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Eles também querem uma casa, amigos e alguém para amar

tiago miranda

Há um mito que lhes está associado: diz-se que são todos génios. Há um condicionamento que lhes está estudado: são capazes de feitos excecionais, como aprender a ler sozinhos, mas têm uma extrema dificuldade em relacionar-se com outras pessoas. Há uma normalidade que lhes está observada: eles anseiam o mesmo que nós -pensam-no é de forma diferente. Este sábado assinala-se o dia internacional da Síndrome de Asperger

Ricardo Nabais (texto) e Tiago Miranda (foto)

Podem saber a distância da Terra à lua e dizê-la sem pestanejar. Ou conhecer todas as estações e apeadeiros de Caminha a Vila Real de Santo António. Ou ainda enumerar as centenas de divindades hindus e quais os seus poderes e representações terrenas. Mas peçam-lhes para apanhar um autocarro, entrarem numa fila de compras num supermercado ou pedir um cafezinho na pastelaria mais próxima… Será para eles, por certo, um esforço titânico. E podem até nem ser bem-sucedidos em tarefas tão simples.

Uma vida com a Síndrome de Asperger (SA), perturbação que os especialistas englobam no espetro do autismo, é uma vida à parte. As pessoas que assim nascem têm dificuldades de socialização, de expressão e de imaginar algo que, não tendo acontecido à sua frente, possa existir fora do seu espaço mental. Muitas vezes têm uma grande inteligência, mas ela pode ser tão impressionante quanto desfasada da realidade. E, na verdade, parece um mistério como pode uma criança saber, por exemplo, tudo sobre dinossauros ou aprender a ler sozinha. Alguns consideram que esta pode ser, afinal, apenas uma forma diferente de pensar.

Mas mesmo esta definição poderá pecar por incompleta. Ou até por inexata: “Sabemos que temos aqui uma patologia de base neurológica, mas muito variável, promovendo alterações no comportamento”, explica Patrícia de Sousa, psicóloga, diretora técnica da Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger (APSA), que realizou uma semana aberta para assinalar o dia internacional da Síndrome de Asperger, este sábado. “É um mundo enorme, bastante diversificado” em que cada pessoa apresenta um perfil individualizado. E, por isso, é um desafio para psicólogos: não há uma forma única de intervenção, mas uma para cada pessoa.

Na sala ao lado da Casa Grande, um projeto fundado em 2014 em Lisboa para auxiliar jovens com Asperger a integrar-se no mercado de trabalho logo após a escolaridade obrigatória, está Teresa Feliz. O filho, José, frequenta aquele espaço todos os dias há três anos, desde que concluiu o 12.º ano. Está hoje com 20 anos e o diagnóstico só chegou às mãos de Teresa quando ele ia nos 17, altura em que Teresa estava em processo de separação. Mas os problemas vieram muito antes, recorda a mãe: “Quando começou a primária pedia para voltar à escola ‘antiga’ todas as manhãs”.

Para um Asperger típico, a sala de aula e o recreio podem ser uma via-sacra. Alguns sofrem de bullying – Piedade Líbano Monteiro, presidente da APSA desde a sua fundação em 2003, recorda o caso de um rapaz que foi atirado para um contentor do lixo por um grupo de colegas. Se este é um caso extremo, a rotina para estes jovens passa por um grande isolamento e pela dificuldade em relacionar-se com os pares. José, por exemplo, explica a mãe, “preferia ficar a falar e a brincar com o psicólogo no recreio da escola”.

Teresa lembra-se de como o mundo parecia ruir quando uma educadora, ainda andava José pela primária, lhe disse que o filho sofria de autismo. “Hoje, se pudesse, agradecia àquela pessoa que teve coragem de me dizer na cara que o meu filho é autista. Porque, realmente, destruiu o meu mundo com aquela palavra, mas se eu tivesse tido outra orientação, provavelmente o José hoje estaria integrado socialmente, a trabalhar ou a estudar, e teria tido uma vida diferente. Ele, eu e o pai.”

Teresa Feliz e o filho, José, que encontrou na Casa Grande uma espaço de integração

Teresa Feliz e o filho, José, que encontrou na Casa Grande uma espaço de integração

tiago miranda

A distinção entre aquele vaticínio de ‘autismo’ e Asperger teria, realmente, feito toda a diferença. É que não é, de facto, a mesma coisa. “Na APSA disseram-me que o meu filho é altamente funcional”, recorda Teresa. Ele forma um grupo de 18 jovens que vai à Casa Grande todos os dias e passa, além do acompanhamento psicológico individualizado, por uma série de atividades também destinadas a captá-los para a integração a partir dos seus interesses. A Casa tem ateliês de artes plásticas, música, costura, informática, jardinagem e cozinha. À medida que a equipa técnica começa a perceber para que lado pendem as vocações, os jovens vão-se fixando mais especificamente numa ou num grupo mais restrito de atividades.

Mas, antes de tudo, é preciso saber identificar o problema, que é de “diagnóstico difícil”, explica Patrícia de Sousa. A SA surge às vezes em pequenas coisas – como estereotipias (gestos repetitivos) ou aquele estranho hábito que alguns têm de perguntar várias vezes a mesma coisa, por exemplo – e, quem está de fora, pode pensar que aquele jovem é apenas tímido ou estranho. Outro cliché associado ao Asperger é o do sobredotado ou o do génio da informática. Diz-se que Bill Gates, o fundador da Microsoft, pode ser um dos mais ilustres exemplos.

É preciso cuidado, contudo, com alguns chavões. “Bill Gates sempre teve o apoio constante da mulher, Melinda”, lembra Piedade Líbano Monteiro. “Costumo dizer que o sucesso de uma pessoa com este perfil depende do caminho que a ajudarem a traçar, das oportunidades que lhe são dadas.” Outros exemplos do mito do génio ligado à SA, presume-se, são os de Einstein ou do filósofo Ludwig Wittgenstein. Mas nunca é demais lembrar que é preciso cautela com estas extrapolações.

Piedade Líbano Monteiro lançou-se de corpo e alma a este projeto com conhecimento de causa. O seu filho, que também tem SA, frequenta a Casa Grande. A experiência própria levou-a a criar uma associação de apoio às famílias cujos filhos padecem do problema, para os tentar integrar, com o incentivo do neuropediatra Nuno Lobo Antunes. A APSA já se dedicava às crianças e, com o projeto da Casa Grande, conseguiu alargar o apoio aos jovens no fim do secundário. Mas “não é uma associação clínica”, sublinha Piedade.

O ateliê de artes plásticas é um dos seis espaços com atividades para os jovens

O ateliê de artes plásticas é um dos seis espaços com atividades para os jovens

tiago miranda

A APSA tem atualmente uma lista de espera de 15 jovens. Alguns conseguiram, entretanto, contratos de trabalho em empresas com as quais a associação tem protocolos e para as quais os encaminha em função das competências que demonstraram. Outros conseguem prosseguir estudos depois de terem descoberto que afinal conseguem seguir em frente com a sua vocação. É o caso de um aluno que acabou por se inscrever na Escola Superior de Música. E este é só um exemplo.

José, por seu lado, ainda não escolheu o rumo, diz a mãe. “Não imagino um futuro para ele, espero… Talvez venha a ter uma gata, que nunca teve.” Problemas de alergias a felinos, principalmente do lado da mãe. Mas, voltando à conversa, Teresa diz que ele confessou ter “três objetivos na vida: uma casa, amigos e alguém para amar”. Não é pedir demais, nem é muito diferente do que qualquer pessoa pode querer.