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#FreeTheNipple. Quem tem medo de um mamilo?

Mais de meio século depois da Revolução Sexual, vivemos numa sociedade 'mamofóbica'. Avançamos tanto em tantos domínios e continuamos a ver o corpo como um tabu

Aconteceu esta semana em Necochea, uma conhecida praia na província de Buenos Aires, na Argentina. Vinte agentes foram chamados para lidar com uma ameaça. E o que era afinal essa ameaça que lançara a histeria no areal e justificava o envio de duas dezenas de efetivos e de seis carros patrulha? Um assalto? Uma bomba? Uma altercação entre vários banhistas? A ameaça, mostra um vídeo que entretanto se tornou viral, era o peito descoberto de três mulheres que tinham decidido fazer topless. Um homem não gostou do que viu, pediu-lhes que se tapassem, os ânimos exaltaram-se, a polícia foi chamada. Os agentes pressionaram as mulheres a vestir a parte de cima do biquíni ou teriam de as levar presas se persistissem naquele comportamento. “São mamas, como as que te deram de comer quando eras bebé”, respondeu uma das visadas a um dos polícias. Com os ânimos cada vez mais exaltados, as mulheres renderam-se. “Para alegria dos 'tetofóbicos', vamo-nos desta praia fascista”.

A queixa por atentado ao pudor chegou a tribunal, mas um juiz mandou arquivá-la, solicitando a revisão do código de leis municipal de 1973 que sanciona aquela conduta. Num texto publicado no portal “Cosecha Roja”, defendeu que o topless das três mulheres se tratou de "um verdadeiro ato de rebeldia cívica face a determinados padrões culturais”. “A defesa sem restrições das liberdades leva-me a posicionar-me em favor das mulheres que decidiram destapar os seios, do mesmo modo que apoio as manifestações [conhecidas como 'tetazos'] que ocorrerão nos próximos dias em defesa desses direitos. Essa é uma das formas (por vezes a única possível) de provocar um debate em questões que nos dizem respeito”.

Esta 'mamofobia' não é, claro, exclusiva da Argentina; em 2017, continua a verificar-se em todo o mundo. Na viragem do século, quando publicou uma monografia com o trabalho de Helmut Newton, famoso pelos seus retratos de nus femininos, Benedikt Taschen, o fundador da editora que leva o seu apelido, disse que os mamilos eram a segunda ameaça que os americanos mais temiam depois do terrorismo. Não se referia, claro, aos mamilos de um qualquer homem, porque esses nunca foram problema. Quase duas décadas depois não aprendemos nada.

Uma ativista topless caminha à chuva depois de uma manifestação “Free the Nipple” em Hampton Beach, nos EUA. FOTO BRIAN SNYDER/REUTERS

Uma ativista topless caminha à chuva depois de uma manifestação “Free the Nipple” em Hampton Beach, nos EUA. FOTO BRIAN SNYDER/REUTERS

Brian Snyder / Reuters

Veja-se, por exemplo, o caso do Facebook, onde recorrentemente utilizadores veem as suas contas suspensas por postarem imagens com algum grau de nudez, mesmo que se tratem de trabalhos de artistas como Newton. Ou o caso do irmão mais novo da rede social, o Instagram, cuja política de remover rigorosamente as imagens de mulheres com os seios descobertos deu origem à campanha #FreeTheNipple, que decorre desde 2012 e à qual aderiram várias figuras públicas como Kim Kardashian, Rihanna, Cara Delevigne ou Emily Ratajkowski. O duplo padrão sexista no tratamento da exposição do peito de homens e mulheres originou também o projeto @genderless_nipples (mamilos sem género), criado por três estudantes de publicidade que se conheceram em Nova Iorque. A conta de Instagram mostra mamilos fotografados em close up, tornando difícil perceber se são femininos ou masculinos.

Chegará o dia em que estas brigadas dos bons costumes entrarão pelos museus dentro e arrancarão das paredes os quadros considerados obscenos, de Lucian Freud e Gustave Courbet a Modigliani, Renoir, Cézanne e tantos outros. Avançamos tanto em tantos domínios e continuamos a ver o corpo como um tabu. Mais de meio século depois da revolução sexual, falta fazer a revolução das mentalidades.