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“O nuclear está fora do esquema democrático”

HENRI BAGUENIER. Ligado a Portugal há mais de 40 anos, o economista francês lecionou Economia da Energia no Instituto Superior de Economia e Gestão, em Lisboa e foi um dos consultores do plano energético português nos anos 80 do século XX. Na altura, como não podia opinar publicamente sobre o nuclear (por fazer parte de uma comissão científica francesa e por França ser o país que tentava vender a tecnologia nuclear a Portugal), assinava artigos de opinião contra esta forma de energia no Expresso usando o nome de mulher

O especialista em economia da energia Henri Baguenier, que foi um dos consultores do plano energético português nos anos 80, chama a atenção para os riscos da segurança nuclear na Europa e no mundo. Em entrevista ao Expresso, diz que “não há um verdadeiro controlo independente” das questões de segurança nuclear e lamenta que este sector esteja “fora do esquema democrático normal”

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Desde que numa aula de física no liceu percebeu que o “risco desproporcionado” de produzir energia nuclear era como “matar uma mosca com uma kalashnikov” que Henri Baguenier se tornou assumidamente antinuclear. Aos 66 anos, o economista francês continua a ser um ativista neste campo. Esteve recentemente em Lisboa, onde participou na conferência internacional organizada pelo Movimento Ibérico Antinuclear (MIA) com o objetivo de “fechar Almaraz”. Em entrevista ao Expresso, argumenta que “a energia nuclear” funciona sem verdadeiro controlo”. “O nuclear foi sempre o grande poluidor da política comunitária.”

Porque não vemos em França ou em Espanha as populações a manifestarem-se contra o nuclear?
Há de chegar o dia em que partimos de zero reações à rejeição total. Espero que isso não aconteça na sequência de um acidente, mas a ameaça é mais forte que a concretização.

Ao detetarem peças falsificadas e problemas nas estruturas das centrais nucleares em França houve ordem para pararem. No caso da central de Almaraz, isso não aconteceu. O ministro do Ambiente português diz que “são incidentes comuns a qualquer unidade industrial”...
Ao nível internacional, o nuclear continua a ser um desafio aos princípios básicos da democracia. A Agência Internacional de Energia Atómica da ONU pode estatutariamente promover, estudar e controlar o nuclear, quando deveriam ser atividades separadas. A Organização Mundial de Saúde não tem qualquer competência em estudos de epidemiologia ligados ao nuclear. A Agência Europeia do Ambiente está proibida de falar sobre o nuclear na Europa.

O lóbi nuclear tem um poder desmesurado?
A nível internacional, o nuclear está fora do esquema democrático normal. A segurança nuclear na Europa é deixada ao livre arbítrio de cada país, que comunica o que quer sem um verdadeiro controlo independente. Há uma convenção internacional que diz que em caso de um acidente as empresas têm de assegurar a cobertura de responsabilidades na casa de mil milhões de euros, mas empresas como a EDF [a maior produtora e distribuidora de energia em França] não têm mais de 300 milhões para isso. O resto seria pago pelo Estado francês e pelas vítimas.

Mas as novas regras de segurança pós-acidente de Fukushima obrigam a investimentos de mais de 250 mil milhões para manter as mais velhas centrais nucleares europeias a funcionar…
Mas como tudo é deixado às autoridades nacionais de segurança, cada país decide à sua maneira. A EDF queria que o Parlamento francês aprovasse o prolongamento das centrais por 20 anos para poder adiar os investimentos necessários ao desmantelamento. Em Espanha, o Conselho de Segurança Nuclear eximiu-se desta ordem e não vai impor regras nenhumas. E não há sanções. É como se fosse a 150 km/h na autoestrada e o polícia apenas lhe dissesse para não ir tão depressa para a próxima.

Um relatório do Banco Mundial “foi o golpe mortal do nuclear em Portugal, em 83”

Um relatório do Banco Mundial “foi o golpe mortal do nuclear em Portugal, em 83”

d.r.

O que acha que vai acontecer no caso da central nuclear de Almaraz em Espanha? Vai ser prolongada? A queixa apresentada por Portugal vai ser tida em conta?
Vão invocar a intervenção da Euratom e exprimir uma preocupação, mas não vão parar Almaraz. A Comissão Europeia não tem como dizer “não podem fazer”. Só pode atrasar uns meses a construção do aterro. E não podem obrigar Espanha a fazer avaliação de impacto ambiental transfronteiriço no caso de decidirem prolongar a central. Vão adiar o problema do desmantelamento, ganhando mais dinheiro prolongando a vida da central. Vinte anos são quatro governos.

Foram os ecologistas, com a ajuda da economia, a impedir a construção da projetada central nuclear de Ferrel, em Portugal, nos anos 70?
Ganhámos a guerra antinuclear pelas ações meritórias dos ecologistas e, sobretudo, pela economia. Para Portugal, seria um buraco económico, segundo um relatório do Banco Mundial que os ecologistas colocaram nos jornais e que foi o golpe mortal do nuclear em Portugal, em 83.

Hoje, continua a ser a economia a única forma de travar projetos nucleares?
A economia é a razão para a maioria de os países no mundo não se meterem no nuclear. É a minha visão há 40 anos e hoje é mesmo uma constatação. O nuclear é uma das formas mais caras de produzir eletricidade. A maior prova disso é o projeto da central nuclear em Inglaterra, ganho pela EDF, que vai obrigar os ingleses a pagarem €110 por megawatt-hora (MWh) quando o custo de produção eólico anda nos €60-65 MWh e os do solar também. A tendência é os custos da energia nuclear subirem e os da eólica e solar baixarem. Mas não é só a economia que trava o nuclear. Os riscos sempre foram outra das razões para lhe pôr travão. Veja-se o que aconteceu em Chernobyl, quando uma elevação de temperatura fez derreter o recipiente central como queijo. Uma semana antes, os pró-nuclear diziam que isso era impossível. As pessoas sempre confundiram uma probabilidade fraca com a impossibilidade de um acontecimento. A probabilidade de ganhar no totoloto é muito fraca mas todas as semanas alguém ganha.

As questões de segurança levaram ao fecho de reatores em França? Têm 58 reatores. Quantos estão fechados e desmantelados?
Descobriram peças em aço com defeito de qualidade em algumas centrais. O presidente da Autoridade de Segurança Nuclear francesa apresentou uma queixa por considerar que houve falsificação de testes e não apenas um mero erro. Em outubro chegaram a estar 22 reatores fechados para verificarem problemas. Neste momento há uma dezena de reatores (construídos nos anos 60-70) que fecharam por terem chegado ao fim de vida, mas nenhum deles foi ainda desmantelado e não o será tão cedo. Mas há mais centrais para fechar. A grande discussão em França agora é porque é que a EDF obteve a autorização para prolongar o tempo de vida das centrais de 40 para 60 anos, como querem fazer os espanhóis com a de Almaraz.

Porque querem prolongar essas centrais?
Pensam que é mais barato prolongar que fazer uma nova e adiam por 20 anos ou mais o problema do desmantelamento. Há um relatório do Parlamento francês que diz que “parece que a fileira nuclear não antecipou o desmantelamento” ao não assegurar custos e adiam o desmantelamento até 2100 de oito reatores fechados. França tem a taxa mais elevada de aquecimento elétrico da Europa devido ao lóbi do nuclear, que não deu opção de escolha às pessoas sobre como querem aquecer as suas casas.

Antinuclear. Henri Baguenier foi professor do coordenador português do Movimento Ibérico Antinuclear, António Eloy

Antinuclear. Henri Baguenier foi professor do coordenador português do Movimento Ibérico Antinuclear, António Eloy

d.r.

O lóbi do nuclear sempre vendeu esta energia como barata. Está o nuclear em queda?
Sim, diziam que era “too cheap to meter”. Mas é falso. Hoje há menos potência nuclear no mundo do que há 20 anos. Havia 440 reatores em 2004 e agora há 402 e a capacidade global diminuiu oito mil megawatts entre 2000 e 2016 em potência instalada, enquanto no mesmo período a eólica cresceu 417 mil MW e o solar fotovoltaico mais de 300 mil MW. O business está nas renováveis e não no nuclear . Hoje, o nuclear representa 10% a nível mundial quando representava 15% há 10 anos. Caiu um terço. Mas se fizermos outras contas, estes 10% representam apenas 2% da energia consumida no mundo, já que a eletricidade representa 20% do consumo energético.

Em França, o nuclear representa 75% da eletricidade produzida. É difícil acabar com ele?
O Governo atual tem um programa de transição energética que diz querer baixar o peso do nuclear de 75% para 50% até 2025. Mas não estão a fazer nada para chegar lá. Os pilares do nuclear em França assentam em três razões: a ideia de energia barata, segura e a independência energética. Mas este pilares começam a ser questionados. A eletricidade é aparentemente mais barata porque é subsidiada e o IVA é mais baixo em França. O Estado francês controla económica, política e administrativamente todo o sector nuclear. Detém 87% da EDF e 86% da Areva. Ou seja, o Estado pega no dinheiro de um bolso para pôr no bolso ao lado.

Também a questão da independência começa a ser questionada.
Sim. É falso dizer que o nuclear é uma energia primária nacional, porque França importa 100% do urânio que utiliza e tem como principais fornecedores o Cazaquistão (que todos os presidentes franceses visitam uma ou duas vezes durante o mandato) e o Níger, cuja colonização acabou há 40 anos.

E quanto à segurança, a própria Areva está sob suspeita de ter produzido peças defeituosas para centrais nucleares em França e noutros países, nomeadamente para a central nuclear de Almaraz em Espanha, certo?
Sim e é suspeita de ter aldrabado voluntariamente os testes de segurança. A Areva está falida. Tem um défice acumulado de €11 mil milhões devido em parte à aventura finlandesa e por ter sido vítima de uma burla, já que comprou uma mina de urânio na Namíbia mas não havia urânio. As ações passaram de €32 a €4. Como está em estado de falência, estão a fazer o que fizeram aqui com o BES - há a empresa boa e a empresa má e obrigam a EDF a comprar a má empresa.

As pessoas não se mostram preocupadas? Não há manifestações contra o nuclear em França?
Até acontecer Fukushima, a autoproclamada elite francesa (da extrema direita ao partido comunista) era a favor do nuclear. Na base está o discurso construído por Charles de Gaulle no fim da II Guerra, assente na ideia da defesa do Estado. França fez explodir o tratado que institui a Comunidade Europeia da Energia Atómica (Euratom), que previa uma partilha do nuclear pacífico. Mas ficou cada um por si. Os franceses não queriam interferências na sua política nuclear e a eles juntaram-se os ingleses depois, que tinham descoberto petróleo e também não queriam uma política comum nessa área. O nuclear foi sempre o grande poluidor da política comunitária. Metade dos países da UE tem a outra metade não.

Há centrais novas em construção?
Os projetos novos na Finlândia e em Inglaterra custam milhares de milhões e no fim é o contribuinte que vai pagar a fatura. Os finlandeses puseram um processo aos franceses porque os reatores ainda não funcionam e os testes de segurança detetaram uma fissura no interior do reator. Deviam estar prontos em 2013 e a conta já passou de 11 mil milhões de euros.

Mas afinal o que mudou depois do acidente de 2011 em Fukushima?
A segurança ficou abalada com o acidente de Fukushima. Ainda em março passado o presidente da autoridade de segurança nuclear francesa afirmou que um acidente como aquele pode acontecer na Europa, o que era impensável ouvir num dirigente que ocupa uma tal posição. O regulador tornou-se o homem a abater. Um inquérito sobre o nuclear revela que em França a opinião começa a mudar. Mais de 50% das pessoas costumavam estar a favor do nuclear e agora mais de 50% estão contra.

É um antinuclear assumido?
Sim, estou na lista negra do lóbi nuclear. Os meus alunos há 40 anos deviam pensar que eu era Cassandra. Mas hoje penso que afinal Cassandra era otimista. Nem eu tinha capacidade para pensar que seria tão mau assim. O meu antinuclearismo é muito primário. Quando andava no 9º ano e um professor de física nos explicou todo o processo perigoso de quebrar o núcleo do átomo só para por água a ferver, que é o que faz numa central nuclear, eu achei os riscos desproporcionados. É como matar uma mosca com uma kalashnikov.