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Manuela Azevedo trabalhou “quase até ao último dia da sua vida”

Auto-retrato da jornalista e escritora Manuela Azevedo

Imagem cedida por familiares

Jornalista mais antiga do mundo e primeira a receber em Portugal a carteira profissional estava, aos 105 anos, a preparar um livro de cartas. “Ela sempre fez questão de continuar casada com a escrita, com o jornalismo, com os livros”, recorda o afilhado

Na hora da morte, tal como nos últimos dez anos da vida, era Gentileza quem estava sempre a seu lado. A mulher a quem Manuela Azevedo chamava de “a minha pérola” ou “o braço todo de mim” era mais que uma empregada para a jornalista. Era o seu braço direito, uma presença constante na casa no bairro das Colónias e ainda quem, todos os dias, lhe transmitia as notícias de Portugal e do mundo.

A primeira jornalista a ter carteira profissional em Portugal e repórter mais antiga do mundo, como é apelidada pelo Museu Nacional da Imprensa, foi internada na passada terça-feira no Hospital de S. José com um trombo no intestino e faleceu esta sexta-feira por volta das 12h. Aos 105 anos.

“As minhas irmãs chegaram um pouco depois [de ter morrido]”, conta ao Expresso o primo e afilhado da jornalista, ensaísta, poeta e escritora, Adelino Lage, acrescentando que Manuela Azevedo conseguiu partir “em tranquilidade” e “sem sofrimento”.

A jornalista Manuela Azevedo a trabalhar

A jornalista Manuela Azevedo a trabalhar

Fotografia cedida por familiares

Adelino recorda-a como uma mulher dinâmica das letras e da cultura, que nunca deixou de fazer aquilo que gostava. “Ela sempre fez questão de continuar casada com a escrita, com o jornalismo, com os livros.” E nem a perda de visão ou audição a afastou deste casamento. Mesmo com 105 anos continuou a preparar mais um livro, ajudada por uma das irmãs de Adelino, Etelvina, e o amigo Leonel Gonçalves.

“É um livro de cartas que ela foi recebendo e enviando ao longo da vida a várias personalidades do mundo das artes, humanidades, política”, explica o afilhado. “Os três andavam a escolher e a documentar as cartas. Tinham tido uma sessão de trabalho na semana passada e hoje tinham outra agendada.” Mas Manuela Azevedo acabou por partir. “Ela esteve a trabalhar quase até ao último dia da sua vida.”

Ainda assim, o trabalho de reunir, documentar as cartas e publicar o livro deverá continuar pela mão de Etelvina e Leonel. Ainda não há data de publicação, mas existe uma ambição: lançar o livro a 31 de agosto, o dia do seu aniversário.

O corpo da jornalista será velado sábado, a partir das 15h, na Igreja Paroquial de Nossa Senhora dos Anjos (Almirante Reis) e a missa de funeral decorrerá no domingo a partir das 12h45. A urna segue para o cemitério do Alto de São João onde, a pedido da jornalista, o corpo será cremado e as cinzas depositadas no jazigo de família, junto da irmã, de quem era muito próxima.