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“A primeira obra foi a sensação incrível de ver pela primeira vez no espaço o que antes só tinha desenhado”

Álvaro Siza. Sessenta anos depois, o arquiteto recorda as sensações de pela primeira vez ver um projeto seu construído, graças à encomenda de um conterrâneo de Matosinhos

rui duarte silva

Álvaro Siza recorda a primeira encomenda, o primeiro projeto para a construção de um conjunto de quatro casas em Matosinhos, alvo de duras críticas na imprensa da época e feitas, como diz, com a ingenuidade própria de um principiante que ainda nem podia assinar projetos

Em meados dos anos de 1950 o jovem Álvaro estava nos seus vinte anos, não concluíra ainda a componente superior do Curso de Arquitetura e recebe uma encomenda inesperada: fazer o projeto de quatro casas, uma delas com frente para a Avenida D. Afonso Henriques, em Matosinhos, onde então se faziam as festas do Senhor de Matosinhos. Nem tudo correu bem, mesmo se hoje olha com grande carinho para aquela obra. No dia da festa, estava a casa ocupada há poucos meses, um grupo de mulheres das fábricas de conservas para junto da casa e dedica-lhe uma canção onde se diz serem aquelas as casas mais feias da terra. No jornal “Comércio do Porto”, um jornalista alerta para o escândalo da construção daqueles “casinhotos” junto à igreja matriz. Mais tarde dirigiu-se a Álvaro Siza para lhe pedir desculpa.

Chama muito a atenção nesta casa o uso intensivo da madeira, mesmo nos exteriores. Isso foi bem aceite em Matosinhos, numa zona tão próxima do mar?
A madeira é um material soberbo, ao contrário do que em determinada altura se começou a dizer para vender o alumínio e plástico. Trabalhei na Holanda em habitação económica e social nos anos de 1980. As caixilharias na habitação económica eram sempre em madeira. A maior parte das obras pertenciam a cooperativas, que ficavam com o encargo da manutenção. Construíam muito bem para depois não terem despesas de manutenção. Usavam madeiras exóticas. Neste caso usou-se sucupira. Na altura tudo se fazia em macacauba, uma madeira do Brasil. Com a ingenuidade dos verdes anos achávamos que já não eram moderno usar macacauba. Queríamos ser mais originais. Então apareceu a sucupira, que depois se usou muito. É uma madeira excelente.

Não havia o preconceito quanto à madeira, com o receio de que podia apodrecer?
Criou-se a ideia que a madeira apodrece. É claro que tem de ser pintada de vez em quando. Aquela é excecionalmente boa, mas uma madeira qualquer, desde que tenha manutenção, aguenta-se. Lembro-me que na Holanda, quando chegava o sol da primavera, o que mais se via era gente na rua a envernizar ou pintar os caixilhos. Têm aquela ideia da manutenção, até para economizar.

Esta foi a sua primeira encomenda oficial. Ainda não tinha terminado o curso?
Na altura, nas Belas Artes, havia o curso especial, de quatro anos, e o curso superior, que se fazia através de concursos. Fazíamos exercícios e depois havia a classificação dos professores. Isso julgo que ainda não tinha acabado. Se acabei, não fiz a tese. O diploma obtinha-se com a tese. Só a defendi muito mais tarde, já em meados anos de 1950, quando Carlos Ramos me convidou para assistente e me disse que tinha de fazer a tese.

Nesta obra tinha já algum discurso que pretendesse expor?
Tinha ganho interesse pela arquitetura tarde. Havia em mim um grande desconhecimento da arquitetura contemporânea. A partir de certa altura comecei a interessar-me. No segundo ano foi meu professor o Carlos Ramos. Quando pela primeira vez viu um trabalho meu fez aquele ritual que ele adorava, que era enrolar um cigarro, puxar uma tesourinha e cortar a ponta. Depois começava a falar. Era uma maneira de construir a crítica que fazia e que foi rápida e simples. Disse-me: “vê-se bem que você não tem o mínimo conhecimento de arquitetura”. O que era verdade. Referia-se a uma prova na disciplina de projeto. Aconselhou-me: “Vá a uma livraria e compre umas revistas de arquitetura”. Eu tinha uns 16 anos. Éramos muito dependentes dos pais e fui com o meu pai a uma livraria onde ele comprava os livros de engenharia. Comprou-me as quatro que estavam na livraria. Por sorte, uma era uma monografia de Alvar Aalto. Outra, uma monografia do Gropius, outra sobre hospitais. Acho que nem a li porque achei aquilo muito complicado. Foi aí que comecei a ler. E também sobretudo a partir de ter sido aluno do Távora. Ele criava uma atmosfera muito estimulante nos cursos, que eram muito pequenos, com poucos alunos. Távora ia às reuniões do CIAM e contava tudo na aula. As visitas que fazia às obras, por exemplo do Corbusier, que era uma grande referência para ele. Havia um grande contacto entre professores e alunos. Eles eram a nova geração que o Ramos tinha chamado.

Qual era a influência das revistas de arquitetura?
Quando fui chamado para aquele projeto, tinha saído há pouco tempo numa revista a Capela de Ronchamp, de Corbusier. É uma igreja famosa que criou uma grande polémica, porque saiu muito dos moldes da ideia que havia e que ele próprio tinha escrito sobre a arquitetura. Na casa de Matosinhos nota-se formalmente influência desse entusiasmo pelo aparecimento daquela igreja, que era algo completamente novo. Ou aparentemente algo completamente novo. Não era de facto. Era o resultado da atenção universal do Corbusier, naquele caso à construção no Norte de África. Há um esquisso feito por ele próprio de uma casa na Argélia, em que lá estão as torres que tem a igreja de Ronchamp. Na arquitetura tradicional do Norte de África eram canais de ventilação. Na casa nota-se a ingenuidade própria de um principiante. Também estava interessado pelas coisas antigas. Muito perto há uma rua que vai dar à igreja e havia uma casa antiga da família Brito e Cunha, que me impressionou muito. Havia uma varanda, que se vê na casa do Neto.

Também tinham aparecido as revistas japonesas. Aquele tratamento do granito está muito presente na arquitetura japonesa tradicional, com a pedra irregular, mas muito bem encaixadas umas nas outras, com uma forma não vertical/horizonrtal, como na construção em prepianho cá. É irregular. Aquilo é desenvolvido com uma junção de várias influências que me tinham chamado a atenção. É a obra primeira de uma pessoa ainda à procura. Mas trabalhando ao sabor do que naquela altura lhe interessava, sem uma grande estruturação, o que correspondia à fase da minha formação na altura.

Houve muitas exigências do dono da obra?
Uma das exigências foi a varanda. O senhor de Matosinhos era ali, naquela avenida. Passava lá toda a gente. Queriam ter a varanda para assistir à festa. Não correu muito bem, porque na primeira festa em que ocupavam já a casa, foram para a varanda. Na altura eram muito ativas as mulheres das fábricas das conservas. Passavam sempre em bando. Eram muito vivas. Tremendas. Provocavam. Quando passaram na casa do senhor Neto começaram a cantar: “esta é a casa mais feia de Matosinhos”. Julgo que a família teve de ir para dentro.

Outra coisa que lutei muito para não ter, porque detestava, era por a roda do leme na varanda. Fica muito mal. Eles estavam muito ligados à pesca. Para eles era uma coisa muito importante, e lá ficou.

Apanhou com muitas críticas, para lá dos comentários jocosos das mulheres das fábricas?
Houve críticas, inesperadamente para mim, porque a minha ideia era tudo menos fazer uma casa polémica, despertou uma curiosidade muito negativa, muito crítica. Houve um artigo no Comércio do Porto. Muitos anos depois, encontrei o jornalista e pediu-me desculpa. Disse que não estava bem informado.

Foi uma crítica demolidora?
Para mim não foi porque também demonstrava ignorância. A principal crítica era que era um escândalo colocar diante da igreja matriz aquelas casas escandalosas. Depois dizia que não havia janelas e perguntava como é que sairia a urna, se alguém morresse naquela casa morresse alguém. Infelizmente já morreram vários. Caiu muito mal. Um novato fica descoroçoado, sobretudo porque eu não tinha um passado de me dar muita confiança em mim próprio na Escola. Fui um aluno sofrível. Não às cadeiras como a matemática e história. A essas tinha boas notas. A projeto era sempre notas baixinhas. O primeiro professor que viu algum interesse em trabalhos meus, foi o Távora. A primeira classificação boa que tive foi já no tal curso superior e foi porque o Távora lutou por isso. Eu não era considerado.

O que é que lhe deu alento?
Aconteceu que pouco antes tinha aparecido uma revista que teve um papel importantíssimo na arquitetura em Portugal, chamada “Arquitetura”. Um dia, quando cheguei à obra, tinha lá um cartão de três visitantes, felicitando-me. Tinham gostado muito. Tinham vindo de propósito de Lisboa. Eram o Nuno Portas, o Nuno Teotónio Pereira, e o Bartolomeu Cabral, que eram já pessoas conhecidas e consideradas. Pedem-me material e mais tarde publicam um número monográfico. Eu logo a seguir trabalhei no Centro Paroquial. A revista publica as quatro casas e o Centro Paroquial, bem como uma a casa da Boavista, também feita logo a seguir. Aquilo deu-me apoio. Afinal também há gente que gosta, pensei. Fora isso, tinha relações de amizade, camaradagem, partilhava as ideias que tinha sobre arquitetura e algum trabalho, mesmo dentro da escola, com outros 4 colegas com os quais alugámos uma sala por cima do Café Imperial. Estas casas foram projetadas muito aí e no escritório do engenheiro com quem trabalhei, porque eu não podia assinar o projeto.

rui duarte silva

Verifica-se ali uma situação que se torna uma constante na sua obra. Já na altura desenhou os puxadores, alguns candeeiros...
Fi-lo sobretudo nessa altura, porque tempo não me faltava. Só tinha aquele trabalho. Naquela obra aprendi muito. Ia lá todos os dias, por que a minha casa era perto. A formação na Escola, em termos de construção e prática era deficiente. Ainda hoje continua a ser, embora agora a construção seja diferente. Na altura era totalmente artesanal. Uma das ambições dos jovens arquitetos era fazer os tetos planos e ninguém queria. Havia razões para isso. Ainda não estava bem desenvolvida a questão da impermeabilização dos materiais, bem como a sabedoria dessa construção, tal como estava a construção artesanal generalizada. Havia erros e entrava água. As pessoas não queriam e não gostavam. Há uma altura em que muitas casas têm um murete que tapa o telhado. Formalmente o que estava nos olhos dos arquitetos de então era a geometria. Então levantavam um murete para tapar o telhado.
Outra coisa era o desejo de construir em betão. O moderno era o betão. Só que o betão era muito mais caro do que prepianho de 30 ou 40 cm. Contrariados construíamos em granito. O facto é que essas casas comportavam-se muito bem. Era granito e depois madeira. Não havia as tensões entre materiais que acontecem com outro tipo de construções, particularmente no betão armado quando se mistura com outros materiais. É também uma questão de sabedoria e de experiência.

O trabalho manual era algo que também lhe interessava e até o atraía?
Aprendi muitíssimo sobretudo com os carpinteiros. Na casa do senhor Neto, o carpinteiro era do Norte. Nas outras era do Sul. Conversava com eles sobre todos os pormenores. Muito sobre a junção das peças para se comportarem bem. É o que chamamos assemblagem. Também a colocação das caixilharias era diferente nos artesões do Norte em relação aos do Sul. Aprendi com os dois. Aprendi muito nessa obra. E aprendi muito esse gosto do que é feito à mão. Eu estava ansioso por aprender. Foi a primeira obra. É uma sensação incrível para quem só desenhou e com pouca informação da prática, deseja ter aquela experiência.

Alguma vez se sentiu inseguro?
Não, porque perguntava muito. Tinha um colega que era uma pessoa extraordinária, um grande amigo. Era o arquiteto Gigante, pai do também arquiteto José Gigante. Quando entrou para a Escola já era agente técnico de engenharia. Já tinha experiência de construção. Depois trabalhou nas minas. Era uma pessoa encantadora, engraçadíssima, divertida, como o filho é. Criámos uma grande amizade. Encontrávamo-nos todos os dias. Ele era muito interessado pelo cinema. Visitava o atelier dele, que era na Praça Filipa de Vilhena. Sempre que tinha uma dificuldade, lá ia eu ao Gigante. O reboco, como é que costuma fazer a composição? Para chegar à obra e não ser a ignorância absoluta. Eram diálogos muito abertos, sem qualquer arrogância. Ele deve ter perdido horas e horas comigo. Eram poucos os dias em que não ia fazer uma consulta. No Centro Paroquial foi ele quem fez a estrutura. Também aí aprendi muito com ele. Essa construção era toda em betão aparente. Lá está. É a ânsia juvenil. Naquela altura aquilo impressionava muito. Essa obra teve problemas enormes com o padre, que no final me despediu.

Mal se entra na casa de Matosinhos chama a atenção a cozinha por ser impossível não fazer de imediato uma associação a Gaudi? Há mesmo essa ligação?
Não está longe da verdade. Talvez o primeiro interesse que tive na arquitetura tenha sido numa visita não intencional a Espanha, quando fomos a Barcelona. O meu pai preparava sempre as viagens, mostrava fotografias do que íamos ver. Nessa altura ainda não tinha entrado na Escola, nem tencionava ir para arquitetura. Quando vi as imagens das obras do Gaudi disse que aquilo era escultura. Depois visitei praticamente todas as obras dele em Barcelona. O meu pai já estava farto. Ele gostava dos museus, da arquitetura antiga. A primeira coisa que visitava quando chegava a uma cidade era o mercado. Dizia que aquilo é que mostrava o verdadeiro ambiente da cidade. Mas depois ver o Gaudi constantemente.. Entrei em algumas casas, na Milà, na Sagrada Familia, e percebi que nas casas, todos os elementos que via eram os que tinha na minha casa. Rodapés, puxadores, estuques. Era tudo igual, só que ele punha tudo a cantar. Aí foi a primeira vez que tive interesse real na arquitetura. Mas não me influenciou totalmente.

A chaminé da casa de Matosinhos parece ser completamente influenciada por Gaudi...
Sim. O que fiz verdadeiramente gaudiano foi um portão e um coberto na casa do meu tio António. Foi a minha primeira obra. Aí há uma influência direta. Na casa há coisas que lembram Gaudi, mas muito o Corbusier dessa ideia plástica da igreja de Ronchamp. O Corbusier era racionalista. Aquela ideia da geometria, do rigor. Porém, quando visitou o Gaudi ficou muito impressionado e fez grandes referências escritas sobre o Gaudi. De resto, é curioso pensar-se que também o Gaudi teve muito interesse pelo Norte de Áfrixa e a Sagrada Família tem muita influência dessas construções em terra do Norte de África. Há aí uma aproximação quase impensável entre o Gaudi e o Corbusier.

É uma cozinha toda coberta a pastilha. Porquê?
Era o uso de um material que tinha muito a ver com a Itália. No fundo é um mosaico. Na altura apareceu muito. Na casa do Távora, em Ofir, já aparecia isso. Foi lá que vi pela primeira vez a chamada pastilha em vidro.

E o circuito que se estabelece, ao permitir subir as escadas por um lado e regressar á sala através de outras escadas?
Na altura estávamos muito atentos a essas inovações – que não são absolutas. Interessava-nos o uso dessa riqueza espacial. Já não é primeiro andar, segundo andar, mas há uma expansão. Há muito isso no Alvar Aalto. É a questão do espaço que se expande.

Qual a sua relação, hoje, com aquela obra? Renega-a?
Não, de maneira nenhuma. Como é que ia renegar uma obra onde aprendi tanto? Vivi tanto aquela construção. Quase dou razão às mulheres das fábricas de conservas quando falavam das casas mais feias de Matosinhos, mas não as olho assim. Bonitas não são, felizmente. Mas foram um momento de aprendizagem único.

A sua preocupação não era tanto estética?
Era. Só que era uma estética com determinadas conotações.

Como se relaciona então com aquela obra?
Quase diria com carinho, porque lembro-me o que foi de aprendizagem e de entusiasmo. A sensação de ver pela primeira vez no espaço as coisas que até então só tinha desenhado. Falava muito com os operários. Havia muito diálogo. Havia com eles uma grande partilha durante a construção. Não era como hoje, que é só com o diretor da empresa. Não se pode falar com os operários, nem mudar nada do que estava no projeto. Havia essa sensação de possibilidade, não de parar o projeto no desenho, mas o projeto ir até o fim da obra. E depois havia o entusiasmo. O entusiasmo é a ferramenta número um da arquitetura e é muito difícil de atingir.

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