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A primeira pessoa a andar em Marte já nasceu

MARTE. A viagem de humanos ao planeta vermelho ainda é ficção científica

D.R.

Chegar a Marte pode tornar-se um desígnio da administração Trump. Afinal, haverá maior sinal de que a “América é grande” do que ser o primeiro a colocar um homem branco (loiro, de preferência) no Planeta Vermelho? Vai demorar 16 anos e o escolhido para pisar o solo marciano já anda por aí.

Algures na Terra está o homem ou a mulher que vai ser o primeiro a deixar uma pegada em Marte. Se calhar ainda não disse a primeira palavra ou deu os primeiros passos; ou pode estar sentado na carteira de uma qualquer escola. O que falta saber é se estes pioneiros serão americanos, chineses, russos ou da agência espacial europeia. A ida a Marte ainda não tem os contornos da mítica corrida à Lua que desempenhou um papel muito importante na Guerra Fria e que, há 54 anos, levou Kennedy a conseguir cumprir uma promessa política feita num excelente discurso em 1962 e com frases inspiradoras como estas: “A sua conquista (a do Espaço) merece os melhores da Humanidade. Nós escolhemos ir à Lua esta década e fazer as outras coisas. Não porque são fáceis, mas porque são difíceis”. Pode rever parte do discurso de Kennedy no YouTube AQUI – e não ligue à trilha sonora que serve de fundo às palavras do malogrado presidente norte-americano.

Kennedy estava fortemente pressionado: no mês anterior, Yuri Gagarin tinha feito o primeiro voo orbital e os soviéticos já tinham tentado, em 59, aterrar um veículo na Lua – o Luna 2 despenhou-se na superfície. A corrida estava ao rubro e ninguém sabia qual das nações seria a primeira a ter um homem no satélite da Terra. É verdade que os soviéticos nunca fizeram uma declaração igual à de Kennedy, mas a história encarregou-se de contar os planos que existiam para que fosse alguém de dentro da Cortina de Ferro a pisar primeiro a Lua.

JFK morreu em Dallas em 1963 e não viveu para ver e ouvir “o pequeno passo para o Homem” dado por Neil Armstrong em 1969. Os americanos ganharam a corrida e, a seguir, a “Guerra das Estrelas” de Reagan ajudou a provocar o colapso da União Soviética. A Guerra Fria acabava em 1989 com a queda do Muro de Berlim e a Rússia recentrava-se perante os gritos de independência das suas ex-repúblicas. Mais uma vez, o desenvolvimento tecnológico de uma nação tinha sido fulcral para o seu sucesso.

A exploração espacial continuou com os americanos a ganharem relevância e a alimentarem uma NASA que aproveitou o programa dos Vaivém para colocar no espaço a Estação Espacial Internacional – sem a capacidade dos space shuttle para transportar cargas de grande dimensão no espaço, o maior laboratório fora da Terra nunca teria existido.

ASTRONAUTA Buzz Aldrin participou na primeira viagem à Lua e deu nome a Buzz Lightyear, o astronauta de Toy StorY

ASTRONAUTA Buzz Aldrin participou na primeira viagem à Lua e deu nome a Buzz Lightyear, o astronauta de Toy StorY

Fabrice Coffrini/ Getty Images

Com o fim destas naves, a NASA ficou sem forma de sair do planeta ficando – uma ironia do destino - dependente da Soyuz russa que tem de pagar para utilizar. A agência espacial norte-americana não ficou apenas sem meios de locomoção: também levou um grande corte orçamental. Dos 4% do orçamento federal dos tempos de Kennedy, a NASA recebe hoje 0,4%. São 19 mil milhões de dólares este ano. Um valor que vai chegar aos 20,4 mil milhões em 2021. O orçamento deste ano pode ser visto em detalhe no site oficial da NASA .

Neste orçamento, a maior fatia, 8 mil milhões, é utilizada para a “exploração humana” do espaço. Há, em todo o documento, uma única referência a Marte e diz respeito à missão de enviar, em 2020, um novo rover que vai continuar a exploração daquele planeta. Mas Marte está nos planos dos americanos.

Com Obama, ficámos a saber que era um imperativo americano enviar uma pessoa até à superfície de um asteroide e, claro, pôr o pé em solo marciano. A ambição de chegada ao Planeta Vermelho estava marcada para a década de 30 deste século. O ex-presidente dos EUA também se comprometeu a manter o apoio financeiro e material necessário para manter a Estação Espacial Internacional a funcionar até 2028.

E agora, com Trump? Não se conhecem quais as ideias do atual presidente sobre a exploração espacial. Pode antecipar-se, pelas suas declarações sobre o reforço do investimento interno no setor militar ou por ter optado por integrar várias pessoas da NASA na sua equipa de transição, que o Espaço poderá ser uma área de interesse para Trump durante este primeiro mandato.

E aqui volto a focar-me na corrida a Marte. Chegar a Marte antes de russos e chineses pode vir a assumir-se como um desígnio nacional para Trump. E quando é que pode chegar um americano a Marte? Neste artigo da “Wired”, três especialistas em exploração espacial defendem que 2033 seria perfeitamente exequível: “Com grande orgulho e confiança, o nosso novo presidente e o Congresso deveriam comprometer-se, com a NASA, no objetivo de enviar americanos a Marte em 2033 – um objetivo realista e consistente com as exigências tanto da engenharia espacial como da ciência política”.

Os chineses planeiam uma missão em 2020 que vai colocar em Marte um rover e uma sonda. Já no próximo ano, a agência espacial russa planeia testar um foguetão que vai recorrer a propulsão nuclear para conseguir acelerar a viagem até Marte. Os russos antecipam que a viagem que demora atualmente 18 meses possa encurtar para seis semanas. O plano russo passa por colocar um homem em Marte até 2033.

A agência espacial europeia também está na corrida. Este ano, sofreu um revés nestas intenções quando uma sonda do programa ExoMars explodiu na superfície marciana, mas em 2020 segue uma outra que leva a bordo um rover que fará a recolha de vários dados do planeta.

E não podemos esquecer os privados. É conhecida a obsessão de Elon Musk por Marte. O empresário prevê que o planeta possa ser colonizado nos próximos 40 a 100 anos – prevê Musk que no fim dessa janela temporal já vão estar a viver em Marte um milhão de pessoas. E muitos vão chegar a bordo das naves construídas pela SpaceX, a empresa que o patrão da Tesla criou tendo em vista a exploração espacial.

Finalmente, a corrida é preenchida pela holandesa Mars One. A empresa pretende partir em 2026 utilizando tecnologia que já está hoje disponível e nem se preocupa muito com o regresso – a ideia é que a equipa de astronautas fique a viver em Marte… até morrer!

No papel (e na Internet) existe muita competição pela chegada a Marte. Mas, como a Lua nos ensinou, o espaço é um ambiente muito hostil ao Homem. Basta ver que só agora, 48 anos depois dos primeiros passeios lunares dos astronautas das missões Apollo, é que há planos para outros países mandarem astronautas pisar a Lua.

Estes quatro anos de Trump (e os seguintes caso seja reeleito) são decisivos para a existência de um verdadeiro plano de ataque dos EUA a Marte. Será preciso entender que, mesmo com o revés dos Shuttle, ou com os cortes no orçamento, os americanos continuam (por enquanto) a serem os que estão melhor preparados para completar a missão.

Espero, por isso, que Trump veja esta corrida como uma eficaz arma de arremesso para a sua “Make America Great Again”. Nem me importo que Marte seja utilizado como arma xenófoba para colocar um homem branco no Planeta Vermelho. O que quero, mesmo, é que a Humanidade continue a olhar lá para cima consumida pelas perguntas derradeiras: Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos?