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José Manuel de Carvalho Marques: “Magalhães foi um herói da Humanidade”

Nomeado para presidir à Missão das Comemorações dos 500 anos da primeira viagem de Circum-Navegação de Fernão de Magalhães, o ex-presidente da câmara de Sabrosa conta, entre 2019 e 2022, com a NASA como parceira

Katya Delimbeuf

Katya Delimbeuf

entrevista

Jornalista

Nuno Botelho

Nuno Botelho

fotografia

Fotojornalista

nuno botelho

De 1519 a 1522, um navegador português concretizou um feito nunca antes alcançado, a primeira circum-navegação por mar. Contudo, por o ter feito ao serviço do rei de Espanha (após a recusa do Reino de Portugal), foi considerado um traidor da pátria. Quem era, afinal, Fernão de Magalhães?
Magalhães era uma pessoa extremamente honrada, com alguma rudeza de trato. Não era muito simpática, era de poucas palavras, mas muito leal, com imenso carisma e capacidade de liderança. Além de ser um excelente líder, era um excelente gestor. Sabemos quantos pregos, quantos barris de pólvora, quantos mantimentos iam a bordo de cada uma das cinco naus. A viagem da circum-navegação é talvez a maior odisseia da história dos Descobrimentos. A forma como foi concebida e depois alcançada é a prova disso. O calvário passado para realizar esta empreitada... Quando D. Manuel I recusa a proposta de Fernão de Magalhães, nunca pensou que esta fosse aprovada por Carlos V, rei de Espanha. Nunca imaginou, sequer, que Magalhães chegasse à fala com o rei. Mas isso também revela muito da sua inteligência. Ele vai para Sevilha acompanhado de uma equipa de cosmógrafos e por muita gente, incluindo a ama de leite... Casa-se com uma espanhola, Beatriz, filha de um português influente, e chega à corte do rei Carlos V.

O que acontece quando Portugal descobre?
Soaram todos os alarmes – afinal, Magalhães era portador de conhecimentos da ciência e até de segredos de Estado de Portugal... E tudo foi feito para boicotar a expedição. A primeira grande dificuldade foi recrutar homens para a tripulação. Esta acabaria por ser muito heterogénea, de 256 homens de quase toda a Europa — gregos, italianos... Magalhães teve de levar consigo pessoas com muito pouca experiência de mar. Mas dizia: “Podem não saber nada de mar, mas eu e o mar faremos deles marinheiros”. Por outro lado, Magalhães foi forçado a lidar com muita desconfiança por parte dos espanhóis. Imagine um general russo a chefiar o exército americano... E teve na própria viagem uma série de contratempos. Essa odisseia está devidamente documentada no “Diário de Pigafetta” (escritor italiano que seguiu a bordo com a expedição, um dos 18 sobreviventes dos 256 homens iniciais), que eu li. Lamentavelmente, Portugal nunca deu o devido reconhecimento a Fernão de Magalhães.

Sabrosa, de onde é natural, e vila de que foi presidente da Câmara nos últimos 11 anos, é tida como a terra natal de Fernão de Magalhães. A Casa da Pereira, que ostenta o brasão de armas da família Magalhães, ainda existe?
Ainda. Existe a pedra do brasão, que terá sido picada (como retaliação do rei D. Manuel, por crime de traição à pátria). Reza a história que esta era a casa de Magalhães. Embora não exista, em nenhum sítio, uma prova inequívoca de que Fernão de Magalhães seja de lá.

As comemorações dos 500 anos da viagem de circum-navegação começam em 2019 e duram até 2022. O que vai ser feito?
Serão comemorações à escala global. Portugal e Espanha serão dos principais impulsionadores e vão trabalhar em conjunto. José Manuel Nuñes de La Fuente, historiador espanhol que estudou Magalhães durante 30 anos, vai dar importantes contributos para perceber como a viagem se realizou. Conhece todo o espólio documental do Arquivo das Índias, em Sevilha, e muitos outros documentos espalhados pelo mundo. Além de ter feito a mesma viagem de três anos de circum-navegação, num veleiro, passando por todas as cidades onde Magalhães aportou. Um dos seus maiores contributos prende-se com a morte de Fernão de Magalhães na batalha de Cebu, nas Filipinas, em 1521 (não tendo acabado por completar a expedição). Muita gente coloca a questão: como é que um capitão-general com a experiência de Magalhães se expôs daquela forma, desembarcando com umas dezenas de homens em terra desconhecida, sendo surpreendido e encurralado por centenas de guerreiros filipinos? Num ápice, um homem como Magalhães percebe o que estava a acontecer — de tal forma, que manda retirar. Este historiador apresenta várias versões para Magalhães ter encarado aquela missão quase de forma suicida. Uma é que o descobridor se teria apercebido de que errara quando garantira aos espanhóis que as ilhas Molucas eram do lado de Carlos V (Espanha), e não de D. Manuel I (Portugal). Outra teoria avança que Magalhães levava a bordo um filho ilegítimo, e que teria sido para o salvar, na frente de batalha, que se expôs de forma tão imprudente.

Que outras iniciativas estão a ser preparadas?
Está a tentar-se que o Papa Bento XVI vá, em 2020, à Baía de San Julián, na Argentina, celebrar uma missa, 500 anos após a primeira ter sido rezada pela expedição de Magalhães. Para os argentinos, este local é importantíssimo. A primeira coisa que se encontra quando se chega à baía é uma réplica da nau “Vitória”, uma das cinco naus que compunham a expedição — e a única que regressou a Espanha, três anos depois da partida. Há um dado curioso: apesar de terem partido cinco naus e de apenas uma ter regressado, a carga que a “Vitória” levava pagou toda a expedição. Eram especiarias, e assim se percebe o peso económico que tinham à época. Outros planos incluem integrar todos os locais por onde a expedição de Magalhães passou na Rede Mundial das Cidades Magalhânicas, que inclui nove países, 12 cidades em quatro continentes diferentes. Vamos ainda candidatar a rota a Património da Humanidade da UNESCO — se tivermos sucesso, será o primeiro bem transnacional global. E ainda envolver as universidades destas cidades em rede mundial.

Como é que a NASA surge como parceira das comemorações?
A NASA vai ser parceira da Rede Mundial de Cidades Magalhânicas numa perspetiva de partilha de conhecimentos. Os Descobrimentos deram novos mundos ao mundo. A NASA é o equivalente moderno. É ela que faz a monitorização ambiental do planeta. Quando lá fui, já sabiam que o Magalhães cumpria uma efeméride — tinham um painel a dizer “Magellan 1519”, com o telescópio James Webb...

Fala-se num interesse de Oliver Stone em rodar um filme sobre Magalhães. Até que ponto isso é real?
O Oliver Stone esteve em Sabrosa. Um escritor norte-americano, Laurence Bergreen, escreveu um livro fantástico sobre Magalhães. Com a aproximação dos 500 anos da viagem, tem havido algumas movimentações no sentido de se fazer um grande filme de época. Têm sido solicitados contributos, tem havido interações. Mas ainda não é uma certeza. Agora, que um grande filme de época vai ser feito neste contexto das comemorações, é seguro que sim.

Hoje, 500 anos passados sobre a primeira viagem de circum-navegação do mundo, Fernão de Magalhães seria visto como um herói de Portugal ou um herói de Espanha?
Ele é um herói da humanidade, de todos nós. O legado que nos deixa é universal.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 28 de janeiro de 2017