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Puro! Com muito gosto!

D.R.

Os argumentos são tentadores. Um automóvel leve, com motor à frente em posição central, tração traseira, nada de turbos e uma condução pura que remete para o clássico Toyota Celica. Coisa para deixar entusiasmado o jornalista Rui Pedro Reis, que tratou de pôr à prova o Toyota GT86, o primeiro Toyota em muitos anos a fazer mesmo subir o ritmo cardíaco

Rui Pedro Reis/SIC

A posição de condução é baixa e isso percebe-se logo quando se vê o Toyota GT 86 por fora. Assim em vermelho, tem logo ar de um automóvel que convida à diversão. Por dentro, percebe-se a intenção da Toyota de lhe dar alguns toques de conforto, como os acabamentos em Alcântara no tablier. Mas, há também uma vontade expressa de fazer uma viagem no tempo, para os anos 80/90, quando a Toyota assinava alguns desportivos que eram referência, pela relação entre preços, prestações e dose de diversão, como o Celica ou o MR2. Esta é a génese do GT86 e é assim que continua a ser nesta nova geração, que aprimora aquilo que já era um automóvel de puro prazer. A suspensão foi trabalhada e o carro já não é tão duro, mas não perdeu todo o fulgor e espontaneidade que o caracterizam. A rigidez do chassis também foi trabalhada, o que tornou o GT86 ainda mais divertido, se é que isso é possível.

Muito para lá dos números

D.R.

Quando se olha para a ficha técnica do GT86, os dados não impressionam. 7,6 segundos dos 0 aos 100 km é uma marca que qualquer pequeno desportivo consegue fazer e os familiares desportivos com motor turbo conseguem melhores prestações. Mas há muito mais para lá da ciência. Desde logo porque o motor deste Toyota é um Boxer, fabricado pela Subaru e que equipa também o BRZ. Um bloco que dispensa um turbo e que tem o máximo fulgor bem perto das 7000 r.p.m.. Não se chega lá num ápice nem é preciso, porque tudo o que acontece entretanto entusiasma e deixa o condutor com um sorriso na cara. Perto do red line, o GT 86 já perdeu as poucas boas maneiras que lhe restavam e é um rebelde cheio de fulgor e com tendência exuberante. O motor grita a plenos pulmões e a traseira tem uma energia previsível que origina bailados que só vistos de fora podem parecer assustadores. Por dentro são previsíveis quanto baste. Ao motor quatro cilindros junta-se uma caixa bem escalonada, curta e muito precisa. Não é a caixa mais rápida que se pode ter, mas é a que assenta como uma luva a este exemplo nostálgico do que pode e deve ser um desportivo. Como opção há uma caixa automática, mas instalá-la no GT 86 é como tentar fazer nouvelle cusine a partir de uma sardinhada. Não faz sentido. Há alguma magia no GT86. Por um lado a previsibilidade com que as derivas da traseira acontecem mesmo a baixa velocidade. Depois, a capacidade para surpreender, em especial qualquer passageiro mais “cinzento” que viaje ao lado do condutor. Porque este é um automóvel para ser conduzido.

Não deixa de surpreender também que tenha, por exemplo, uns pneus de medida 215/45. Ou seja, os engenheiros da Toyota optaram por ter o mínimo de borracha possível em contacto com a estrada por forma a não criar demasiado atrito. Depois há o peso do conjunto, abaixo dos 1300kg e com um centro de gravidade baixo. São só mais alguns dos ingredientes. Daí até ver o computador de bordo registar curvas onde se atinge 1.0G lateral vai um pequeno passo. Com o passar dos quilómetros, habituo-me ao fulgor do GT86. O que quer dizer que começo a provocar mais o automóvel e a desafiar mais os limites. Junto ao travão de mão, os dois botões de comando do controlo de tração tornam-se tentadores. Um limita a intervenção do TCR o outro é recomendado só para utilização em pista. Como desta vez não vou ao circuito, limito-me ao primeiro comando, que já autoriza brincadeiras em qualquer curva ou rotunda, com uma frente muito precisa e a traseira bem previsível. É que a distribuição de peso é quase 50/50, mas coloca ligeiramente mais peso à frente, o que dá precisão na abordagem às curvas enquanto liberta o eixo traseiro para a parte mais lúdica da condução.

Outros números

d.r.

Pelo que escrevi, percebe-se que o GT86 despertou um espírito adolescente, qual paixão de verão. Só que é inverno e até choveu. Mas é tempo de deixar o motor e o coração arrefecerem e fazer contas aos outros números. Numa condução regular, com alguns exageros pelo meio, o GT86 consegue um consumo a rondar os 9,5 litros. Já quando se carrega no acelerador e se leva o motor boxer de forma consistente acima das 3 500 r.p.m., aí os consumos podem situar-se nos 14 litros ou mesmo mais. Mas acredite que vale a pena. Já o preço, pode retirar o sorriso a quem já sonha com este desportivo de quatro lugares. 44 mil euros pode ser um preço elevado para um brinquedo que é puro prazer. É verdade que um desportivo compacto como o Ford Focus RS custa pouco mais e tem melhores performances, mas nestas coisas da paixão a ciência e a matemática pouco contam. O Toyota GT86 é apaixonante até nas suas imperfeições.

FICHA TÉCNICA Toyota GT86

Motor
1998 cc
200 cv
205 nm 6400 r.p.m - 6600 r.p.m.

Transmissão
Traseira
Caixa manual 6 velocidades

Prestações
226 km/h vel. máxima
7,6 s 0-100 km/h

Consumos
7,8 l/100 km ciclo misto
181g CO2/km

Preço: €44.420