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Em minha casa ou na tua?

Um jantar diferente já não tem de acontecer num restaurante. Os chefes estão a transformar-se em anfitriões e também vão ao domicílio

Quando a vontade de conhecer novos espaços supera o ritmo de aberturas de novos restaurantes, há que arriscar noutras propostas. Underground restaurants, supper clubs, restaurantes ilegais ou moradias que recebem convidados para jantares temáticos são algumas das possibilidades, num universo sem fim de opções para descobrir. O que está em causa é muito mais do que uma refeição, é uma experiência gastronómica diferente, e esta não tem de acontecer no restaurante.

Joe Best, nome pelo qual é conhecido o chefe José Besteiro, acompanha o movimentos dos supper clubs há mais de duas décadas e organizou os seus próprios eventos durante vários anos, mas parou de os fazer entre 1999 e 2007. A oportunidade de voltar ao conceito veio pouco tempo depois. “Surgiu num impasse da minha vida profissional, enquanto aguardava a chegada de uns vistos para ir trabalhar para fora”, conta ao Expresso, lembrando como aproveitou o que tinha na altura à sua disposição. Estávamos em 2010. “Fiz um post no Twitter a anunciar o jantar e caíram-me 44 reservas. Era um T2 num 9º andar em Sintra”, lembra.

Os anfitriões inscritos na plataforma da Portuguese Table não têm de ser chefes profissionais, mas há requisitos a cumprir. A possibilidade e a disponibilidade para receber turistas em casa éobrigatória

Os anfitriões inscritos na plataforma da Portuguese Table não têm de ser chefes profissionais, mas há requisitos a cumprir. A possibilidade e a disponibilidade para receber turistas em casa éobrigatória

O conceito evoluiu, a técnica aperfeiçoou-se e nasceu o DC Supperclub. Best refere que os clientes procuram “gastronomia em função da época”, num ambiente mais intimista e privado, com “a loucura, a inspiração do chefe, o teatro e a tal ementa fora da caixa” a assumirem-se como ingredientes de uma noite diferente. Joe Best tem duas opções à escolha dos clientes e assegura que “as pessoas aderem e adoram, tanto uma versão como a outra”, mas há uma que é a sua preferida. “Se não tiver de carregar duas carrinhas de ingredientes, equipamento e louças, melhor”, diz, mostrando gostar mais de ser anfitrião do que de prestar o serviço “Um chefe em sua casa”. Falta de clientes interessados não há e o chefe confessa que nos últimos meses tem sido difícil “chegar a todo o lado e corresponder aos pedidos” dos seus clientes. “Criei um monstro e estou a aprender a domesticá-lo.”

UMA MESA PORTUGUESA, COM CERTEZA

Para Paulo Coutinho de Castro, da Portuguese Table, “ir a casa de um anfitrião é muito mais do que uma refeição; é uma experiência” e é exatamente disso que se trata, de apresentar experiências diferenciadoras a todos os que pretendem conhecer gastronomia nacional de uma forma mais pessoal. “Acreditamos na arte portuguesa de bem receber e de bem servir. Acreditamos que juntar à volta de uma mesa pessoas desconhecidas é a melhor experiência gastronómica e social que alguma vez se pode viver.”

Depois de uma pós-graduação em marketing digital, o antigo diretor de uma multinacional americana em Barcelona inscreveu-se na 1ª Edição do Tourism Creative Factory, o acelerador de startups do Turismo de Portugal, e a ideia acabou por tornar-se negócio, com os objetivos bem definidos. “Queremos apostar nos chefes de cozinha lá de casa, partilhar o surpreendente paladar da descoberta e abrir o apetite à vontade de conhecer novas pessoas, com a gastronomia e a cultura portuguesas como pano de fundo”, conta, entusiasmado com o conceito.

A Portuguese Table de Paulo Coutinho de Castro começou há poucos meses — está disponível AQUI — e o empresário considera que ainda é demasiado cedo para balanços. “O nosso conceito está a dar os primeiros passos, mas, como se pode ver na nossa plataforma, com os reviews já feitos, a receção tem sido magnífica.” Quanto às principais vantagens, há que destacar também a parte que não envolve quaisquer alimentos. “Ir a casa de uma família portuguesa e degustar comida portuguesa é ter acesso a uma experiência verdadeiramente única.” Depois há ainda um outro elemento diferenciador: não é necessário ser um chefe profissional para se tornar anfitrião.

Apesar disso, claro que é preciso que o candidato saiba cozinhar, queira receber turistas que visitam o nosso país em casa, tenha condições para os receber e fale pelo menos uma língua estrangeira. Só depois começa o processo de seleção. Primeiro através de conversas telefónicas, às quais se seguem as primeiras visitas. Depois há que cumprir a formação e uma fase de testes. Das quase 200 inscrições, a equipa já descartou cerca de 50 e houve 30 que desistiram. Paulo assegura que se trata de um “processo natural de avaliação da disponibilidade e capacidade de aderir a um projeto como este”. Esta semana chegou o décimo quarto anfitrião, ao qual se juntarão outros 11 até à Páscoa. No final do ano, esperam ter 40 parceiros locais. “O nosso desejo de cobrir o território nacional assenta na vontade de poder apresentar esta diversidade de sabores a quem nos visita”, explica, consciente de “vai ser um processo longo”.

Quanto ao público-alvo, Paulo Coutinho de Castro não tem dúvidas de que a Portuguese Table está mais virada para o mercado internacional, mas isso não impede que também haja portugueses interessados no conceito. “Embora consideremos que o cliente típico é o turista que nos visita, pois é esse quem mais vai valorizar a experiência de ir a casa de um português e degustar iguarias da gastronomia portuguesa, sabemos que há portugueses que vão ser nossos clientes”, considera.

Coutinho de Castro não pretende parar e já está a pensar nos próximos passos da Portuguese Table. O objetivo para 2017 é “tentar cobrir o território nacional de forma mais satisfatória”, juntando novas localidades ao leque de opções. A empresa já tem anfitriões no Grande Porto, na Grande Lisboa e no Minho e espera contar com novos parceiros ao longo do ano. Querem chegar ao Centro do país, sem esquecer o Sul — tanto no Algarve como no Alentejo — e as regiões autónomas dos Açores e da Madeira. Os contactos não param — “Esta semana estamos no processo de aprovação de uma anfitriã de Aveiro”, conta Paulo — e em 2018 esperam avançar para a internacionalização. Já há interesse da parte de portugueses no Reino Unido, em França e em Angola, mas o empresário quer ir com calma. Só passarão fronteiras depois de terem uma presença consolidada em território nacional.

EXPERIÊNCIAS EM FORMATO POP-UP

Se André Freire e Bernardo Agrela não tivessem partilhado a experiência no The Loft, o supper club londrino de Nuno Mendes, talvez o Once Upon a Table nunca tivesse começado. Foi por lá que os dois chefes portugueses se conheceram e foi também lá que perceberam qual seria o próximo passo. Trazer o conceito para Lisboa. A ideia acabou por sair do papel (e da imaginação dos dois criativos de cozinha), com o primeiro jantar a acontecer no verão do ano passado.

Contrariamente ao que acontece nas propostas de Joe Best ou nas dos anfitriões da Portuguese Table, no Once Upon a Table ainda não há moradas fixas. “Não cozinhamos bem em casa, até porque não tenho nenhuma divisão com espaço suficiente para isso”, explica Bernardo, contando como funciona o conceito de jantares pop-up que desenvolveram. O principal é, mais uma vez, fazer da refeição uma experiência, com várias surpresas à mistura. Os lugares escolhidos fazem parte do segredo e em fevereiro haverá vários eventos privados (assim como um jantar especial de São Valentim). Vai acontecer num hostel lisboeta e será em formato de room service.

A aposta no fine dining é para manter e Agrela, que já passou por cozinhas de lugares como as Maldivas ou as Seychelles, vai continuar a explorar novos sabores e novas paragens. Recentemente esteve na Índia, com a comunidade portuguesa de Goa, e promete que não vai parar. “Viajar é tudo e quem não o fizer vai ficar bastante limitado”, defende.

Sobre o futuro, Bernardo é mais cauteloso. Ao Expresso, revela que um dos objetivos é arranjarem “um espaço físico, uma residência fixa”, mas não querem “dar o passo maior do que a perna”. A agenda parece não se ressentir com a falta de um lugar próprio, e até pode ser mesmo esse o segredo para um projeto que tem como nome a expressão com que começam as histórias de encantar.