Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

Fátima será sempre uma questão da fé de cada pessoa

António Pedro Ferreira

É apresentado esta quinta-feira (às 21h), em Fátima, o novo livro de António Marujo e Rui Paulo da Cruz, "A Senhora de Maio – Todas as Perguntas sobre Fátima". Em ano de centenário das Aparições, e com a visita do Papa Francisco, a 13 de Maio, todos os olhos estão postos no Santuário. O jornalista garante que fez todas as perguntas, até "as proibidas". O Expresso fez-lhe sete perguntas

A ideia para este livro começou há muito tempo. Há 17 anos, em 2000, António Marujo e Rui Paulo da Cruz rodaram um documentário sobre Fátima. Nesse ano, João Paulo II deslocava-se ao Santuário, e os autores consideraram que "as entrevistas e o material eram tão bons que era pena cingir-se a um documentário televisivo". Discutir Fátima e as Aparições era o objetivo, "fazer uma abordagem jornalística do tema, em que não houvesse perguntas proibidas". Hoje, sentem a missão cumprida. Ouviram homens da Igreja, um antropólogo, um escultor, pessoas de outras áreas, que enriquecem o livro. E afiançam: em Fátima, assume-se cada vez mais, sem medo, que "Visões" é uma coisa diferente de "Aparições".

Celebra-se em 2017 o Centenário das Aparições de Fátima. Qual o maior tabu em torno das Aparições, e qual a sua tese pessoal?
A haver um assunto mais sensível, é o que envolve a questão das Aparições. Por isso é que o livro também inclui entrevistas a psicólogas, que explicam como funciona o cérebro... Do meu ponto de vista, sendo Católico, acho que a revelação do Cristianismo ficou completa com Jesus Cristo. Quanto aos Pastorinhos, penso que Lúcia teve claramente uma experiência - aliás, isso percebe-se ao ler a descrição que ela faz. Mas penso também que houve uma construção a partir desse imaginário popular.

Considera que houve um aproveitamento político por parte do Estado Novo das Aparições de 1917?
Parece-me evidente que sim. Por exemplo, duma carta escrita em Novembro de 1945 pela irmã Lúcia, dirigida ao Bispo de Leiria, e por sua vez encaminhada para o Cardeal Cerejeira, foi tornado público um extrato, afirmando: "Salazar era a pessoa escolhida por Ele (Deus) para conduzir a nossa Pátria". Mas na verdade, embora esse discurso tenha sido aproveitado, não era mais do que pensava 90% do povo Português, que agradecia a António Oliveira Salazar o facto de Portugal não ter participado na Segunda Guerra Mundial.

Teremos alguma vez alguma "prova" de que as Aparições aconteceram mesmo, em 1917, ou isso permanecerá sempre no seio da fé individual?
Penso que será sempre uma questão de fé, mas se olharmos com atenção, percebemos que houve uma mudança subtil no discurso da Igreja, no sentido de distinguir o termo "visões" de "aparições". No discurso do cardeal Ratzinger (futuro Papa Bento XVI) de 2000, ele afirmou que as visões pertenciam à ordem do privado. E que em Fátima, estávamos na ordem do privado.

Vários livros sobre Fátima chegaram agora ao mercado, fruto do Centenário e da visita do Papa. O que distingue o vosso?
Nós tentamos dar pistas do "Fenómeno" às pessoas, como um puzzle que se vai montando. Damos as mais diversas leituras sobre Fátima. Ouvimos um padre, Mário de Oliveira, que diz muito mal de Fátima, que considera que tudo aquilo se baseia numa mentira, e ouvimos o discurso oposto, nas palavras do ex-reitor do Santuário. Quisemos dar o máximo de leitura possível, quer sobre a História de Fátima, quer sobre a interpretação do "Fenómeno".

O que se pode esperar da visita do Papa Francisco, um Papa pouco ortodoxo, a Fátima, a 13 de Maio?
Penso que o Papa virá insistir no facto de que Fátima não é o centro da Fé Católica, mas sim o Evangelho. Mas também, estará menos de 24 horas em Portugal. Chega às 18h, estará presente no início da Peregrinação, assistirá à Procissão das Velas, e no dia seguinte, fará a Homilia. Não terá muitas oportunidades de falar.

O "fenómeno" de Fátima, em termos de fé, ainda é único no país?
Penso que sim. Fátima recebe 5 milhões de pessoas por ano. Numa sondagem recente, mais de 90% dos Portugueses afirmavam já ter ido a Fátima, mas apenas 70% afiançavam ter uma atividade religiosa regular. Depois, como diz Alfredo Teixeira, "em Fátima, há muitas Fátimas, em função de quem lá vai". Há motivações muito diferentes. Nos anos da crise e da austeridade, havia muita gente a pedir ajuda, por estar desempregada ou ter problemas financeiros. Também há motivos de saúde que levam muitos lá, ou zangas familiares. Mas assiste-se hoje, a um novo tipo de peregrino, que chega menos em romaria e mais de forma individual. E há também uma equipa de pessoas preocupadas em dar uma dimensão contemporânea a Fátima, e propor iniciativas novas, de modo a chegar a um público mais alargado, cada vez mais culto, que chega ao santuário.

O título da vossa obra é "Todas as perguntas sobre Fátima". Houve alguma que gostaria de ter feito e não fez?
Se a irmã Lúcia ainda fosse viva, gostaria de lhe perguntar se viu Nossa Senhora fora dela, ou no seu espírito.