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Hugo Costa, o designer que foi para Paris com os olhos no Polo Norte

andré de atayde

Hugo Costa esteve em Paris para apresentar a sua coleção na Semana de Moda Masculina e mostrar que é possível voltar a um lugar onde se foi feliz, saindo de lá com saldo positivo

André de Atayde

André de Atayde

Texto, vídeo e fotos, em Paris

Jornalista

Estava de 'bater o dente' em Paris no dia 22 de janeiro de 2017. O frio polar tinha invadido a Europa e na capital francesa andava-se em temperaturas negativas. No caminho até ao Gymnase Trévise, o mais antigo ginásio e campo de basquetebol coberto da cidade-luz, onde decorreu a apresentação da coleção outono-inverno 2017/2018 do designer Hugo Costa, inserida no calendário oficial da Semana de Moda Masculina, as orelhas pareciam feitas de vidro. Ao mínimo toque restariam cacos para apanhar.

Lá dentro, calor e um cenário inspirado em Roald Amundsen, líder da primeira expedição a atingir o Polo Sul, em 14 de dezembro de 1911. Cubos enrolados em papel branco e corda serviam de degrau aos modelos 'encharcados' em pequenos pedaços de papel que caíam, lembrando neve. Tudo sonorizado como se acontecesse no meio de uma tempestade. Tudo desenhado, e pensado, para recordar e homenagear os exploradores do início do século XX.

Agasalhos, expedições, neve foram os motes para a coleção que Hugo Costa apresentou em Paris, sob a aura (e o nome) de Amundsen, no que foi um não-desfile de moda pensado como performance artística de três horas. “A ideia é que as pessoas possam ver a coleção mais perto, sem que isso se esgote nos 10 minutos de desfile”, explicou.

andré de atayde

O percurso de Hugo Costa conta-se em seis anos. Um curto espaço de tempo se comparado com outros colegas de profissão. Meia dúzia de anos que o elevaram de novo talento a confirmação, e à segunda presença em Paris - a primeira foi em junho de 2016. Um crescimento marcado pela “seriedade e a gratidão”, que o estilista considera a base imprescindível na forma de estar e de trabalhar.

“Tento sempre ser muito sério. Não podes falhar porque as pessoas que te apoiam estão a investir muito em ti - e a melhor forma de lhes agradecer é tentar ser o melhor. Se te esforçares para seres o melhor, no mínimo vais ser bom. E se fores bom há espaço para ti.”

O espaço, o físico, enchia-se. O que se queria com o não-desfile ia resultando. Não se espera que em três horas estejam lá sempre as mesmas pessoas, antes se idealiza que umas saiam dando lugar a outras. Assim foi. Os trinta coordenados são apresentados três vezes, em momentos diferentes. Os modelos que os sustentam entram e saem, passeando em branco, preto, azul esverdeado, azul água e cinzento metálico. Aos macacões, casacos e calças 'oversized', acrescentam-se grandes bolsos, fechos e faixas.

“A base dos materiais usados são estruturas de tecidos muito clássicas. Sarja, fazenda, lã, algodão, tudo muito básico. A diferença é que cristalizámos os materiais, daí que tenham os reflexos metálicos”, explica Hugo.

Diz-se que nunca se deve voltar aos lugares onde se foi feliz. Hugo voltou, porque há sempre uma exceção para deitar por terra uma regra, ou um ditado. Se depender dele, voltará sempre a Paris. A marca existirá em França, como existe na Tailândia, na China ou em Taiwan. Porque para se ser bom é preciso estar em todo o lado, não basta passar por lá.

No final da apresentação notava-se o cansaço. E o orgulho. No que se fez e na reação positiva de quem viu. O homem que gosta de preto, que é adepto ferrenho do FC Porto, que tem em 'Pulp Fiction' o seu filme de eleição e como plano de futuro o bem-estar dos seus dois filhos, está feliz. E com frio. Porque nas ruas de Paris estava de 'bater o dente' nesse dia.

*O Expresso viajou a convite do Portugal Fashion