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Morreu o homem que fez das estatísticas um espetáculo

Hans Rosling, o professor e médico sueco que falava dez línguas, entre as quais o português, morreu aos 68 anos e tornou-se muito popular em todo o mundo graças ao verdadeiro show que dava nas suas conferências e programas de TV sobre um tema aparentemente árido, complexo e maçador: as estatísticas

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Natalidade, população, saúde, vacinação, mortalidade infantil, riqueza por habitante, educação, clima, refugiados, emancipação das mulheres, vítimas de desastres naturais. O médico e professor sueco Hans Rosling, que morreu esta terça-feira, vítima de um cancro no pâncreas, transformava a apresentação das estatísticas relacionadas com qualquer tema sobre desenvolvimento social ou económico num autêntico espetáculo, nas suas populares conferências e programas de TV.

Carismático e com um apurado sentido de humor a abordar assuntos sérios, o famoso especialista em estatísticas tinha um poder de comunicação excecional quando falava em público e deu uma conferência no Teatro D. Maria II, em Lisboa, em setembro 2015 a convite da Fundação Francisco Manuel dos Santos, no quinto aniversário da base de dados Pordata, criada por esta instituição. Na sua conferência em Lisboa falou em português, língua que aprendeu em Nacala, Moçambique, quando aí trabalhou como médico entre 1979 e 1981, no âmbito da organização Médicos sem Fronteira.

Hans Rosling falava dez línguas e foi presidente da Fundação Gapminder, uma instituição sem fins lucrativos de que foi co-fundador, que promove o desenvolvimento sustentável em todo o mundo. O seu filho Ola Rosling desenvolveu na fundação um sistema de software único chamado Trendalyzer, que permite apresentar as estatísticas através de gráficos animados e interativos, de tal modo que um único gráfico em movimento pode apresentar em simultâneo cinco séries de estatísticas diferentes sobre o mesmo tema. O software foi comprado pela Google mas é de acesso livre no site da Fundação Gapminder.

Ao longo da sua carreira, Rosling investigou várias doenças nos países pobres e as ligações entre o desenvolvimento económico, a agricultura, a pobreza e a saúde. Nas suas conferências parecia sempre otimista em relação às perspetivas de desenvolvimento mundial, mas em entrevista dada ao Expresso quando esteve em Lisboa, recusou essa imagem e contrapôs: "Não sou otimista, mas tenho antes uma atitude séria e preocupada porque baseio-me nos factos estatísticos".

O médico sueco, que foi professor de saúde pública no prestigiado Instituto Karolinska (Suécia), chamava a atenção para a ignorância estatística existente entre a generalidade da população dos países desenvolvidos, bem como entre os decisores, os académicos e os media, o que levava o público a ter uma visão "simplista, distorcida, preconceituosa e incompleta da realidade". O objetivo da Fundação Gapminder, das suas conferências e programas de TV era, precisamente, acabar com essa ignorância estatística.

  • A “pop star” das estatísticas

    Hans Rosling participou em Lisboa, em 2015, numa conferência que assinalou os cinco anos da Pordata, a base de dados sobre Portugal criada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. O Expresso republica um trabalho divulgado nessa ocasião sobre o o professor e médico sueco que transformou as estatísticas num espectáculo mediático