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Soares não será o próximo português no Panteão. Passos Manuel já tem lugar marcado

No dia 9 de setembro, os deputados portuenses liderados por Passos Manuel, desembarcaram em Lisboa para protestarem contra a situação calamitosa do país. Foi o início da Revolução de Setembro

Helena Pereira

Helena Pereira

Editora de Política

PASSOS MANUEL Será o próximo português a ir para o Panteão para assinalar 200 anos de Constitucionalismo em Portugal

Passos Manuel, que no assento de batismo se chamava Manuel da Silva Passos, poderá ser o próximo português a ser trasladado para o Panteão Nacional. A proposta de homenagem ao líder da Revolução de Setembro que foi deputado e ministro do Reino, foi inicialmente feita pela Academia Portuguesa de Belas-Artes na anterior legislatura. Assunção Esteves, à data presidente da Assembleia da República, chumbou a ideia, alegando falta de verba.

O seu sucessor, Eduardo Ferro Rodrigues, decidiu recuperar a proposta da Academia que tinha sido chumbada pela sua antecessora. Ferro tenciona promover a homenagem a Passos Manuel no âmbito das celebrações dos 200 anos de Constitucionalismo em Portugal [1820 − 2020], cuja organização entregou esta semana a Guilherme d' Oliveira Martins.

HOMEM DO NORTE. Manuel da Silva Passos, que todos conhecemos como Passos Manuel, nasceu em Guifões, nos arredores de Matosinhos

HOMEM DO NORTE. Manuel da Silva Passos, que todos conhecemos como Passos Manuel, nasceu em Guifões, nos arredores de Matosinhos

d.r.

Os irmãos Silva Passos, José, o mais novo, e Manuel, o mais velho, destacaram-se como políticos da esquerda liberal em meados do século XIX.

Filhos de pequenos proprietários rurais da zona de Matosinhos, ambos estudaram Direito na Universidade de Coimbra. Manuel, que a vida política acabaria por transformar em Passos Manuel, nasceu em 1801, e morreu em 1862, poucos dias depois de completar 61 anos.
Após obter o bacharelato em Direito, regressa ao Porto onde tenta a advocacia que rapidamente abandona; em 1822, ano em que foi aprovada a primeira Constituição portuguesa — no reinado de D. João VI —, inscreve-se na Sociedade Patriótica Promotora das Letras e da Indústria Nacional do Porto. Segue-se um período conturbado na vida política do país que opôs os liberais partidários de D. Pedro IV aos absolutistas, partidários do seu irmão D. Miguel. É neste clima que se vão cimentando as convicções dos irmãos Silva Passos — que ficam conhecidos como Passos Manuel e Passos José —, homens liberais e políticos da ala de esquerda.

Em 1828, quando os liberais do Porto se levantaram contra D. Miguel, depois do golpe de Estado em que este restabeleceu a monarquia absoluta, Passos Manuel e o irmão saíram do país.

Terminadas as guerras liberais, os irmãos regressam do exílio. Em 1834, Passos Manuel foi eleito deputado pelo Douro. Orador com dotes de grande tribuno, destaca-se como parlamentar, passando a representar nas Cortes a esquerda mais radical da época. Dizia que “um bom princípio vale mais do que um homem” e, apesar de estar do lado dos vitoriosos das guerras liberais, recusou o confisco dos bens pessoais dos vencidos da guerra civil.

Teve um papel ativo na Revolução de Setembro de 1836, que abriu as portas ao novo texto constitucional de 1838, no reinado de D. Maria II. Este texto teve a sua grande âncora na Constituição de 1822.

Quase dois séculos depois, o presidente da Assembleia, Ferro Rodrigues, quer homenagear o tribuno e parlamentar que foi Passos Manuel, e está a organizar uma série de eventos para assinalar os 200 anos de Constitucionalismo em Portugal.

Depois de Amália Rodrigues e Eusébio, Passos Manuel deverá ser o próximo português a ser trasladado para o Panteão. Recorde-se que as regras de trasladação de portugueses ilustres para este monumento foram alteradas há pouco tempo, pelo Parlamento, que decidiu, depois das últimas polémicas, aprovar uma lei que só permite que os restos mortais sejam trasladados 20 anos após a morte da pessoa.

Ou seja, se pensarmos no caso de Mário Soares só poderá ter honras de Panteão em 2037, se a lei se mantiver assim.