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Gang do Amoreiras ligado a mais crimes

Luis Barra

Houve crimes semelhantes em shoppings do Algarve e Cascais. Grupo de três homens nunca foi apanhado

Rui Gustavo

Rui Gustavo

Editor de Sociedade

Hugo Franco

Hugo Franco

Jornalista

Numa quinta-feira à noite como outra qualquer, os clientes que ainda passeavam no Algarve Shopping, em Albufeira, mal repararam nos três homens que se dirigiram com uma calma olímpica à Boutique dos Relógios, no interior do centro. Assim que entraram na loja, os homens apontaram uma pistola à única funcionária que estava de serviço, partiram montras e vitrinas com uma marreta e levaram dezenas de relógios de luxo no valor de largos milhares de euros. Saíram sem serem incomodados pela segurança (que não pode usar armas) e fugiram sem deixar rasto. Estavam disfarçados e apesar de terem sido filmados pelas câmaras de vigilância não foram identificados pela polícia.

No dia seguinte, a administração do centro confirmava o roubo e elogiava, sem querer, a atuação dos assaltantes: “O incidente decorreu de forma discreta, sem recurso a violência e sem causar perturbação no exterior da loja.” Um golpe limpo. O Expresso contactou a administração do Algarve Shopping que confirmou o assalto mas não quis acrescentar mais informações.

Este assalto ocorreu em março de 2015 e agora, quase dois anos depois, o mesmo grupo terá voltado à carga. Na última segunda-feira, pouco depois das dez da manhã, três assaltantes entraram armados e disfarçados com máscaras de látex no Amoreiras Shopping Center, no centro de Lisboa. Foram à Boutique dos Relógios, apontaram uma arma aos funcionários, partiram à marretada montra e vitrinas e levaram relógios avaliados em um milhão de euros. Apesar do susto e de vários clientes terem presenciado a cena, não houve feridos e quando a polícia chegou já não havia ninguém para prender.

“Pelo modus operandi e pela descrição dos suspeitos que foi feita pelas testemunhas é muito provável que se trate do mesmo grupo”, admite uma fonte policial. “São profissionais e, tal como no Algarve, agiram com calma e eficiência e sem violência desnecessária.” E porquê escolher um centro comercial cheio de gente, com vários fatores imprevisíveis e incontroláveis e uma grande probabilidade de ficar encurralado? “Um grupo num centro comercial passa mais despercebido do que nas imediações ou à porta de uma ourivesaria de rua”, explica a mesma fonte. “E se houver planeamento, um centro comercial oferece muito mais pontos de fuga do que se possa pensar.”

Depois de roubarem a Boutique dos Relógios do Amoreiras, os três assaltantes desceram dois lanços de escadas, montaram-se nas motas que tinham deixado no parque de estacionamento junto ao liceu francês Charles Lepierre e desapareceram na A5, em direção a Cascais. Nunca tinha havido um assalto assim num dos mais antigos e tranquilos centros comerciais da capital.

Nova tendência do crime

O assalto está a ser investigado pela PJ que até à hora do fecho desta edição não tinha feito qualquer detenção. Apesar de o crime violento ter descido 11 por cento no último ano (ver entrevista com a ministra da Administração Interna nesta edição), este tipo de assaltos “é claramente uma nova tendência”, diz uma fonte policial.

Jara Franco, presidente da Associação dos Diretores de Segurança de Portugal, não tem dúvidas de que o tipo de assalto revela que o grupo fez um trabalho minucioso dentro do centro comercial. “Devem ter estudado com antecedência os movimentos, rotinas e os horários da polícia e da segurança privada.” Ainda de acordo com o mesmo responsável, tratou-se de um ato que revela “audácia”, já que assaltaram uma loja no interior de um dos centros mais movimentados de Lisboa. “Devem ter verificado que o período da manhã, logo após a abertura de portas, era o indicado para o fazer. Cada um dos três suspeitos sabia bem o que fazer, onde estar posicionado e as armas certas para agir de forma rápida, antes da chegada das autoridades. Foi um mal bem realizado”, sintetiza.

Jara Franco tem esperança de que se trate de um caso isolado. “Encaro este tipo de assaltos com preocupação, já que pode tornar mais perigosa a atividade da segurança privada.” E acredita que será seguramente um crime estudado nos cursos de formação aos agentes de segurança privada, “essencialmente para que possam prever comportamentos estranhos dentro de um shopping”.

Não há dados oficiais sobre o número de assaltos realizados em grandes estabelecimentos comerciais, mas o último Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2015 dá algumas pistas: foram realizadas 29 participações às autoridades de roubo a ourivesarias, uma descida de 37% em relação ao ano anterior. Registou-se igualmente uma diminuição nos crimes de roubo em edifícios comerciais ou industriais: menos 14,3%. A criminalidade grupal também caiu para 6069 participações (menos 4,4%). Embora provisórios, os dados do RASI de 2016 já tornado públicos sugerem que este tipo de criminalidade continua a descer.

As exceções, no entanto, continuam a ser notícia. Em novembro, uma ourivesaria do CascaiShopping, em Alcabideche, foi alvo de um assalto com características semelhantes ao do Amoreiras e do Algarve Shopping. Dois homens armados e encapuzados roubaram dezenas de peças da loja ao final da noite, numa altura em que o centro comercial estava quase a encerrar. Os dois funcionários foram imobilizados mas nunca agredidos pelos assaltantes, que partiram as montras com uma marreta. Também neste caso os ladrões fugiram em motas estacionadas no parque, ainda antes da chegada da polícia. Nunca mais foram vistos.