento SOS passa por outro tipo de medidas. "É preciso contratar mais médicos para o Serviço Nacional de Saúde, criar uma resposta integrada com os cuidados primários e continuados, adequar as atuais classificações das Urgências à realidade – por exemplo, o Amadora-Sintra está subclassificado – ou pensar na criação de equipas dedicadas, o São João fê-lo e a experiência correu bem."