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Uma lei, dois destinos

REFERENDO. O 'sim' ganhou com 59,25% dos votos

nuno botelho

Perante uma gravidez indesejada, há dois caminhos: abortar ou ter a criança. Francisca e Marta depararam-se com o mesmo problema e escolheram de maneira diferente. O referendo que abriu caminho à despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez faz este sábado dez anos

Carolina Reis

Carolina Reis

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Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

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Fotojornalista

Os riscos que marcavam positivo chegaram na hora errada. Em vez da alegria que aqueles riscos significavam – um filho –, as lágrimas.

Francisca*, 22 anos, curso de Comunicação Social acabado de fazer, estágio profissional não remunerado e o sonho de ser jornalista. Marta*, 20 anos, estudante de Direito, e a ambição de conciliar uma carreira com uma família numerosa. Ano 2010. Duas jovens mulheres, duas vidas distintas, o mesmo dilema. E agora?

Um preservativo que se rompeu, uma pílula que falhou. Naqueles riscos residia um dilema, um problema e um sonho. A vida a correr de maneira certa na hora errada. O destino nas palma das mãos suadas que seguravam aqueles pauzinhos, comprados a medo e sem contar a ninguém, para tentar tirar dúvidas.

“Senti o coração a gelar. Sou filha única, os meus pais só me tiveram a mim porque não tinham dinheiro para ter mais filhos, e eu cresci a querer ter uma vida melhor que a deles. E isso também incluía ter mais filhos. Ter um salário que não me fizesse não contar os tostões para pagar a creche. Ter a hipótese de os ter no ballet ou nas aulas de música”, conta Francisca. As lágrimas confirmaram-se numa consulta na médica de família. A lei da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG) dava-lhe duas hipóteses: continuar grávida ou abortar.

Exatamente as mesmas opções que dava a Marta. “Fartei-me de chorar. Tenho irmãos, queria muito ter filhos. Nunca tinha, aliás, imaginado a minha vida sem filhos. Namorava desde a faculdade, já tínhamos planeado as nossas vida e os filhos faziam parte dela.” Nascida no seio de uma família de classe média alta, batizada e com mais dois sacramentos feitos, já há vários anos que não ia à missa. “Entrei numa Igreja para ficar a pensar. Não sabia – nem sentia – que aquilo me dissesse já alguma coisa, mas fi-lo.” O namorado, dois anos mais velho e a terminar a faculdade, tinha sido sempre contra o aborto, e não ficou infeliz com a notícia. Abraçou-a e disse-lhe que iam dar a volta. Que tinham famílias e amigos estáveis, que o bebé não ia passar necessidades, que podiam dar-lhe o nome de um dos avós.

Uma normalidade que a deixou constrangida. Uma felicidade que contrastou no quarto alugado onde Francisca e o namorado, de há menos de um ano, discutiam o futuro. Ela a estagiar, ele com contrato precário. Os pais dele longe, os dela mais perto mas longe sem hipótese de ficarem com o bebé todos os dias ou de o irem buscar à creche no final do dia. Havia algum dinheiro de parte para uma viagem que planeavam fazer pela Europa. Uma espécie de InterRail adiado. Os dois sem uma posição dogmática sobre o aborto. “Nunca pensei que fosse confrontada com essa situação. Nunca critiquei as mulheres que abortavam. A minha avó fez um aborto. Contou-me a história de uma parteira que à luz do dia ajudava as jovens mulheres com aquele problema. Na minha cabeça, era uma senhora gorda, de sangue nas mãos e pano sujo ao ombro, numas águas furtadas.”

A vergonha da palavra abortar

Francisca fechou-se em copas com o namorado. Marta contou primeiro à irmã e à prima melhor amiga, depois à mãe. A mãe contou ao pai. O namorado contou aos pais. Ninguém desesperou com a notícia. Ao contrário do que estava à espera, o pai emocionou-se. Não era a hora, mas também nunca há uma hora certa.

Era, oficialmente, uma grávida. Foi à médica, que também era a ginecologista da mãe, e não discutiu com ninguém se havia outra hipótese. Aos olhos dos que lhe eram próximos, o destino planeado sofria um acidente de percurso, uma antecipação, mas mantinha a rota.

“Havia uma calma à minha volta que ainda hoje não consigo partilhar. Eu era como se eu estivesse zonza. Como se eu estivesse de pé e o mundo à minha volta girasse sem que eu o conseguisse fazer parar.” Os dias de Francisca passavam em sobressalto. A decisão estava tomada, não dava para ter filhos. A vida não lhe permitia. “Não era bem uma opção, era a única opção racional e pragmática.” Cabeça e coração com sentimentos distintos. Estava grávida, mas era como se não estivesse. Queria estar grávida, mas também não queria. Tinha um bebé ou um feto na barriga? E a dúvida a instalar-se. Uma vida sem dogmas e, afinal, um dilema.

E as duas – Francisca e Marta – com medo e vergonha de dizer a palavra abortar. “Ninguém pensa em IVG. Ninguém diz estou grávida, 'ah' não faz mal vou ali fazer uma IVG. Ninguém toma a decisão sem dúvidas. Ninguém tem certezas a 100% logo no primeiro minuto. Ninguém aborta com alegria. Ninguém fica sem pensar como teria sido”, diz Marta. Ela pensa muitas vezes como teria sido se tivesse continuado com a gravidez. O filho estaria a fazer sete anos este ano. “Seria o primeiro ano de escola, teria os dentes de leite a cair.”

A alegria, inesperadamente, normal dos que a rodeavam não era sua. Não era aquele o caminho que queria, naquele momento. O relógio da vida adiantava-se ao seu e, sem que alguém esperasse, decidiu o contrário do que os à sua volta tinham tomado como certo. Aliás, não esperavam que para ela fosse uma questão de escolha.

“Há de acontecer comigo a maternidade. Continua a ser cedo, mas sei que vai acontecer.” Agora, que já está mais reconciliada com o mundo, que partilha casa com um companheiro, – o primeiro com quem namorou depois do fim da relação com o namorado de adolescência que a sua decisão provocou – , voltou a pensar no futuro.

Já o futuro de Francisca começou cedo, mas ela também o escolheu. “Também penso muitas vezes se tivesse abortado, se não tivesse engravidado, se ainda estaríamos juntos.” O coração diz-lhe que sim. Mais ou menos da mesma forma como lhe disse que, afinal, tinha chegado a hora de ser mãe.

Os anos não têm sido fáceis. O sonho de jornalista está enterrado, houve contas da luz que foram pagas com um medalhão de ouro que a avó lhe tinha deixado, o agora marido chegou a ter de emigrar e tem dois trabalhos. O trabalho de todos os dias e os biscates que apanha nas folgas, fins-de-semana e feriados. Ela já trabalhou numa loja, num escritório, já esteve desempregada até encontrar nas explicações um novo futuro.

Da próxima vez que Francisca e Marta virem os mesmos riscos que viram há sete anos, o sentimento há de ser diferente. Sorrisos em vez de lágrimas.


*Os nomes foram alterados a pedido das entrevistadas que preferem manter a privacidade