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Morreu o embaixador José Fernandes Fafe

Embaixador José Fernandes Fafe

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Gostava de livros. Tinha uma imensa biblioteca e escreveu alguns, entre os quais uma biografia de Fidel de Castro porque, nas suas muitas vidas, foi o primeiro embaixador de Portugal em Cuba depois da Revolução de 1974, apesar de não ser diplomata de carreira. Tinha 90 anos acabados de fazer e era um dos grandes amigos de Mário Soares

Era um homem de livros e foi um dos grandes amigos de Mário Soares que, pouco depois do 25 de Abril de 1974, o nomeou embaixador [político] de Portugal em Cuba. Não sendo diplomata de carreira “teve uma prestação que redundou num elevado prestígio para o nosso país”, escreve Francisco Seixas da Costa no seu mural no Facebook.No final da década de 1960, publicou com o pseudónimo de David Alport a primeira biografia de Che Guevara, “De Cuba al Terzo Mondo”, editada em Itália com a chancela da Mondadori.

Ser autor deste livro terá tido um peso determinante na sua nomeação como embaixador político pouco depois da Revolução dos Cravos. “Fernandes Fafe representou muito bem a diplomacia do Portugal democrático e consagrou-se como um indiscutível valor acrescentado para a política externa portuguesa”, lembra o embaixador Seixas da Costa no Facebook.O gosto pelos charutos permaneceu depois de ter sido embaixador de Portugal em Havana, entre 1974-1977. As muitas notas que tomou e os diálogos que teve com Fidel de Castro levaram-no a escrever o livro “Fidel”, publicado em 2008.

Biografia de Fidel da autoria do embaixador José Fernandes Fafe

Biografia de Fidel da autoria do embaixador José Fernandes Fafe

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No tempo da ditadura portuguesa acompanhou o amigo Soares numa visita a Cuba. A única que Mário Soares fez à ilha do Caribe, viajando com um “passaporte falso, com o apelido Díaz e na qualidade de jornalista desportivo brasileiro”, como escreveu José Pedro Castanheira, num texto publicado no Expresso em dezembro último, depois da morte de Fidel de Castro.

“A acompanhá-lo, o amigo José Fernandes Fafe, também a viajar clandestinamente. Foi uma aventura difícil, tendo em conta o bloqueio norte-americano e as expressões que já se faziam sentir de um regime ditatorial. Chegar à ilha só era possível de avião e mediante um percurso que, para iludir a PIDE, passava por Itália, antiga Checoslováquia, Irlanda e, por último, Canadá. Soares e Fafe chegaram pelos próprios meios a Roma, onde o ex-embaixador cubano em Lisboa, Amado Blanco, lhes deu as novas identidades”.

Depois de Cuba, permaneceu na vida diplomática; representou Portugal no México– entre 1977 e 1980 e Cabo Verde de 1983 a 1989. A Argentina foi o último país onde exerceu funções como embaixador de Portugal, entre 1989 e 1992.

Nasceu no Porto e licenciou-se em Histórico-Filosóficas na Universidade de Coimbra. Celebrou 90 anos a 31 de janeiro em boas condições de saúde. No dia seguinte – de acordo com o Diário de Notícias – teve um AVC.

O corpo vai ser velado na Igreja de São João de Deus [Praça de Londres, Lisboa] a partir das 19h00 desta segunda-feira. Amanhã, dia 21, realiza-se uma cerimónia às 13h00. A cremação é às 15h00 no cemitério dos Olivais.