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Arturo Escobar: “A cooperação caducou”

tiago miranda

O atual modelo de cooperação chegou à idade da reforma e existem alternativas a assistir de braços cruzados ao aumento da desigualdade da distribuição

Cristina Peres

Cristina Peres

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Jornalista de Internacional

Tiago Miranda

Tiago Miranda

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Fotojornalista

Reencarnação radical ou graciosa evanescência? São estas as duas possibilidades que o antropólogo e ecologista colombiano contempla para o atual modelo de cooperação para o desenvolvimento. Escobar apresentou em Lisboa a Kapuscinski Development Lecture, uma iniciativa do Centro de Estudos sobre África, Ásia e América Latina do ISEG, subordinada ao título “Desenvolvimento@70: Vida Nova ou Saída Graciosa?”. E falou dos termos fundamentais do atual debate sobre pós-desenvolvimento, que resumiu ao Expresso da seguinte maneira: há alternativas à dependência e à desigualdade crescentes; a autonomia é possível e todos teríamos a ganhar com as alternativas ao extrativismo desenfreado das matérias-primas que devasta os recursos dos países. A América Latina leva a dianteira na proposta de Buen Vivir, a tendência alternativa à expulsão das pessoas para longe da terra. Com influências de Foucault e Said, Escobar cita Stiglitz, Piketty e outros defensores de formas de revolta contra a globalização.

Como entende o pós-desenvolvimento?
Quando estava a pensar no título para a Kapuscinsky Lecture, ocorreu-me que o desenvolvimento tem 70 anos, chegou ao momento em que reencarna ou desaparece. Sete décadas de desenvolvimento produziram efeitos muito questionáveis. A globalização trouxe desigualdade crescente em todo o mundo, entre os países e dentro deles, tudo coroado com a devastação ambiental. Sou antropólogo e ecologista e sinto cada vez mais que o que fazemos ao planeta Terra é inaceitável. Já não sabemos viver como seres humanos na Terra nem com os outros seres vivos. Não é indiferente que nestes 70 anos a desigualdade tenha crescido tanto, quando o desenvolvimento deveria ter criado abundância para todos. Em vez disso, temos super-ricos e superpobres. O título é provocador e propõe que o desenvolvimento se extinga ou se abra a outras possibilidades.

Tais como?
O pós-desenvolvimento na América do Sul toma a forma de Buen Vivir. É uma maneira diferente de pensar nos objetivos da sociedade e na política social, um modo mais compreensivo, mais holístico, que não se esgota em produtividade e desenvolvimento económico, eficiência, competitividade. O Buen Vivir propõe olhar a vida em todas as suas dimensões económica, cultural, social, espiritual, ambiental, para que se repense o modelo de mundo. Não refiro só o mundo capitalista ocidental patriarcal da modernidade europeia, que produziu coisas extraordinárias mas cuja devastação é cada vez mais visível. Já não serve o desenvolvimento tal como o entendemos nas últimas três ou quatro décadas de neoliberalismo.

Porque se transformou num negócio?
Acredito que nas décadas iniciais dos regimes pós-coloniais havia uma intenção sincera por parte dos europeus e norte-americanos, em especial no capítulo da cooperação, de contribuir para a melhoria substancial das condições de vida das pessoas e dos países pobres. Após [Ronald] Reagan e [Margaret] Thatcher, nos anos 80, com o neoliberalismo americano — que na América Latina coincide com os regimes militares —, o aspeto económico imperou: negócio!

Qual é o balanço de perdas que faz?
Perdeu-se a dimensão cultural, da vida digna e sustentável em termos ambientais. Há retórica a nível das alterações climáticas, com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, que substituem os Objetivos do Milénio e são mais retórica do que conteúdo. O que impera é o puro desenvolvimento com vista ao crescimento económico. Começou logo com as grandes instituições, como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional, os departamentos de desenvolvimento regional e as ONG. Muitos argumentam que foi uma forma de abrir mercado para as companhias multinacionais do Norte global.

Está a descrever o modelo tradicional da cooperação?
Sim, aquele que diz: “Nós, os europeus e os norte-americanos, somos desenvolvidos, temos recursos e temos a obrigação ou a possibilidade de ajudar os pobres do mundo a desenvolver-se.” “Brancos bons procuram negros pobres...” É um conceito paternalista que defende que os africanos, os asiáticos ou os latinos não conseguem ir além sem a ajuda do Primeiro Mundo. É paternalismo autocomplacente que permite apagar a história colonial. Há um vínculo antigo entre o colonialismo europeu e o imperialismo americano e o subdesenvolvimento de África e da América Latina.

Como avalia o impacto nos mercados locais?
O livre comércio entre os EUA e a América Latina foi fatal para eles. Na América Latina foi ridículo, porque todos adotaram o modelo de desenvolvimento extrativista, ou seja, a extração de recursos naturais sem processamento para exportação direta nos mercados mundiais. Falamos das commodities, as mercadorias básicas, como soja, ouro, minérios, petróleo, gás natural, óleo de palma, café... Tudo o resto é importado dos EUA e da Europa, incluindo o trigo e o milho. No caso do México, é patético, sempre foi autossuficiente na produção de milho até há uns 20 anos. Agora, não só não consomem o milho local como são obrigados a importar o milho transgénico dos EUA. É a face perversa dos tratados comerciais globais, que favorecem as grandes empresas.

A economia está diretamente ligada à ecologia. Entre o landgrabbing e o pânico ecológico, que alternativas vê?
O modelo atual baseia-se na expulsão. Expulsam-se as pessoas dos lugares. E expulsa-se a natureza do planeta. São expulsões e ocupações. Ocupam-se os mundos das pessoas, há genocídio e também ‘ecocídio’. Há ativistas na Colômbia e no resto do mundo que estão a reagir contra isto. Existe uma campanha neste momento que pretende chegar a um acordo na ONU para que se declarem crimes de ‘ecocídio’, que possam vir a ser punidos pela lei internacional na jurisdição da terra e da natureza. Estes movimentos de defesa decorrem dos crimes que são cometidos contra a terra. O landgrabbing é um processo de expulsão e de ocupação dos territórios e das vidas que já pertencem a alguém. Quando se dá início a grandes explorações mineiras, como aconteceu na América do Sul, as empresas oferecem muito dinheiro para fazer desaparecer as pessoas que habitam naquelas terras, sabendo que, dez anos mais tarde, o recuperam multiplicado. O que fica para trás é devastação, aquelas pessoas ficam sem propriedades, sem direitos. Há comunidades que se estão a opor fazendo referendos locais à exploração por empresas internacionais. Em Barcelona, uns colegas construíram um Atlas de Justiça Ambiental (em linha) que documenta dois ou três mil casos de resistência aos conflitos ambientais, porque os humanos modernos não souberam coabitar com a terra. b