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O que a história dos jornais portugueses nos ensina sobre políticos que assustaram o mundo

Há quem diga que é obviamente exagerado e há quem defenda que é particularmente adequado estabelecer comparações entre algum do pensamento de Trump e o raciocínio de ditadores do passado. Num tempo de fraturas na sociedade, de fake news, de propagação aceleradíssima dos factos noticiosos e de grande preocupação com o que vem dos EUA, viajamos no tempo e mostramos como é que no passado os jornais portugueses acompanharam a ascensão política de personalidades que acabaram por se tornar protagonistas de ditaduras. São lições da História para percebermos as inúmeras diferenças e algumas semelhanças entre o que se passa agora e o que ocorreu no início do século XX

O bisavô português de Guy-Manuel de Homem-Christo, da conhecida dupla francesa de música eletrónica Daft Punk, foi um fervoroso admirador de Mussolini. Conhecido por Homem Cristo Filho, para se distinguir de seu pai, um republicano distinto, fundou e dirigiu a revista “Ideia Nacional”, em 1915. Mais tarde mudar-se-ia para Roma para acompanhar de perto a obra de Mussolini e aí faleceu em 1928, com 36 anos.

Publicações nacionalistas, antiliberais e antidemocráticas como as revistas “Ideia Nova” e “Ordem Nova”, ou os jornais “O Imparcial” e “A Ditadura”, entre muitos outros títulos, só foram possíveis porque a I República era uma democracia que em matéria de liberdade de expressão ideológica permitiu quase tudo e o seu contrário.

REVISTA NACIONALISTA. Último número da publicação dirigida por Homem Cristo Filho, publicada entre março e maio de 1915

REVISTA NACIONALISTA. Último número da publicação dirigida por Homem Cristo Filho, publicada entre março e maio de 1915

HEMEROTECA MUNICIPAL DE LISBOA

A 28 de outubro de 1922, dia em que Benito Mussolini marchou sobre Roma com milhares de seguidores, o diário republicano da noite “A Capital” chamou o assunto à primeira página com o lacónico e informativo título “A situação na Itália”. O texto diz que os “telegramas de Itália deixam compreender perfeitamente a importância da crise que aquele paíz está atravessando” e pergunta o “que significa tudo isto? Significa uma capitulação dos poderes do estado e da organização do regimen”.

MARCHA SOBRE ROMA Edição de “A Capital” de sábado, 28 de outubro de 1922, dia da marcha de Mussolini sobre Roma

MARCHA SOBRE ROMA Edição de “A Capital” de sábado, 28 de outubro de 1922, dia da marcha de Mussolini sobre Roma

HEMEROTECA MUNICIPAL DE LISBOA

Mussolini partiu para Roma com o intuito de forçar a sua chegada ao poder num contexto de “crise parlamentar”, explica António Costa Pinto, que se encontra nos EUA, como investigador da New York University: “Na sequência da marcha, o rei convidou-o para formar governo, acreditando que ele iria fazer pontes com os conservadores”.

Nos anos seguintes, até 1924, Mussolini jogaria em dois tabuleiros, porque precisava de apoios para fazer “reformas parlamentares para dominar o Parlamento. Mas, ao mesmo tempo, as milícias do Partido Fascista Italiano instigavam o terror”, e cometeram uma série de assaltos e ataques, que atingiram um pico simbólico a 10 de junho de 1924 com o assassinato do deputado socialista Giacomo Matteotti. Em 1925, o fundador do Partido Fascista Italiano passou a ser designado por “Il Duce” − o líder.

UM MÊS DEPOIS DA MARCHA. Artigo no diário “A Capital” de 22 novembro de 1922

UM MÊS DEPOIS DA MARCHA. Artigo no diário “A Capital” de 22 novembro de 1922

HEMEROTECA MUNICIPAL DE LISBOA

Mussolini − tal como Hitler − recorreu amiúde ao discurso bélico para mobilizar os seguidores. Em março de 1926, dois meses antes do golpe militar que instaurou a ditadura em Portugal, o escritor e jornalista Raul Proença alertava para os perigos do fascismo italiano num notável artigo publicado na revista “Seara Nova”: “Os nomes dos seus jornais e das suas revistas a Avalanche, o Martelo, o Archote, o Arauto, o Machado, soam como gritos de guerra ou cortam o ar como instrumentos contundentes”.

Ao contrário do que sucedia em Portugal com a pluralidade expressiva da I República, que permitia a publicação de jornais que apelavam a demonstrações de forças por parte dos fascistas portugueses, o regime de Mussolini obrigava os “próprios empregados franceses dos wagons lits, ao entrarem em Itália” a fazerem a continência fascista, escreveu Raul Proença em “O Fascismo e as suas repercussões em Portugal”.

JANEIRO DE 1924. Dirigido por Raul de Carvalho, “A Ditadura” foi um dos jornais nacionalistas que fez a apologia do ideário fascista ainda na I República

JANEIRO DE 1924. Dirigido por Raul de Carvalho, “A Ditadura” foi um dos jornais nacionalistas que fez a apologia do ideário fascista ainda na I República

BIBLIOTECA NACIONAL

A linguagem agressiva está inscrita na primeira página do número 9 do jornal “A Ditadura” que acima se reproduz. Apesar disso, o período de ascensão ao poder de Benito Mussolini é objeto de menos atenção por parte da imprensa portuguesa do que seria a de Hitler, uma década mais tarde. “A Alemanha era muito mais importante do que a Itália como potência”, lembra António Costa Pinto; acresce dizer que a marcha de Mussolini sobre Roma coincidiu com o apoteótico regresso a Portugal de Sacadura Cabral e Gago Coutinho, os dois aviadores que fizeram a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, e regressaram a Lisboa de navio, atracando na capital portuguesa a 26 de outubro de 1922. O dia foi declarado feriado nacional.

O “Duce” teve uma ‘boa imprensa’ no país de Donald Trump; “o jornal Saturday Evening Post publicou a sua autobiografia em fascículos”, segundo nos informa um artigo agora publicado pela revista “Smithsonian”; este texto lembra ainda que jornais como o “Chicago Tribune” consideravam que os métodos do fascismo eram “duros” mas, ao mesmo tempo, perante a revolução bolchevista que triunfara na Rússia em 1917, protegiam a Itália dos “perigos da esquerda e revitalizavam a economia”.

Além disso, os americanos apreciaram o visual marcial do “Duce”, que tinha uma presença mais imponente do que Hitler, homem pouco favorecido pelo aspeto físico, de quem a revista “Cosmopolitan” haveria de dizer que tinha uma aparência “insegura”; o líder do nazismo alemão chegou a ser comparado [visualmente] a Chaplin pela revista “Newsweek... com grande probabilidade de acertarmos, esta comparação deve ter sido um insulto para o criador de Charlot.

DITADORES Benito Mussolini à esquerda e Adolf Hitler à direita

DITADORES Benito Mussolini à esquerda e Adolf Hitler à direita

d.r.

No início de julho de 1932, o último rei de Portugal, D. Manuel II, morria no exílio e António de Oliveira Salazar assumia a chefia do VIII Governo da Ditadura Militar, cargo que acumulou com a tutela do Ministério das Finanças. A 5 de julho, dia em que Salazar assumia a chefia do Governo − o que duraria os 36 anos seguintes − o Diário de Lisboa dava destaque à morte do monarca exilado com a publicação de numerosas fotografias e, numa breve notícia publicada na última página, dá conta da situação tensa que se vive na Alemanha, com confrontos entre “comunistas” e “racistas”.

DIA DA POSSE DE SALAZAR. Breve publicada na última página do Diário de Lisboa sobre o agravamento da situação política na Alemanha

DIA DA POSSE DE SALAZAR. Breve publicada na última página do Diário de Lisboa sobre o agravamento da situação política na Alemanha

FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES

Seis meses depois, a 28 de janeiro de 1933, o Diário de Lisboa titula: “Von Schleicher demitiu-se por Hindenburg se recusar a dissolver o Parlamento”. A República de Weimar tinha os dias contados, depois da humilhação a que a Alemanha fora sujeita no final da Grande Guerra e as suas pesadas consequências financeiras.

Hindenburg era o Presidente e Von Schleicher chanceler da República de Weimar, designação por que ficaria conhecido o Estado alemão entre 1919 e 1933. Von Schleicher sugere a Hindenburg uma solução governativa que passava por nomear Hitler para o cargo de chanceler ... e foi assassinado por ordens do líder nazi em junho de 1934.

DIÁRIO DE LISBOA Notícias publicadas entre o fim de janeiro e meados de fevereiro de 1933

DIÁRIO DE LISBOA Notícias publicadas entre o fim de janeiro e meados de fevereiro de 1933

FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES

A 2 de fevereiro de 1933, o Diário de Lisboa noticiava a entrada em vigor de um novo decreto (leia nas imagens publicadas acima) que restringia a liberdade de imprensa. Ao contrário do que aconteceu com Mussolini, Adolf Hitler não precisou de marchar sobre Berlim; o poder foi-lhe oferecido por uma engenhoca governativa, e ele rapidamente quebra as expectativas do Presidente alemão que o nomeara esperando que ele fizesse pontes com os outros partidos.

Confiante na popularidade das suas ideias, convoca eleições para 5 de março. Era o tempo em que as ditaduras europeias emergentes procuravam legitimar-se nas urnas. Em Portugal, a Constituição de 1933 foi aprovada por plebiscito a 19 de março; duas semanas depois, a 11 de abril, Salazar fez publicar o decreto que institui a censura prévia da imprensa. Apesar disso, o ditador português era alvo de críticas dos membros da direita mais radical, como Rolão Preto, um homem que Salazar chegou a temer. Preto defendia um modelo de fascismo revolucionário. Em março de 1934, quando já estava em luta aberta com Salazar, referia-se com orgulho ao aparecimento de uma nova ‘elite’ operária” associada ao nacional-sindicalismo: “Deem-se possibilidades aos humildes, aos filhos do povo que logo de tenra idade amassam com o suor do seu rosto o pão que comem”, escreveu o líder do nacional-sindicalismo numa obra citada por Costa Pinto, no livro “Os Camisas Azuis e Salazar”.

CARTOON Diário de Lisboa, edição mensal nº1, 1933

CARTOON Diário de Lisboa, edição mensal nº1, 1933

HEMEROTECA MUNICIPAL DE LISBOA

O Reichstag, local onde funcionava o Parlamento alemão, ardeu a 27 de fevereiro de 1933, uma semana antes das eleições que confirmariam Hitler no poder; este fogo posto teve um enorme impacto na campanha eleitoral, passando a dominar o debate político. Hitler responsabilizou os comunistas, e capitalizou o fogo a seu favor. O vespertino Diário de Lisboa noticiou o incêndio dois dias depois de ter ocorrido [o que é um tempo normal para a época] e dá nota do “pessimismo dos esquerdistas” sobre o que se seguiria.

Diário de Lisboa, 1 de março de 1933

Diário de Lisboa, 1 de março de 1933

FUNDAÇÃO MÁRIO SOARES

A 2 de março, três dias antes das eleições, o DL escrevia na última página; “Hitler dirigiu-se ontem pela primeira vez, oficialmente ao povo alemão, proferindo um discurso que foi radiodifundido em toda a Alemanha”; a rádio e o cinema foram um dos meios de comunicação que o nazismo utilizou magistralmente para comunicar a sua mensagem.

CRISE INTERNACIONAL. Diário da Manhã de 5 de março de 1933: A crise financeira dos EUA e a guerra sino-japonesa em destaque

CRISE INTERNACIONAL. Diário da Manhã de 5 de março de 1933: A crise financeira dos EUA e a guerra sino-japonesa em destaque

HEMEROTECA MUNICIPAL DE LISBOA

É curioso que o Diário da Manhã, órgão afeto ao regime de Salazar, optasse por títulos noticiosos, nomeadamente no dia 6 de março, onde o texto que anunciava os resultados eleitorais tinha por título “As eleições na Alemanha”; esta linha lacónica e informativa não será alheia à informação publicada no Diário de Notícias de 26 de março, sobre uma notícia do jornal francês Echo de Paris, que deixou Salazar em alerta máximo com a hipótese de Mussolini e Hitler quererem negociar a partilha das colónias portuguesas. O governo italiano desmentiu a informação e Salazar fez publicar uma nota intitulada “Sobre o mesmo assunto”.

Por isso, só a imprensa alinhada com a oposição à direita do regime de Salazar titulava de outra forma, com o jornal “Revolução” a escrever, a 23 de março: “Arme-se e prepare-se a violência. A hora de desencadear a grande ofensiva aproxima-se.”

Trump pode ser comparado com estes homens que fizeram tremer o mundo?


Na opinião de Costa Pinto, Trump pode estar a desencadear “uma interrupção muito rápida na ordem política mundial que conhecíamos. Ao introduzir a incerteza” sobre o que será o seu próximo passo, coloca imensos desafios aos “decisores políticos mundiais (...) que não sabem lidar com o discurso” do Presidente dos EUA: “Trump, tal como Reagan, não era um político profissional, mas é o primeiro Presidente que vem da área dos negócios; antes dele, só Ross Perot é que se tinha candidatado” à liderança dos EUA, nas eleições de 1992, quando Bill Clinton foi eleito.

Neste contexto, é natural a reação da imprensa, até porque hoje há uma enorme rapidez na difusão da informação, e as redes sociais introduziram novos desafios.

Enquanto Costa Pinto admite que Trump poderá estar mais próximo do modelo de Berlusconi, “mas com menos enquadramento partidário”, o investigador José Pedro Zúquete, que no final deste ano vai publicar nos EUA o livro “The Identitarians: Fighting Globalism and Islam in Europe”, diz ao Expresso: “Não vejo esse perigo de ‘ditadura’ nos Estados Unidos. Não só porque o sistema de ‘checks and balances’ é um travão a essas tendências como porque daqui a quatro anos a realidade Trump pode ser votado para fora da presidência caso as pessoas assim o entendam. Na histeria dos dias este ‘pormenor’ parece escapar a muitos dos analistas”.

Mas se Hitler e Mussolini se consideraram revolucionários, mesmo sendo reacionários, Zúquete admite que “existe algo de ‘revolucionário’, ou potencialmente revolucionário, nas políticas de Trump. E porquê? Porque a sua política de protecionismo económico e cultural choca de frente com a ideologia liberal dominante sobretudo desde o fim da Guerra Fria – dos mercados livres, das fronteiras abertas, da menorização dos estados-nações e da própria ideia de identidade nacional ‘enraizada’, em detrimento da diversidade ‘inevitável’ e do multiculturalismo que, para muitos, arranca pela raiz identidades culturais e convivências seculares que caracterizavam aquilo que se chamava Sociedades Ocidentais”.

Tal como aconteceu há 95 anos em Itália ou há 83 na Alemanha, são as noções de pátria e nação que são novamente convocadas para mobilizar apoiantes: “Num contexto em que a chamada Direita se afastou da ‘nação’ (em detrimento dos mercados) e a Esquerda se afastou do ‘povo’ (cada vez mais o seu novo proletariado são os imigrantes, e as suas causas são cada vez mais as causas ‘fraturantes’ e dos direitos individuais) é de estranhar que as classes populares não se sintam representadas e abandonem, também elas, os seus antigos defensores”. E Trump soube mobilizar os votos dos desempregados brancos das outrora prósperas cidades nas imediações do lago Michigan. “Nos EUA, mais do que falar em ‘white trash’ (lixo branco), talvez seja mais importante ter esta perceção de que as classes populares, trabalhadoras, brancas, enviaram para o ‘lixo’ a ideologia dominante. Pelo menos temporariamente”, acrescenta Zúquete.