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O mundo é o meu escritório

ilustração paulo buchinho

Há cada vez mais profissionais que apenas precisam de um computador ligado à internet para trabalhar. Sem patrões, horários e a necessidade de ter uma morada fixa, muitos decidem viajar e associar o trabalho à experiência de conhecer mundo. São os nómadas digitais

Bernardo Mendonça

Bernardo Mendonça

texto

Jornalista

Paulo Buchinho

ilustração

Ilustração

Um trabalho é um trabalho é um trabalho. Mas nem todos são iguais. Nem todos são estimulantes, bem remunerados, nem todos trazem novas experiências, realização pessoal ou a possibilidade de poder gerir como quiser o seu tempo, o lugar onde quer estar e a tão desejada sensação de liberdade — que a maioria sonha — sem chefias por perto a controlar.

Muitos, talvez a maioria, anda a trabalhar o ano inteiro, 11 meses bem contados, a pensar naquele mês de férias em agosto ou noutra qualquer altura do ano onde pode finalmente descansar e ser pago para não fazer nada.

Mas o mercado de trabalho por cá, e por todo o mundo ocidental, está a mudar o paradigma do emprego tradicional, passado no escritório das nove às cinco da tarde. São cada vez mais as áreas profissionais em que as empresas optam pela flexibilidade laboral dos colaboradores, até porque lhes sai mais barato, assim como aumentam o número de freelancers e de tarefas feitas por teletrabalho. Com o avanço tecnológico, das comunicações e da internet que nos aproxima virtualmente de todos os cantos do planeta onde haja rede e um computador, telemóvel ou tablet, deixa de ser necessário para muitos trabalhadores estarem permanentemente no local para onde colaboram, podendo gerir o dia como quiserem. São os chamados nómadas modernos, ou nómadas digitais.

Esta nova espécie trabalha muitas vezes a partir de casa, ou em cafetarias, bibliotecas e em espaços de cowork na sua cidade ou pelo mundo fora. Muitos estão a aproveitar essa flexibilidade laboral para viajar pelo mundo com o escritório ‘às costas’, por uns meses ou por uns anos, para passar a perna à rotina e ganharem novas experiências profissionais e pessoais. Esta realidade está a deixar de ser um nicho para ser um estilo de vida cada vez mais comum. E são inúmeras as atividades onde isso é já pratica corrente: tradutores, designers, ilustradores, fotógrafos, programadores e criadores de software, produtores e gestores de conteúdos digitais, profissionais de marketing e por aí fora. O mundo é o escritório deles.

Rafaela Mota Lemos, de 33 anos, sorriso rasgado e longa cabeleira afro, deu-se conta há três anos, quando entrou na casa dos 30, que o que ganhava por mês a fazer tradução lhe dava perfeitamente para viver noutras cidades do planeta, sem comprometer o seu trabalho e o salário, porque apenas precisava de internet e de um computador para cumprir as tarefas. “Percebi que havia mundo para conhecer. E que precisava de um estímulo geográfico.” E partiu com apenas uma mala para Rio de Janeiro, no Brasil, com um projeto ambicioso para concretizar... Mas já lá vamos. Antes experimentara durante dois anos trabalhar no espaço cowork Lisboa, na LX Factory, depois de se ter despedido da sua empresa e tornado tradutora técnica freelance, com colaborações várias que lhe trouxeram mais rendimento e liberdade de movimento.

Desde logo recusou-se a montar escritório no seu apartamento. “Trabalhar a partir de casa de pijama nunca foi para mim.Quando trabalhamos em casa ninguém dá pela nossa falta e é fácil transformarmo-nos em fantasmas. Dei-me bem com o sentido de comunidade que existe entre as pessoas que estão num espaço de cowork, que não são colegas, mas que partilham o mesmo estilo de vida.”

Rafaela passou a alugar uma mesa por 140 euros ao mês (com direito a internet, água, café, fotocópias e sala de reuniões), a conviver com outros nómadas digitais portugueses e estrangeiros e a gerir o seu horário.“Fazia um horário diurno, mas podia tratar de burocracias se queria ou levantar-me mais tarde se me apetecesse.” Mas um dia houve em que sentiu precisar de mais. “E agora?” É quando começa a esboçar o projeto “Home is where I am” [A casa é onde eu estou]. E decide viver três meses em cinco cidades: Rio de Janeiro, Nova Iorque, Telavive, Nápoles e Lobito. Quis começar pelo Rio por ser a primeira cidade estrangeira onde tinha posto os pés aos 21 anos para cumprir um estágio; Nova Iorque por ser a antítese da terra onde nascera, Portimão; Telavive por sentir curiosidade e um fascínio particular por Israel; Nápoles por ser a cidade da Europa que mais gosta; e, por fim, Lobito por ter lá raízes. O pai é angolano. Propôs-se assim ficar três meses em cada um desses sítios porque era o tempo máximo permitido pelo visto de turista. “E porque é o mínimo de tempo para percebermos como cada cidade funciona.”

Interessada em perceber o “conceito emocional de casa” e se podia senti-lo em vários locais do mundo, muda-se em 2014 para o Rio de janeiro, onde aluga um quarto num apartamento em Copacabana e passa a trabalhar semanalmente num espaço de cowork no bairro da Gávea. Entusiasmada com o tanto que tinha para conhecer e absorver na cidade — ainda para mais numa altura em que a cidade acolhia a Copa do Mundo — acabou por renovar o visto e ficar seis meses ao todo. “O espaço de cowork onde fazia as minhas traduções tinha um jardim maravilhoso e era divertido quando surgia um tucano atrás da nossa cabeça e o cliente pensava que estávamos na selva.”

Rafaela apreciou a beleza e a cultura da cidade, mas não se sentiu tomada por inteiro. “Não é o sítio onde quero criar família. Fiquei chocada quando um dia uma pessoa me disse que um amigo tinha levado um tiro no rosto por ter resistido a um assalto. Senti que os valores daquele país não estavam alinhados com os meus.” Seguiu para Nova Iorque, onde esteve três meses, mas a estadia acabou por revelar alguns contratempos. Foi difícil encontrar um espaço de cowork compatível com os seus rendimentos (os preços oscilavam entre os 700 e 850 euros) e isso abalou-a. “Não consegui estabelecer um espaço de rotina entre casa e trabalho. Andava a deambular entre cafés e isso afetou-me psicologicamente. Numa cidade onde toda a gente anda apressadamente pelas ruas a caminho de algum lado, quando não tens um destino fixo para ir, sentes-te à parte e com a sensação de que se morreres ali ninguém saberá.”

A somar a isso um pequeno problema num dente revelou-se um sarilho, dado que o seguro de saúde não cobria o tratamento e o preço revelou-se demasiado elevado. “Esses pequenos azares comprometeram a experiência. Vivi também algum isolamento, mas não deixei de sentir que aquela é a cidade onde tudo acontece, o que é bastante excitante.” A somar a tudo isso, assume que acabou por se dispersar com o frenesim da cidade, o que comprometeu a qualidade de alguns trabalhos.

Com isto perde um dos seus mais importantes clientes, o que a obriga a regressar a Lisboa e a interromper o seu projeto de viver em cinco cidades. Aterra em 2015 e acaba por arranjar trabalho fixo numa agência de comunicação, onde trabalha há um ano. “Está a ser desafiante voltar a ter chefia e um horário. Mas voltarei ao meu projeto num espaço de dois ou três anos, porém com uma visão mais estratégica, arranjando clientes locais e com melhor equilíbrio entre o trabalho e a experiência da viagem.” Sobre o seu conceito emocional de casa, diz que uma pessoa só se sente numa cidade estrangeira como se estivesse a viver no seu país se se reunirem quatro itens: haver rotina casa-trabalho e ter um espaço de cowork para trabalhar; encontrar uma casa confortável para viver; manter uma boa vida social; e, por último, ter um hobby.

Deixa claro que não quer viver eternamente a deambular pelo mundo. “Quero cumprir o meu projeto das cinco cidades, mas nunca será uma experiência a longo prazo para mim. Ainda me sinto mais de Lisboa do que doutro lugar.”

Apesar de todas estas peripécias, Rafaela não se identifica como nómada digital. “Para mim, o conceito está demasiado ligado àquelas pessoas que parece estarem constantemente de férias e que usam as redes sociais para fazerem um show case de uma vida perfeita feita a viajar. A minha preocupação é de contar histórias e situações reais. Chegava até a assumir as diretas sem dormir para cumprir certos prazos ou as vezes em que tinha de acordar a meio da noite, por causa das diferenças horárias, para responder aos e-mails de clientes portugueses. Não mostrava apenas o lado bonitinho da experiência.”

Mas, afinal de contas, não gostamos de ser seduzidos pela ideia de paraíso? Miguel da Fonseca, tradutor e revisor linguístico freelancer, sabe bem que sim e por isso há muito que publica na sua página de Facebook as fotografias dos escritórios improvisados nos vários locais exóticos por onde tem passado.

Com o seu smartphone capta uma imagem onde se vê o seu computador portátil ao lado de uma bebida de “chá verde açucarado com gomas lá dentro” e ao fundo um lago romântico com peixinhos vermelhos, a marcar a sua passagem por Ho Chi Minh (antiga Saigão), no Vietname; noutra fotografia surge de novo o seu portátil lado a lado com um cocktail, também esverdeado, desta vez com vista para um mar azul-postal na ilha de Phuket, na Tailândia. É o seu diário visual. “Claro que passo sempre uma imagem mais bonita do que realmente o momento está a ser. Serve de registo dos sítios por onde ando a trabalhar e é um pretexto para interagir com os amigos. Assim sinto uma certa presença, quando me sinto só nesses lugares distantes.”

China. Em 2012, o ilustrador André Carrilho passou por vários países, associando o trabalho à experiência da viagem. Nesta foto, Carrilho está a desenhar numa rua de Hong Kong

China. Em 2012, o ilustrador André Carrilho passou por vários países, associando o trabalho à experiência da viagem. Nesta foto, Carrilho está a desenhar numa rua de Hong Kong

Miguel é freelancer há quatro anos. Faz revisão para um grande motor de busca e faz tradução de inglês para português para outra empresa. Ganha 20 euros à hora e trabalha em média cinco horas diárias. Senhor do seu tempo, apenas com obrigação de entrega de trabalho em determinados prazos estabelecidos, começou por trabalhar em casa, mas depressa se aborreceu com a rotina e começou a deslocar-se para cafés e esplanadas de Lisboa. “Chamo-lhes os meus escritórios. Os meus locais preferidos para trabalhar são o jardim do Museu de Arte Antiga, a biblioteca da Gulbenkian e outros cafés com uma certa estética e ambiente agradável.” No início do ano passado, quando a senhoria lhe deu três meses para sair da morada onde residia no Príncipe Real, decidiu não alugar novo apartamento e partir para longe. Queria perceber se conseguiria viver por uns tempos num país distante e continuar a rotina profissional como se estivesse na sua cidade. “Quis provar a mim próprio que esta ideia de liberdade que a minha atividade proporcionava poderia ser concretizada na prática e elevada a outro nível.” Assim pensou, assim fez. Por cerca de 300 euros comprou um bilhete só de ida para o Vietname. Exótico q.b. e um destino em conta para os cerca de mil euros que tinha para gastar por mês.

Durante dois meses andou entre o Vietname e a Tailândia. “Fiz mergulho, visitei ilhas lindas, usufruí das massagens vietnamitas e tailandesas que me relaxavam e davam outra disposição para trabalhar. E, claro, também conheci algumas moças com quem namorisquei.”

Como pontos negativos aponta a solidão crescente que foi sentindo e o lado cansativo que é gerir a vida profissional e o lado organizativo de estar sempre a mudar de lugar e a decidir para onde ir. “Às tantas, cansei-me. O paraíso pode ser aborrecido, frustrante e solitário. Recordo-me de estar em Phuket, a trabalhar com vista para o mar, mas como tinha que trabalhar não conseguia usufruir convenientemente do momento e da ilha. Passava mais tempo a olhar para o ecrã do computador para despachar trabalho do que a relaxar naqueles locais.”

Farto de se sentir distante de tudo e de todos, regressa a Lisboa. Ainda passa por Londres e Madrid, onde visita amigos e se sente mais em casa. Mais tarde, passa por Bristol, Bath e Edimburgo. Sempre a cumprir a labuta diária. Há seis meses que está em Lisboa. E continua a buscar espaços novos na cidade para trabalhar. Faça chuva ou faça sol. Diz que está a voltar a vontade de se fazer à estrada. A ideia é desarrumar a rotina que se instala vezes demais. “Mas este é o tipo de trabalho que me veste melhor.” Está a namorar a ideia de passar uns tempos em Roma, depois Nova Iorque e São Francisco. Já que não deve nada a ninguém, “porque não?”

André Barbosa, de 38 anos, antigo jornalista, esteve três anos a fazer da sua casa o seu escritório, onde pesquisava e inseria dados numa plataforma digital internacional. “O jornalismo desencantou-me, deixei de ter suficiente trabalho e inscrevi-me no site upwork, que é um mundo de oportunidades. Contactaram-me passado duas semanas e, desde aí, não me falta o que fazer. No início fiquei entusiasmado. Podia estar de cuecas ou de pijama e, nos intervalos do trabalho, pôr roupa a lavar, deitar-me no sofá, ver TV, ou sair para ir às Finanças. Apenas tinha que cumprir as 40 horas semanais.”

Começou por ganhar 700 dólares e o seu ordenado em três anos mais do que duplicou. Trabalhava de dia e saía à noite. Mas o estilo de vida que contrastava entre a clausura diurna e a boémia noturna acaba por esgotá-lo. “Sentia-me sufocado. A minha única companhia era o meu cão ‘Mofli’. Falava com ele como quem fala com uma pessoa. Parecia o Batman, que saía de noite da sua batcaverna para beber uns copos. Já não me sentia livre. Fartei-me da situação e quis aproveitar o potencial desta minha atividade, de poder estar onde eu quiser, e decidi sair do país. Para um lugar com boas praias e bom clima.” Escolheu a Playa del Carmen, a sul de Cancun, zona da Riviera Maya, no México, para viver nos próximos anos. Antes, arrumou a sua vida em Lisboa. Entregou a casa ao banco, vendeu o recheio pela internet, pagou as dívidas e deixou o seu cão em casa da mãe. “Parti com uma mala pequena, decidi comprar a maior parte das coisas no destino e viver como um local.”

É por isso que diz não se dar com a comunidade de nómadas digitais que encontrou por lá. “Essas pessoas só falam inglês, não se dão com a população da região e trabalham apenas em cafés e bares de hotel. Eu quero ter uma experiência genuína e ficar mais tempo que a maioria deles, aprecio a estabilidade.”

Alugou uma casa por 300 euros, com direito a piscina, segurança e estacionamento. “É o preço de um quarto em Lisboa.” Aproveita para dizer que um maço de cigarros custa naquele destino 1,40 euros e três quilos de papaia podem ser trocados por uma moeda de um euro. Nas folgas desloca-se como seria de esperar às belíssimas praias da região. “Estou a 15 minutos das praias do Caribe, com palmeiras e iguanas, mas não trabalho com essa vista paradisíaca. Apesar de serem as imagens que partilho nas redes sociais. É um pouco uma falácia a imagem que se passa. É como viver em Lisboa e publicar fotos da Costa da Caparica.” Mas o que realmente importa não é ilusão, aconteceu mesmo. André mudou de hábitos, passou a ter gosto nos seus dias e em deixar o sol entrar pela grande janela do seu quarto às oito da manhã. “Está a valer a pena. Livrei-me do stresse. Em Portugal vivia com demasiada ansiedade. Chegava a tomar dois ou três ansiolíticos por dia. Agora só tomo metade de um. Os meus dias passaram a ter intensidade e novidade.” E quando deixar de ser novidade? “Partirei de novo. Quero conhecer outros destinos no México e talvez depois a Ásia: Laos, Camboja, Vietname, Tailândia. Finalmente estou a viver a vida que quis.”

José Nuno de Matos, investigador do Instituto de Ciências Sociais (ICS), tem uma visão muito particular sobre estes novos profissionais: “A novidade destes trabalhadores é que vivem sob o lema ‘O meu trabalho é a minha vida. O que tem um lado positivo, porque têm mais liberdade e margem de autonomia, mas também tem um lado negativo, porque quando o trabalho e a vida privada se misturam, quando um dos lados falha, o outro vai atrás. Além de muitas vezes serem profissionais com uma vida mais precária, instável, o que provoca stresse e ansiedade.”

Mas esta flexibilidade laboral e autogestão dos trabalhadores traz mais vantagens ou desvantagens para ambas as partes? Um estudo de 2013 da Associação Portuguesa de Psicologia da Saúde Ocupacional (APPSO) intitulado “Gerir Pessoas e Competências — Uma estratégia de sucesso”, que envolveu uma amostra de 40 mil entrevistados, analisou os ambientes tradicionais de trabalho, que incluem o coworking e o teletrabalho, provaram que os novos métodos de trabalho, mais informais, diminuem os níveis de stresse (de 62% nos modelos tradicionais para 39% nas novas formas de trabalhar) e aumentam os índices de bem-estar (de 31% para 62%). Além disso, reduzem os índices de ‘turnover’, quer isto dizer que a vontade de mudar de trabalho nos cinco anos seguintes desce de 69% para 37% e o absentismo (incumprimento das tarefas e faltas) cai de 78% para 24%.

Carlos Sezões, partner da Stanton Chase, empresa multinacional de Executive Search, conhece bem o mercado profissional português e internacional e não tem dúvidas que este segmento representa as tendências socioculturais e tecnológicas dos novos tempos. “Por um lado, a crescente procura de competências que assentam em capital intelectual, criatividade e inovação que, pela sua própria natureza, podem ser exercitadas à distância, com total flexibilidade, respeitando apenas as variáveis ‘prazos’ e ‘níveis de qualidade’. Por outro, a crescente digitalização e sofisticação dos dispositivos tecnológicos com que se trabalha permite o modelo de trabalho anytime-anywhere, e torna-se uma oportunidade para muitos profissionais. As preferências de uma nova geração (os millennials) pela integração saudável entre vida pessoal e profissional virão consolidar ainda mais esta tendência que já é evidente e crescente em Portugal.” A página de Facebook “Digital Nomads Portugal” tem atualmente 2916 seguidores, onde muitos trocam informações sobre destinos no mundo para trabalhar e conhecer.

Sezões considera que esta é uma tendência sociocultural, simultaneamente atrativa, complexa e plena de riscos. E refere o livro “The 4 Hour Workweek”. Um best-seller com um título disruptivo e um conteúdo que lhe faz jus. Timothy Ferris, o seu autor, passou mais de cinco anos a aprender as práticas dos que ele designa como ‘novos ricos’, pessoas com estilos de vida profissionais alternativos, que abandonaram os modelos clássicos de trabalho das 9h às 18h, para viver na plenitude tudo o que o dinheiro, as tecnologias e este novo mundo globalizado lhes permite. E designa como novas moedas — o tempo e a mobilidade — para criar um estilo de vida sofisticado, de aprendizagem e desenvolvimento pessoal passado a viajar pelo mundo.

O autor chegou, por exemplo, a ser campeão de kickboxing e é especialista em tango. “Além deste appeal romântico para todos os que querem escapar à pressão do quotidiano, viajar mais e ter rendimentos tranquilos, também traz ensinamentos profissionais de como gerir as tarefas à distância, através da ausência. São escolhas de vida que privilegiam o ‘ser’ e o ‘experimentar’ em detrimento do ‘ter’. Dão preferência a aprender, ter realizações, em alternativa ao status, dinheiro e estabilidade. E sim, exigirão modelos familiares alternativos em mobilidade geográfica constante.”

Maria da Glória Ribeiro, consultora de executive search na Amrop, especialista em liderança e gestão de carreira, é da mesma opinião. “Para muitas profissões será indiferente uma pessoa estar a residir em Lisboa, em Londres ou no Botswana, porque as comunicações são cada vez mais fáceis, mais sofisticadas e baratas para poderem trabalhar daí para outros países. Claro que haverá sempre profissões que dependem da presença física. Um cabeleireiro não pode cortar cabelos em Nova Iorque vivendo em Lisboa, nem um médico pode operar no Hospital de Santa Maria residindo na ilha da Madeira.” E acrescenta: “As pessoas vão-se tornar tendencialmente mais especialistas, autorresponsáveis e autoempregáveis, avaliadas pelo trabalho que fazem e entregam. Estou certa de que o trabalho das nove às cinco vai desaparecer, assim como o trabalho indiferenciado. Quando? Não sei. Mas vai acontecer.”

No mercado internacional, nos países ocidentais e mais desenvolvidos, esta é uma realidade cada vez mais comum. Veja-se, por exemplo, o caso do site americano GitHub, criado em 2008, líder de mercado, que é uma espécie de ferramenta digital utilizada por programadores de todo o mundo. Atualmente, todos os seus trabalhadores comunicam entre si e com os seus clientes por Messenger. No início nem escritório havia. “O chat era o nosso escritório”, disse em 2013 o CEO e fundador do site, Tom Preston-Werner, ao site PandoDaily. Apesar de atualmente sediados em São Francisco, têm os seus 600 empregados espalhados pelo globo. De acordo com o site Back Channel, 44% residem na baía de São Francisco, 35% estão espalhados pelo resto da América e os restantes 20% residem em vários países do estrangeiro. As empresas estão a adaptar-se aos novos tempos do mercado global.

Mas o vínculo precário dos nómadas digitais será um estímulo para que um número maior de empresas opte por este perfil de colaboradores? Fernando Mendes, fundador do espaço Cowork Lisboa que celebra sete anos de existência, é da opinião que sim. “Antes havia uma desconfiança da entidade empregadora para com os empregados que não estavam no local de trabalho. Achavam que eles não faziam nada e que ainda se pagava por isso. Mas essa ideia mudou. Agora as empresas querem negociar isso. Pagam metade e, desde que o empregado entregue o trabalho tanto lhes interessa se ele está aqui ou na Indonésia. E custa menos dinheiro à empresa, que não paga a Segurança Social, nem subsídios de refeição a esses profissionais.”

O mesmo acha Miguel Chaves, professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e coordenador do Grupo de Trabalho Cidadania do CIS.NOVA. “Quanto mais não seja porque grande parte destes trabalhadores parecem experienciar a situação precária como algo que não dão indícios de querer contrariar e que, em alguns casos, valorizam. As empresas podem assim estabelecer ou quebrar relações com trabalhadores, cada vez mais designados como ‘colaboradores’, de forma absolutamente liberalizada, em função da apreciação que fazem desses, mas também das necessidades imediatas e das estratégias de desenvolvimento das próprias empresas.”

André Carrilho, 42 anos, o ilustrador e caricaturista português mais conhecido do mundo e um dos mais premiados, também decidiu a dado momento da sua vida arrumar o computador, cadernos, canetas e marcadores na mala e voar para vários destinos em busca de inspiração e novos estímulos. Ele, que colabora atualmente para a “Vanity Fair”, “Los Angeles Magazine” e “News Statement”, decidiu durante uns anos deambular e tirar partido do facto de não precisar de estar fixo num determinado lugar para cumprir as suas ilustrações.

Em 2005, começou por ir para Nova Iorque, porque tinha arranjado por lá uma namorada. Na altura, achou que se podia ficar a viver na América, para desenvolver contactos e currículo na terra dos sonhos e das oportunidades. Quando lá chegou já colaborava para o “New York Times” (“NYT”), mas depressa se deu conta que a cidade era demasiado dispendiosa e que por ser um país tão grande os contactos profissionais continuariam a ser feitos por e-mail. O próprio Steven Heller, na época diretor de arte do “NYT”, aconselhou-o a regressar. “Uma casa pequena em Nova Iorque custava na altura no mínimo 3700 euros, enquanto que a minha de Lisboa, que era bem maior, custava 500 euros”. Esteve cinco meses entre NY e Boston, e regressou. E não foi necessário lá permanecer para ver os seus trabalhos publicados, por exemplo. “Percebi que mais valia estar no meu país e em Lisboa, que é onde me sinto em casa. Claro que isso me custou a relação amorosa da altura.” André esteve depois quatro anos em Lisboa, por causa de uma nova namorada. O amor foi ditando as suas moradas. “A minha disposição e disponibilidade para viajar nunca foi partilhada pelas namoradas que tive, porque tinham um emprego e um mês de férias por ano. Eu funciono de outra maneira. Raramente consigo estar 15 dias seguidos sem trabalhar, mas consigo estar o ano todo a viajar.” Uns anos depois lançou-se no projeto de seguir o verão. Onde houvesse sol ele estaria a desenhar. Começou por Moçambique, onde visitou uma irmã, depois rumou a Hong Kong e a Macau, para visitar um tio, passou pela Tailândia e acabou em Goa, que considera o local mais próximo do paraíso onde esteve. “Fiquei instalado num bungalow com as janelas abertas frente ao mar, sem ninguém à volta. Foi terapêutico, mas também opressivo. O mar é um estrondo constante, a natureza não é silenciosa. Dormia ao som das vagas. Estranhamente, acho que só consigo silêncio na cidade. Pelo menos na minha casa, que tem vidros duplos. Habituei-me a esse silêncio.” Regressa a Lisboa, as saudades dos amigos e da terra bateram forte. Há três anos que tem nova relação e há um ano que é pai de uma menina. “Agora estou a fazer viagens interiores com a minha filha e a minha mulher. São viagens tão ou mais válidas. Posso agora estar confinado a um sítio geográfico, mas já tirei do meu sistema as ânsias. Já estou seguro da minha vontade de permanecer aqui. Não me preocupo tanto com as minhas experiências e viagens, mas sim em durar mais e em providenciar mais para a minha criança.” Porque, como escreveu Saramago, sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam...