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Maior complexo de barragens do país nasce no Tâmega

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Iberdrola vai investir 1500 milhões de euros para construir três barragens na região Norte. O projeto começou com a entrega de um “cheque” de 303 milhões de euros ao Governo de Sócrates, em 2008

Miguel Prado

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Jornalista

Jaime Figueiredo

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Foi há já nove anos que o Governo do então primeiro-ministro José Sócrates lançou aquele que seria um dos projetos estruturantes da sua política energética de fomento das fontes renováveis. O programa nacional de barragens avançou, em dezembro de 2007, com um lote de uma dezena de projetos que, concessionados por concurso, ampliariam o aproveitamento de energia hídrica no país. No ano seguinte, a espanhola Iberdrola marcaria a sua posição, assegurando quatro dessas novas barragens, mais do que qualquer outra elétrica, incluindo a portuguesa EDP, líder incontestável na produção de eletricidade no país.

Garantir os quatro projetos hidroelétricos em Portugal não saiu barato. No final de 2008, a Iberdrola entregou ao Estado português um prémio de 303 milhões de euros por aquelas concessões, que seriam exploradas no rio Tâmega e afluentes. Foi o maior cheque que o Governo Sócrates recebeu no âmbito do plano de barragens, em que a EDP pagou uma contrapartida de quase 232 milhões de euros para poder construir as centrais de Fridão e Alvito e 53 milhões pela de Foz-Tua. A espanhola Endesa pagou ao Estado português um prémio de 35 milhões pelo empreendimento de Girabolhos, do qual entretanto desistiu.

A Iberdrola estava apostada, portanto, em construir no Tâmega um dos mais ambiciosos complexos hidroelétricos do país. Seriam quatro centrais: Gouvães, Alto Tâmega, Daivões e Padroselos. Mas esta última viria a ser excluída do projeto, por motivos ambientais. Em 2014, a Iberdrola firmaria finalmente o contrato de concessão das três barragens do sistema eletroprodutor do Tâmega. Projetos que começam a sair do papel.

Esta quinta-feira, a Iberdrola irá assinalar formalmente em Ribeira de Pena o arranque da construção de uma das maiores empreitadas de sempre no sector elétrico em Portugal. O investimento global ascende a 1500 milhões de euros, dos quais perto de 500 milhões já aplicados (incluindo os prémios de concessão de 303 milhões de euros). A empresa prevê gerar durante a construção 3500 empregos diretos e outros 10 mil indiretos. Após a conclusão das obras (que se estenderão até 2023), a Iberdrola ficará a explorar as três centrais durante 70 anos. No seu conjunto, as barragens deverão ter uma potência de quase 1200 megawatts (MW), produzindo anualmente o equivalente ao consumo de eletricidade de 440 mil famílias portuguesas. O sistema do Tâmega terá 6% da capacidade de produção de eletricidade do país.

O complexo hidroelétrico prevê uma barragem a montante, a do Alto Tâmega, com dois grupos de 80 MW cada, que farão uma turbinação convencional da água. Mais abaixo, a central de Gouvães ficará equipada com quatro grupos de geração com 220 MW cada. No final da cadeia estará a barragem de Daivões, que terá dois gruos de 59 MW cada. A unidade do meio (Gouvães) será dotada de um sistema de bombagem que permite bombear água de volta para o rio, para que volte a ser turbinada mais tarde.

A bombagem vem sendo utilizada nos sistemas hidroelétricos como forma de gerir o armazenamento de água, aproveitando momentos em que o custo da eletricidade é mais baixo (por exemplo, quando há uma abundante produção eólica) para, consumindo essa energia barata, poder recuperar recursos hídricos que posteriormente podem voltar a ser usados para produzir eletricidade quando o valor desta em mercado for mais elevado.

No terreno já foram feitos alguns trabalhos preparatórios. Em abril de 2016, a Iberdrola já tinha construído um dos acessos ao projeto de Gouvães, bem como acessos a Daivões e algumas fundações para linhas de eletricidade de apoio às obras. Há um ano, a empresa também já tinha avançado com a negociação de contrapartidas para os municípios abrangidos pelos empreendimentos.

Associações de defesa do ambiente como o grupo Geota vêm-se manifestando contra as novas barragens, concluindo que o seu contributo para responder ao consumo de energia no país será residual. Na ótica destes movimentos, seria preferível e economicamente mais racional investir em soluções de eficiência energética que baixassem o consumo de eletricidade em Portugal. Em contraste, os promotores dos empreendimentos argumentam que as barragens permitem ao país explorar um recurso endógeno e travar a importação de combustíveis fósseis para a produção de eletricidade (como carvão e gás natural).

Por outro lado, para lá do impacto energético, os novos empreendimentos hidroelétricos têm consequências nas áreas em que ficarão instalados. Se em projetos como o do Alqueva a criação de albufeiras pode estimular o surgimento de negócios na área do turismo, noutras centrais hidroelétricas os benefícios económicos futuros são mais incertos.

O estudo de impacto ambiental para o sistema hidroelétrico do Tâmega prevê que mais de meia centena de habitações fique na área que será inundada quando as barragens entrarem em operação. A declaração de impacto ambiental que viabilizou o empreendimento exigiu à empresa que garanta o realojamento daqueles habitantes, entre outras medidas de compensação.