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A tecnologia é uma força de bloqueio a potenciais novos tiranos

VIGILANTES. A tecnologia pode dificultar as intenções dos déspotas e ajudar a evitar tragédias como as vividas na II Guerra Mundial. Mas a tecnologia não faz tudo. Travar os absolutismos e os radicalismos depende, em última análise, de sociedades ativas e vigilantes

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A Internet é um amplificador gigantesco. Conta-nos mentiras em que acreditamos e leva-nos a agir em conformidade com essas patranhas. Mas também é rápida a contradizer a pós-verdade e a despertar-nos a consciência para o que é mais importante. E temos de contar com a rebeldia da tecnologia e como hoje a sua descentralização permite um equilíbrio de forças inédito na história da Humanidade

A ascensão de Hitler ao poder deve-se a inúmeros fatores. Um dos principais é a hiperinflação que tomou conta da Alemanha em 1922-23. Os preços subiam tanto e a um ritmo tão acelerado que os empregados nos restaurantes gritavam os novos preços da ementa a cada meia hora. A situação era insustentável e o marco chegou a ser brinquedo para as crianças se entreterem – como CONTA O “ECONOMIST”.

Hitler utilizou os media para a sua propaganda. Jornais, revistas, rádios e cinema. A ideia base era tornar a Alemanha “grande outra vez”. Um “terceiro império” com o mundo a seus pés e no qual a eugenia produziria a sociedade perfeita. Eliminando a oposição e calando os meios que lhe eram desfavoráveis, Hitler criou uma imagem, junto dos alemães, de que seria capaz de unificar o país e voltar à prosperidade perdida após a desastrosa Iª Guerra Mundial. Esta construção resultou no pesadelo que todos conhecemos.

Nas últimas semanas, muitos são os que têm escrito sobre a possibilidade de Trump vir a tornar-se num novo Hitler. Um exagero, mesmo tendo em conta as alarvidades que o novo Presidente dos Estados Unidos produziu em tão pouco tempo. Na verdade, a mesma tecnologia que facilita hoje a chegada rápida de uma mensagem a muitos, acaba por ser um travão à criação de um novo ditador com a dimensão horrífica de Hitler.

À medida que vamos entrando nesta era de “pós-verdade” e de “factos alternativos”, percebemos que nunca foi tão fácil enganar tantos… em tão pouco tempo. No entanto, a velocidade a que surge o contraditório é igualmente meteórica.

Este fim de semana, uns imbecis quaisquer andaram a desenhar suásticas nas carruagens do metro em Nova Iorque. Como CONTA A CNN. Aquilo que na Alemanha nazi ficaria escondido, apareceu rapidamente nas redes sociais, onde vários voluntários se predispuseram a limpar o lixo. E limparam. O mundo ficou a saber que este tipo de agressão não vai ser tolerado. E quando escrevo o “mundo” é, mesmo, o mundo. Inteiro. As reações nas redes sociais vêm dos cantos mais recônditos do planeta.

Nunca estivemos tão sujeitos à mentira, mas também nunca estivemos tão vigilantes. E a tecnologia não permite apenas assistir de camarote a estas alarvidades. Basta recordar como o plano nuclear iraniano foi barrado pelo “simples” contágio de um vírus, o Stuxnet. Durante mais de um ano, esta “toupeira digital” foi trabalhando sem ser notada na central nuclear iraniana e avariando, sucessivamente, as centrifugadoras que desempenham um papel vital no enriquecimento de urânio. Nem foi preciso ir ao Irão ou colocar em perigo espiões ou tropas especiais. Os “piratas” só tiveram de encontrar forma de o Stuxnet contaminar algumas pens que, mais tarde ou mais cedo, eles esperavam que fossem colocadas num dos computadores da central. E foi o que aconteceu, provocando a contínua avaria das centrifugadoras. Estava criada a primeira “Arma Digital Mundial”, como conta Kim Zetter, jornalista especializado em cibersegurança, no LIVRO “COUNTDOWN TO ZERO DAY”, disponível na Amazon.

Estas novas armas são assustadoras no seu alcance, é certo. Mas o mais preocupante é a forma como agem sem deixar rasto. Aliás, ainda hoje não se sabe, oficialmente, quem foram os criadores do Stuxnet. O “Washington Post” publicou, em 2012, um texto onde são ouvidas algumas fontes que indicam que terão sido os Estados Unidos e Israel a desenvolver a “arma digital”. Algo que viria do mandato de George W. Bush e que terá sido continuado, e foi autorizado, por Obama. Pode ler AQUI o texto do jornal norte-americano

Um déspota tipo Hitler encontraria, hoje, os seus inimigos naturais e todos os outros – os que operam na sombra da tecnologia. Como foi possível parar o programa nuclear iraniano, também vai ser possível desligar as armas dos aviões, “desnortear” os drones militares ou, por exemplo, parar fábricas e outros veículos.

E, claro, a nível social, um tirano tem de lidar com um exército infindável de cidadãos, testemunhas, equipados com smartphones onde o poder das câmaras e das ligações à Internet permite, rapidamente, disponibilizar conteúdos a todo o mundo. Foi assim que vimos as imagens da Primavera Árabe e é assim que vemos o que se passa na Síria ou testemunhamos o desespero que leva milhares a lançarem-se ao Mediterrâneo.

Estas imagens são o motor para a indignação que começa nas redes sociais, passa para os media e pressiona políticos e instituições. Somos muitas vezes sensibilizados à força… como no caso da fotografia que mostra o doloroso abraço eterno da criança refugiada à areia de uma praia turca.

Infelizmente, a Internet quando nasce não é para todos e sabemos muito pouco do que se passa em várias regiões da China, da Rússia, da América do Sul ou de África. Aí, o acesso à Grande Rede é escasso em penetração e vasto em controlo por autoridades políticas e militares. Mas também isso pode mudar com os planos arrojados de empresas como a Google e a Facebook que querem levar a Internet a todo o mundo.

Voltando ao início. Trump não é Hitler. Reforço que a comparação é exagerada e desmascarada pela notória pouca inteligência reconhecida ao Presidente dos Estados Unidos. No entanto, seja quais forem as suas intenções, Donald Trump e os seus apoiantes mais fervorosos (como os que andaram a dar largas ao ódio nas janelas do metro nova-iorquino) têm pela frente um exército de equipamentos e de pessoas que vão estar a vigiá-los de forma incessante. É quase um Big Brother ao contrário. Este derruba muros e promove a inclusão. Uma arma para globalização que nos aceita, a todos, independentemente, da forma como pensamos e agimos.

Sim, a tecnologia pode dar a ilusão de que somos facilmente controlados (e alguns de nós sucumbem, mesmo, a este poder). Pode amplificar a capacidade de agirmos como rebanho. Mas é na sua capacidade de despertar consciências que encontramos o principal travão a qualquer um que queira assumir-se como tirano em terras esclarecidas.