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O peso não 
é só quilos

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São muitos os fatores que afetam o quanto pesamos. O estado marital, o estado parental e o local onde vivemos são alguns exemplos

Carolina Reis

Carolina Reis

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Jornalista

Rita Isabel Pardal

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Aquilo que pesamos não é só a junção das calorias que ingerimos. Nem se limita à relação entre a massa corporal e a altura. O peso de cada um de nós conta uma história, traça um percurso de vida, permite distinguir em que zona do Globo vive cada indivíduo. O que comemos e o exercício que fazemos é importante, sim, mas não é só isso que determina a marca da balança. “Entre os fatores que influenciam o peso que temos, incluem-se os sociais e os culturais e os processos que controlam o ambiente onde operam os fatores individuais”, explica Pedro Moreira, professor de nutrição na Faculdade de Ciências da Nutrição da Universidade do Porto.

Assim, a luta com a balança não se limita a ser um mero exercício feito a dois. Vemos, erradamente, um duelo: de um lado a balança, do outro quem se pesa, na ânsia de estar dentro dos padrões estéticos e/ou saudáveis. Mas esta relação tem alguns fatores tão intrínsecos que, por vezes, nem se notam. Por detrás do peso de uma pessoa, da média de um país, das taxas de excesso de quilos ou de obesidade, há um mundo de agentes e fatores que vão ser determinantes no tal duelo com a balança. E estes não são estáticos, variam no tempo, acompanhando a idade e a fase da vida que se atravessa. Porém, não há um padrão. O início da parentalidade, por exemplo, pode significar maior preocupação com a alimentação, na expectativa de viver mais anos e melhor. Mas a disponibilidade para tratar de um bebé pode sugar toda a energia e não deixar espaço para pensar em mais nada. Um divórcio tanto pode ser um motivo para entrar em depressão e comer chocolates e bolos todos os dias como pode ser um começar de novo com direito a esforço extra para se estar na melhor forma possível.

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Na realidade, o peso é um fator cultural, para o qual contribuem atores tão distintos como a escola, a comida de casa, a moda, o estado marital, o estado parental, a fase da vida em que se está ou o meio em que se habita. “A comunidade é também responsável pela difusão de valores e interesses que podem encorajar os indivíduos a procurarem apresentar baixos valores de peso e uma silhueta de magreza. A sociedade, a um nível macroscópico, pode contribuir com políticas nutricionais, sistemas alimentares, valores sociais, meios de transporte e atividades de recreação, incluindo as que envolvem exercício físico, capazes de modularem o balanço energético, o peso e a silhueta desejada”, sublinha Pedro Moreira.

É a sociedade em que vivemos que nos transmite valores sobre alimentos, a atividade física e figura corporal, e nos diz quais são os padrões de peso socialmente aceites. O meio ambiente, o acesso a cuidados de saúde, as políticas educativas, a facilidade de consumo, as funcionalidades dos Estados, a região em que habitamos ou os modelos governativos ditam as taxas médias de peso, de excesso e de obesidade.

Até aqui, a tendência global era de que nos países mais ricos, a obesidade era mais frequente nas áreas rurais e nos mais pobres, sucedendo o inverso nos países mais pobres. Esta realidade, no entanto, está a mudar e não se regista de modo uniforme nos países em desenvolvimento ou nos países desenvolvidos. O que faz com que a prevalência da obesidade esteja a aumentar nos países de baixo e médio rendimento económico. “Verifica-se um aumento do risco de obesidade em países em desenvolvimento, uma vez que estes indivíduos tendem a ter, atualmente, mais alimentos disponíveis, o que é uma realidade para a qual o seu organismo não está preparado”, explica Célia Craveiro, presidente da Associação Portuguesa de Nutricionistas. Este aumento da obesidade em países e populações mais desfavorecidos trará consequências na saúde e no aumento das desigualdades. “É necessário atentar ao tipo de alimentos que são mais disponibilizados e consumidos pela população, pois a obesidade é frequente em indivíduos de condição socioeconómica mais baixa”, continua Célia Craveiro.

A atual média da taxa de excesso de peso e de obesidade, entre adultos, mostra que, na maioria dos casos, os níveis aumentam do Sul para o Norte do Globo. Isto é, pesamos mais quanto mais industrializados e desenvolvidos somos. Mas há exceções. Olhando para os dados (ver gráfico em cima), vemos que a Etiópia tem uma taxa média de 5,5%; a Coreia do Norte 4,6%; o Vietname de 12,4%; a República Democrática do Congo 15,2%; Angola 41,4%; a França 52,2%; o Canadá 58,2%; a Rússia 59,2%; a Alemanha 61,1%; o Reino Unido 63,6%; os EUA 66,1%; o México 68,9%; a Arábia Saudita 69,4% e o Egito 73,6% e a Líbia 73,9%. A média portuguesa, na mesma faixa etária, é de 62,6%, um valor considerado alto e motivado por agentes externos aos hábitos alimentares, como a crise económica ou a desinformação. “Portugal é um país com uma prevalência elevada de obesidade, tanto em adultos como em crianças, e prevê-se que esta continue a aumentar, motivada pelas desigualdades sociais, pelos hábitos alimentares e de atividade física desadequados e promotores da doença, além da literacia alimentar ainda baixa no nosso país,” afirma Célia Craveiro. Dividindo por géneros, vemos que nos homens 46,7% têm excesso de peso e 19,9% obesidade; já nas mulheres, 38,1% têm peso a mais e 19,8% estão obesas. “Portugal ainda se encontra numa fase de transição nutricional em que as doenças crónicas como o AVC, os tumores ou a doença coronária são uma face visível da acumulação de erros alimentares”, frisa Pedro Moreira.

A moda da comida saudável

Portugal está também noutra fase de transição. A da alimentação saudável. Uma viragem que começou há cerca de três anos. Primeiro foram as lojas de produtos biológicos a crescer, depois foram as próprias cadeias de supermercado a criar prateleiras e secções de alimentação saudável. E cereais como a quinoa, pseudofrutos como o abacate ou frutos secos como a castanha do Pará passaram de desconhecidos a comuns para os portugueses. “Antigamente, quem me procurava eram pessoas mais idosas e com problemas de peso, encaminhadas pelos médicos, que precisavam de emagrecer por uma questão de saúde. Hoje em dia, já não me procuram só pessoas com excesso de peso. Aliás, procuram-me pessoas com bom peso mas que querem otimizar a sua alimentação, porque querem ter maior longevidade, mais energia”, explica a nutricionista Lillian Barros. Se antigamente o foco do peso estava nas calorias, hoje está nos nutrientes.

A oscilação das preocupações mudou. Muitas pessoas passaram a ir ao nutricionista, imbuídas pelas bloguers fitness — que promovem um estilo de vida saudável através do exercício e da alimentação cuidada —, o que significa chegarem com mitos e ideias preconcebidas que não se adequam às suas necessidades mas que tomam por verdades inquestionáveis. “Como a ideia de que comer diferentes tipos de fruta por dia não faz bem ou a de que beber água às refeições engorda”, frisa a nutricionista.

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Outro dos problemas é que, ao contrário do médico — a que vamos desde que nascemos —, o nutricionista é visto como um luxo. “Deveria ser um profissional a quem se recorresse com frequência durante a infância e a adolescência, pois seria fundamental um correto acompanhamento do crescimento das crianças e adolescentes”, diz Célia Craveiro. Mesmo que não seja possível ir com regularidade, há alguns momentos-chave como a gravidez ou a entrada na terceira idade.

E há sempre regras básicas para uma alimentação equilibrada e, logo, um peso saudável. A principal resposta está na roda dos alimentos, ela mostra o que se deve comer mais e aquilo que só se ingere em ocasiões raras. Num momento que se vende tanta comida como boa para o organismo, é também preciso ter alguns cuidados. A começar pelo que diz a embalagem, nem sempre a palavra super ou saudável é sinónimo de que o alimento é adequado. Pedro Moreira socorre-se de trabalhos académicos para destacar seis tipos de erros principais na alimentação dos portugueses: sal em excesso; bebidas alcoólicas em excesso; baixa ingestão de leite e seus equivalentes; escassez de hortofrutícolas; consumo elevado de açúcares; e ingestão energética em excesso. “As repercussões destes erros incluem o aumento da prevalência de doenças crónicas, com impacto na mortalidade.”

Conselhos

Hidratação

É aconselhável o consumo de 1,5 litros por dia, quem não quiser ficar só pela água pode optar pelas infusões de especiarias 
e pelas tisanas quentes

Comer com frequência

Ao estarmos muitas horas sem comer, temos mais probabilidades de chegar 
à hora das refeições e ingerir o dobro 
do que precisamos

Sopa

Este é um prato típico de inverno, que pode servir como refeição completa para quem está a tentar perder peso ou como uma entrada leve para toda a família

Frutos e vegetais

São dos alimentos mais importantes 
e que podem ser comidos a várias horas 
do dia e/ou a acompanhar as refeições

Inovar

Comer saudável não significa comer 
sem sabor. Convém introduzir 
ingredientes novos para a refeição 
não se tornar desinteressante

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 28 de janeiro de 2017