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Amar é...falar numa app (só nossa)

Lucas Knappe / EyeEm

Dicas para beijar, ler os SMS da cara metade, projetar o futuro a dois ou transformar fotos em postais românticos. O Dia dos Namorados também pode ser passado no telemóvel

Hoje em dia não é preciso ser um nerd ou um perito nas manhas de telemóveis e da net para depender do smartphone quanto à preparação do seu Dia de Namorados. Acontece que já estamos tão imersos na tecnologia que nem nos apercebemos. Podemos ter conhecido a nossa cara metade numa aplicação de encontros como o Tinder, a Hapnn ou a Gindr para gays, o que não é vergonha nenhuma e muito mais frequente do que se imagina. Muito mais. Combina-se qualquer coisa por SMS/MMS, FaceTime ou Skype. Antes usa-se o Snapchat para um ‘sextingzinho’ maroto e afoito. Todos estes artefactos techies estão já artilhados com gracinhas tolas para o dia de São Valentim e mesmo as apps de selfies dos telemóveis já terão efeitos dedicados à data, com corações kitsch e flores e rosas e muito amor em bonecada para enviar. E mandam-se mais umas carinhas e focinhos que se adaptam biomorfologicamente em prol das vítimas do Cupido. E pode mandar-se um pequeno vídeo queriducho.

É melhor marcar mesa com antecipação — nada como fazê-lo por telemóvel numa das incontáveis aplicações agregadoras de reservas de restaurantes, não me façam escolher uma — e esta data torna-se “o Natal das sex-shops”, que não têm mãos a medir com tanta encomenda nas suas lojas online para “as brincadeiras inofensivas”. Assim como as floristas que fazem entregas online, mas também um incontável número de aplicações que enviam frases com flores virtuais e poemas sentidos. Até agora, isto é o básico. Não é preciso explicar aqui nada e estamos quase ao nível do infoexcluído, edição romantismo 2017: marcar mesa+enviar bitmoji+carinha máscara no snap+mandar vir brincadeira sexy+flores virtuais da loja de apps. Tudo com o smartphone, enquanto se faz outra coisa qualquer verdadeiramente importante. Na noite em si, postam-se umas fotos no Insta e no Face e mostra-se aos amigos como será eterno o amor sorridente deste São Valentim e como a sua paixão é maior do que a deles. Isto é tão 2014... ou 2015, vá.

Mas o amor é muito mais do que isso. O amor é ter uma app especial que trabalhe a montante e organize a vida a dois, que lembre os momentos especiais, que não permita estar um minuto só, que os mantenha obcecados em permanência. Sim, no mundo das aplicações para telemóveis o Amor com A de app roça muito a obsessão. Fomenta-a, quase. Há apps que ordenam a vida em conjunto como uma gaveta de meias por cores e evitam situações tolas como “ver o mesmo filme separados” ou “comprarem um pacote de leite em duplicado”, promovendo ainda a “criação de projetos comuns de emoções” (Simpyus). Ou outras que instigam à criação de memórias em conjunto, que duram para sempre (Couple). Ou mesmo uma para os namoradinhos que calham a estar separados para os quais sincroniza num sistema operativo o filme (SynaptopTheatre) que vão ver no computador, possibilitando assim que, embora longe um do outro (10 km ou 1000), possam desfrutar exatamente ao mesmo tempo. Uma coisa fantástica. Assim, tipo, como se estivessem a ver um filme num canal televisivo. Como antigamente. Mas isso permite também que troquem mensagens. E podem descarregar uma app que permite que ao tocar no ecrã sintam os dedos um do outro ou mandem beijos e abraços (Avocado). Romântico ou não? Bom, não sei.

Voltemos ao lado prático. Há apps que ensinam o que é intimidade. Que guardam segredos. Ajudam a sonhar. Criam um passado impactante em poucos dias. E, quando se separarem — e pode ser já amanhã — terão tanto para recordar. Sim, afinal, sejamos francos: é fundamental ter memórias e expectativas quando nos sentamos com alguém à luz das velas no dia de São Valentim. E o que seria dos casais de hoje sem as apps para os ensinar? Se elas existem é porque há mercado.

E aparentemente estão sempre à procura de “memórias” para serem validadas em “tempo real”. A maioria promove a criação de uma rede social com murais só para os dois. A toda a hora. Pode dar para o bem (digamos, assim, nos primeiros dois meses) ou para o mal (digamos, quando uma das partes faz queixa à polícia por perseguição). Há uma, a WhereAreYou (onde estás), que serve para o casal de apaixonados saber onde é que cada um está a cada momento (que grande ideia na primeira semana).

A Loving, além de trocar mensagens, dá para ver se o seu amor está a dormir e enviar um despertador para o acordar. Se o amor resistir a isto resiste a tudo. Acho.

São muito pavlovianas. A BetweenUs tem um espaço secreto e íntimo no ecrã. Os casais garantem que é muito viciante. E tem bonequinhos e emotions e tal e duas caixinhas para guardarem memórias e eventos. Com números. Só deles. Tipo: já temos 20 memórias e já fomos a 15 lugares. Ora isso equivale a dizer que é uma boa relação, se for em dois meses. Imagine-se se não tiverem ido a lado nenhum. É para acabar?

Há mesmo apps que ensinam a conviver e a evitar o silêncio confrangedor entre ambos. Uma delas, a TheIceBreak, é como que um tutorial de intimidade. Ensina o casal a saber as coisas privadas um do outro para quando não têm conversa (qual a canção preferida, qual o lugar do mundo que gostaria de ir... ah, tanta coisa por saber da nossa melhor metade). E se forem a um concurso de TV também serve para provar que se conhecem como a palma da mão.

A tal Avocado é uma das mais famosas: “Um lugar secreto só para os dois. Minimalista e funcional. O melhor arquivo da sua relação”. Guarda e lembra o essencial das datas e momentos. É isso. É talvez um upgrade de homem. Mas se formos ver um vídeo explicativo, percebemos que é um snapachat privado com gracinhas dedicadas ao amor em fase conversa bebé, com muitos beijos no ecrã que chegam ao outro lado (beijar um ecrã de smartphone é algo de corajoso, tendo em conta os testes bacteriológicos recentes).

Há muita variante de mural de mensagens privativo. Que fazem um gerador de memórias e criam um calendário de datas especiais que depois reverte num encadeamento de efemérides festivas (caso haja “mais tarde”, claro). Aliás, já surgiram (e desapareceram) apps nas quais cada vez que uma das partes do casal dizia uma coisa querida, ganhava pontos. E no fim do mês, conforme a pontuação, tinha direito a pedir qualquer coisa mais malandra em termos de sexo. Quem vê a série “Black Mirror” acha que estas apps se baseiam nela. Não, a série vai buscar as ideias aqui. A Kouply apareceu em 2013 e foi-se no ano passado. Mas é esperar.

Já a Kindu ajuda os casais a apimentar a sua vida. No fundo, faz de intermediária para o “desviante” no sexo. É a app que propõe as fantasias e atira o barro à parede. E pode ser que os dois queiram. Há várias cores até aceitar. Gostarias de levar tau-tau? Laranja (talvez). Passos pequenos, passos mais pequenos, dona app.

E entra-se agora em terreno movediço. Veja-se esta que se encontra nas mais bem-sucedidas enquanto “aplicações românticas”: o “localizador para casais”. E que consiste em bisbilhotar em “tempo real a atividade do telefone do seu parceiro”. E permite ler os SMS que está a escrever, “ver o número de telefone” e “saber a localização”, bem como “curtidas e comentários no Facebook”. Diz aqui que o aplicativo “não pode ser escondido”. Não sei se é verdade, isso do “consensual”. Mas não deixa de ser doentio.

Há várias de dicas mais terra a terra, como saber beijar (Kissing Tips) ou a Cupple, que faz com que se projetem memórias futuras. Vai a andar na rua, vê um local, fotografa, envia para a outra pessoa e marca com o sinal que está a “pensar nela” ou que “já lá estiveram”. Ou é um local que devem visitar. Não confundir com a já referida Couple, que é muito parecida com a Avocado mas mais dedicada a vídeos e mensagens de voz em tempo real, com capacidade de fazer bonecada na imagem. Já Tokki Coulpes ajuda a definir o mood/disposição em relação ao outro durante o dia. E a partilha em tempo real. Ou seja, o seu amor está 60 minutos por hora a transmitir o que sente por si. Que bom.

Há também um mercado muito grande de apps que são uma espécie de jogos só para mulher e que evoluem numa espécie de casamento que vai alterando o comportamento do marido. Que se pode tornar desde querido e romântico a egoísta e possessivo. Há um manancial deste tipo de apps, com milhões de utilizadoras. Chamam-lhe os Sims do romance e são jogáveis em smartphone. É verdade. Estamos pois a entrar no campo dos que passam mal/odeiam o dia de São Valentim. Há uma app que não vale a pena nomear que tenta procurar a ex e os amigos para saber onde estão “e evitá-los nessa noite”. Ou procurá-los. Fiquemos por aqui.

Numa nota mais prosaica, há apps de poesia instantânea, para transformar a foto de telemóvel num postal de cartão, há apps que personalizam cartões de São Valentim, fotos de amor, wallpapers de romance, há romantic emotions que pode baixar, molduras com corações. Basta introduzir “Valentine” na busca das lojas de aplicações e um mar de rosas corações inunda o ecrã do seu smartphone.
Para quem não queira ir a restaurantes nem mandar postais ou segredinhos, há um termo que se popularizou em 2016. É “Netlflix & chill”. Que curiosamente não quer dizer ver televisão. Certamente tem um telemóvel aí à mão. É googlar e ver o que significa. Há que estar atualizado de apps, mas também da terminologia. Não tem de quê.