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Está à vista o fim do roaming. E ainda bem...

d.r.

Acabam a 15 de junho as sobretaxas que pagamos nas comunicações que fazemos dentro da União Europeia. Utilizadores individuais e profissionais têm tudo a ganhar. Só os operadores contestam a medida. E é muito provável que sejamos nós, todos, a pagar a fatura

Os operadores de telecomunicações são, sempre, os primeiros a dar-nos as boas-vindas quando estamos a viajar. Basta tirar o telefone do modo offline para ouvir o pingar da primeira SMS. Um aviso que, naquele país, as comunicações de voz e dados estão sujeitas a uma determinada tabela de preços. Vai ser assim mais uns meses, mas as sobretaxas acabam no dia 15 de junho.

Terminam, sim, mas dentro da União Europeia (EU). Para mim, aliás, para os que viajam com frequência na UE, será muito bom poder falar mas, essencialmente, passar a utilizar aplicações sem nos preocuparmos em ter uma surpresa desagradável no fim do mês, quando chega a conta emitida pelo operador.

É verdade que os preços estão a baixar, mas ainda é caro usar aplicações fora de Portugal – 1 GB em roaming custa 50 euros! Claro que é possível contratar planos específicos de roaming. Alguns operadores têm ofertas que permitem usar dados “à vontade” com a cobrança de um valor fixo por dia. No entanto, a partir de junho, isso já não será necessário. Quem ganha e quem perde com o final do roaming? Ganhamos todos. Os utilizadores individuais e os profissionais. Mas não só. Não é fácil antever o que acontecerá, por exemplo, quando os milhões de turistas que nos visitam começarem a publicar fotos e vídeos a contar as experiências vividas em Portugal. Já o fazem, mas com alguma contenção. E as empresas que querem internacionalizar na Europa? As barreiras das comunicações a preço elevado acabam. É mais fácil colocar profissionais no terreno e dar-lhes acesso a ferramentas de comunicação mais poderosas que permitem a conversão em vídeo ou o acesso a elevadas quantidades de informação. Hoje? Os profissionais têm de pensar duas vezes antes de o fazer.

E quem perde? Os operadores, mas não só. Em consequência, em Portugal, também o Estado. Afinal, os operadores pagam impostos sobre as receitas… e as do roaming vão desaparecer. E o que vai acontecer? Vá, é fácil de adivinhar. Vai acontecer o mesmo sempre que um qualquer mercado foi liberalizado em Portugal. Acertou: os preços vão aumentar! Ou seja, seremos todos nós a pagar a fatura. As entidades que falam pelos operadores, a Apritel e a Anacom, já avisaram que alguém terá de pagar os custos que os operadores têm para prestar o serviço aos clientes que nos visitam. Basta imaginar a taxa de ocupação que as redes locais já têm em Portugal na altura do verão. Com o fluxo de visitantes a aumentar e com os preços das comunicações a baixar… é fácil perceber que a ocupação das redes vai ser maior. E estamos a falar essencialmente de dados – a voz continua a perder relevância na ocupação das redes.

Ou seja, o dilema é fácil de entender: os operadores portugueses investiram (investem) na resiliência das suas redes e querem ser onerados, e bem, sobre a sua utilização. Só há algo que faz alguma confusão: os operadores são, essencialmente, empresas que constroem “estradas” para passarem 0s e 1s. Quanta mais informação passar, mais ganham, certo? Então não será o aumento de tráfego suficiente para colmatar o investimento permanente nas redes?

Acredito que a evolução permanente da Europa (como União) depende, também, desta uniformização de preços. Não faz sentido que já possamos passar entre países sem ver fronteiras e continuarmos a esbarrar nestes impedimentos de empresas que detêm o monopólio das comunicações. Poder falar em qualquer país da União Europeia como se estivéssemos em Portugal é mais uma barreira que é preciso abolir. E será, a partir de 15 de junho. Devemos, no entanto, ficar vigilantes para o que possa acontecer, a seguir, ao preço que pagamos pelas comunicações.