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Conheça a primeira “vítima” de Álvaro Siza Vieira

PRIMEIRA ENCOMENDA. Hoje com 93 anos, Manuel Neto continua a usufruir da casa encomendada ao jovem Siza há 60 anos

LUCÍLIA MONTEIRO

Há 60 anos, o gerente de uma empresa de pesca ousou chamar um jovem desconhecido, ainda com o curso de arquitetura por terminar, para lhe desenhar uma casa. Era a primeira encomenda do primeiro projeto para a primeira casa desenhada por aquele que vem a transformar-se num dos mais importantes arquitetos do mundo contemporâneo: Álvaro Siza Vieira

Há 60 anos, um homem em Matosinhos ousou apostar num jovem desconhecido, sem qualquer currículo ou carreira, com o curso de arquitetura ainda incompleto, para lhe projetar uma casa. Como o terreno era grande e havia familiares também necessitados de nova habitação, no total foram desenhadas quatro casas. Hoje, em qualquer parte do mundo, não faltará quem deseje ou ambicione ter um edifício com a assinatura daquele rapaz também natural de Matosinhos, a cursar Belas Artes no Porto e chamado Álvaro Siza Vieira. Porém, há 60 anos, tomar uma decisão deste tipo envolvia alguma dose de atrevimento, de coragem e gosto pelo risco.

Foi o que fez Manuel Fernando Rodrigues Neto. Agora com 93 anos, a completar no próximo dia 19, mostra orgulhoso a casa onde se mantém e para onde foi viver com a mulher e dois filhos no dia 28 de maio de 1957. Este homem constitui o sonho de qualquer arquiteto. Não apenas por aquela decisão inicial, mas em particular pelo modo como acarinhou a casa ao longo destas seis décadas.

O granito e a madeira predominam na fachada

O granito e a madeira predominam na fachada

lucília monteiro

Moradia inalterada

Numa situação rara, mesmo com projetos de grandes nomes da arquitetura, a moradia está tal como a concebeu Álvaro Siza. Nunca ali foi feita qualquer modificação, a não ser as necessárias obras de manutenção, em particular nas casas de banho. De resto, tudo se mantém igual.

Desde logo a cozinha. Irresistível ponto de entrada, chama a atenção para o modo flagrante como, pelas formas e materiais utilizados, remete para Antonio Gaudi, uma das referências de Álvaro Siza (ver entrevista). Mesmo se o arquiteto diz ser possível detetar ali, também, algo de Corbusier, a verdade é que é o imaginário do catalão que mais se impõe naquele espaço, transformado em antecâmara de todo um universo marcado pela diferença.

“Esta casa tem 60 anos, mas ainda é uma casa moderna”, diz Manuel Neto. Está tão contente com a escolha feita tantas décadas atrás, que se revela certo de, “como moradia”, ainda não ter visto “nada que se possa dizer que esteja desatualizado”.

Apesar das polémicas. Apesar dos ditos e dichotes ouvidos aquando da construção. Agora, à distância, admite ter ficado incomodado. “O arquiteto não ligou nenhuma. Disse que o tempo é que falaria”.

Cozinha com referências a Gaudi e Corbusier

Cozinha com referências a Gaudi e Corbusier

lucília monteiro

Pelos vistos falou, ao ponto de a casa ser agora um ponto de visita obrigatório para estudantes de todo o mundo que chegam à região do Porto à procura de contactos com a obra de Siza. As solicitações eram tantas que se tornou necessário canalizar os pedidos através da Casa da Arquitetura, de modo a poder ser feita uma gestão mais razoável e racional das solicitações feitas.

O tempo das afrontas

Ainda assim, a memória daqueles tempos passados não esmoreceu, até porque a mulher de Manuel Neto, já falecida, sentiu muito particularmente aquelas afrontas. Por exemplo um texto publicado no jornal “Comércio do Porto” a falar do desfile que estaria a fazer-se em Matosinhos para ver “os casinhotos” que se construíram na Avenida D. Afonso Henriques, perto das atuais instalações da Câmara Municipal, “como se Matosinhos fosse terra sertaneja e não houvesse aqui pessoas (…) que têm noções de arte”. Depois de questionar o que pensarão os membros da Comissão de Estética daqueles “casinhotos”, o jornalista pergunta se “terá desaparecido o bom senso de gente que tem o dever de velar pela estética da vila e evitar atentados arquitetónicos como esse”. Aos céticos, aconselhava a irem lá ver e dizerem-lhe depois “se aquilo está certo numa cidade servida por um porto de mar, com aeródromo próximo e vizinha da cidade do Porto”.

“Casinhoto”, assim apelidou a casa um jornal da época

“Casinhoto”, assim apelidou a casa um jornal da época

lucília monteiro

Manuel Neto ficou desagradado. Como o chefe de redação que autorizara, ou solicitara, a publicação do texto era seu vizinho, resolve um dia questioná-lo para lhe dizer “que estava a queimar um arquiteto em início de carreira”. Convida-o a ir visitar a casa, mas a visita nunca se concretizou.

Siza não podia assinar

Numa das divisões da casa, o proprietário afixou há algum tempo o projeto inicial, assinado pelo engenheiro civil Rogério Lobão, dada a circunstância de, então, Siza ainda não ter autorização para assinar projetos. Fê-lo mais tarde. Junto à assinatura de Rogério Lobão, Siza acrescentou o seu nome. “Com 55 anos de atraso – na altura ainda não podia assinar porque ainda não era arquiteto”, escreveu pelo seu próprio punho. Ao lado, Neto conserva o último recibo relativo ao pagamento da última prestação (três mil e 500 escudos) pelo trabalho do jovem Siza.

O recibo relativo ao pagamento da última prestação ao arquiteto

O recibo relativo ao pagamento da última prestação ao arquiteto

lucília monteiro

Esta é uma história que começa em 1955, quando Manuel Neto compra o terreno onde se torna viável a construção, ao longo dos dois anos seguintes, de quatro casas. À época, Neto tinha uma empresa de pesca de sardinha e frequentava muito a zona onde vivia a que veio a ser sua mulher, próxima das antigas instalações da fábrica “Vacuum”, onde acabava por encontrar e conversar muito com António Siza Vieira, que tinha um cargo na Refinaria Angola e era tio de Álvaro.

Entre os muitos diálogos travados vem um dia à superfície a informação de que Neto comprara o terreno onde pretendia construir casa. António pergunta-lhe se já tem arquiteto e, face à resposta negativa, sugere-lhe a hipótese de entregar a obra ao sobrinho Álvaro.

Se não gostar não aceita o projeto

Era caso para pensar. Um dia Álvaro vai falar com Neto, que o leva a visitar uma moradia na zona das Antas muito do seu agrado, mesmo se, no final, as duas casas nada têm a ver uma com a outra. Fica acertado que avançarão, embora Neto reivindique a prerrogativa de cancelar tudo, caso o projeto não lhe agrade. Coloca, até, uma condição: teria de haver uma varanda a todo o correr da casa, virada para a Avenida, por causa das festas do Senhor de Matosinhos.

Candeeiro desenhado por Siza

Candeeiro desenhado por Siza

lucília monteiro

Casa custou 275 contos

Numa fase seguinte comunica quanto pode gastar e acaba por ter um orçamento de 275 contos. “Na época era dinheiro. O meu ordenado era de 4 contos como gerente de uma firma”.

Quando o projeto é apresentado, a reação é desde logo positiva. Gostam. Não obstante, como em todas as obras de todos os arquitetos, terem gostado mesmo muito de algumas soluções, de outras nem tanto. “Na sala havia uma parede que Siza queria com a pedra à vista, mas a minha mulher não gostava. Ele concordou, mas se calhar hoje era capaz de não aceitar”.

Quando para lá foram viver. Foi uma festa. Vinham de um bairro próximo e traziam dois filhos. Uma rapariga com 9 anos, e um rapaz com 3 anos de idade. A primeira neta nasceu lá, e era ali que faziam todas as festas. Em particular as da filha enquanto adolescente vigiada por uma mãe muito zelosa.

Passados todos estes anos, Manuel Neto pode garantir que praticamente todos os grandes arquitetos da atualidade já por lá passaram para verem a casa. Na memória guarda ainda discussões homéricas, em particular sobre a intensiva utilização da madeira no exterior. Dada a proximidade do mar, isso gerava grandes dúvidas e preocupações. Não esquece a resposta de Siza: “Garanto-lhe que um dia o senhor vai embora, os seus filhos e netos também, e a madeira continua aqui”.

Manuel Neto com a filha, Maria João Fernandes no interior da casa

Manuel Neto com a filha, Maria João Fernandes no interior da casa

lucília monteiro

Continua, de facto. Se algo impressiona numa visita à casa, com parte importante da fachada exterior revestida a madeira, é o excelente estado de conservação. O tempo não parece ter passado por ali. Claro que houve o cuidado de assegurar a manutenção, mas na origem está a decisão de escolher boas madeiras e um jovem que, não sendo ainda formalmente arquiteto, tinha já uma noção exata dos caminhos que pretendia percorrer.

Aquela é uma obra inicial. Está marcada por múltiplas associações, feitas, quer pelo proprietário, quer pelo arquiteto. Um e outro raramente se encontram. Ainda assim, quando Siza vê Manuel Neto, cumprimenta-o. “Faz-me sempre uma festazinha. Há uns três anos encontrei-o na homenagem a Manuel Dias da Fonseca, que era meu amigo de infância. O Siza virou-se para mim e disse-me: ‘o senhor foi a minha primeira vítima’”.