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“Em casos destes, é importante que o desenho seja uma coisa mexida, alegre e dinâmica. Que não fosse só a doença”

Teresa Ruivo/ Imagem cedida pelo IPO

Uma caneta preta e aguarelas são os materiais que Teresa Ruivo precisa para desenhar o mundo em cadernos. É uma Urban Sketchers. No ano passado foi uma das convidadas a desenhar o Instituto Português de Oncologia, em Lisboa. Pintou aquilo que viu (e que este sábado vai estar em exposição e leilão): os corredores, os exames, as visitas e até as cirurgias. Foi para traçar no papel que entrou no hospital pela primeira vez, mas foi para ensinar os meninos e meninas que ali passam dias sem conta que atravessa aquela entrada todas as semanas

A porta: entrada, acesso, passagem para um novo lugar. Foi isso que Teresa Ruivo tentou deixar gravado no caderno que a acompanha todos os dias. Com a caneta preta e as aguarelas na mão, quis fazer da entrada do Instituto Português de Oncologia (IPO), em Lisboa, uma imagem que não fosse apenas marcada pela doença. Queria dinâmica e vida. Este é uma das dezenas de desenhos dos Urban Sketchers Portugal que este sábado, dia em que se assinala o Dia Mundial da Luta contra o Cancro, vão estar em exposição e a leilão no IPO.

“Para uma pessoa que está doente, passar pela primeira vez aquela porta significa uma mudança muito grande e a entrada num novo capítulo. Tem uma carga simbólica bastante grande”, explica Teresa Ruivo. “Tentei que no desenho houvesse alguma agitação e vida. Em casos destes, é importante que o desenho seja uma coisa mexida, alegre e dinâmica. Que não fosse só a doença”, acrescenta.

Ao longo de uma semana no ano passado, Teresa Ruivo e outros Urban Sketchers entraram e saíram do IPO. Tinham a liberdade de desenhar o que queriam da forma que desejavam. “Fiz mais de uma dúzia de desenhos.” Não sabe ao certo quantos foram, mas sempre que tinha um bocadinho, lá estava ela de caderno aberto. Traçou corredores, salas de exames e de espera, as visitas e até uma cirurgia.

“Subi para o varandim de observação. Mostrei várias vezes ao senhor os desenhos para tentar explicar por gestos o que estava a fazer. Até adormecer com a anestesia, fui-lhe fazendo sinal de fixe e sorria-lhe”, recorda Teresa. Depois, foi-se embora.

Um dia mais tarde, voltou a reencontrar o senhor que desenhou na sala de operações. “Perguntei-lhe se gostaria de ver o que tinha estado a fazer. Mostrei-lhe os desenhos com vários momentos da cirurgia e ele ficou todo contente e achou muita graça. Entretanto, perdi-lhe o contacto.”

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CELESTE VAZ FERREIRA/ Imagem cedida pelo IPO

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EDUARDO SALAVISA/ Imagem cedida pelo IPO

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LISETE FERNANDES/ Imagem cedida pelo IPO

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PEDRO CABRAL/ Imagem cedida pelo IPO

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PEDRO CABRAL/ Imagem cedida pelo IPO

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ROSARIO FELIX/ Imagem cedida pelo IPO

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TERESA RUIVO/ Imagem cedida pelo IPO

Além de Teresa, os trabalhos de outros 33 autores vão estar na exposição “IPO Lisboa|Urban Sketchers Portugal” no corredor do terceiro do Pavilhão Central do IPO, a partir das 10h deste sábado e até 18 de março. Mais tarde, às 17h30, está previsto o arranque do leilão. Com base de licitação entre os €20 e €140, vão ser leiloados 59 lotes de desenho originais

De artista a voluntária

Os urban sketchers “são um coletivo de autores que desenham em diários gráficos as cidades onde vivem, os sítios por onde viajam, encontram-se para desenhar de vez em quando e respeitam o manifesto”. Foi nesta qualidade que Teresa Ruivo entrou pela primeira vez no IPO. Mas é como voluntária que volta todas as semanas.

É psicóloga clínica de profissão e trabalha sobretudo com crianças. A ala pediátrica despertou-lhe a atenção. Olhando para os miúdos que passavam horas na sala de entre consultas, quimioterapia, análises e exames, soube que podia ajudar a passar o tempo.

“Lembrei-me que talvez tivesse no sítio certo para propor uma coisa que eu gostava e fazer alguma coisa com miúdos com doença oncológica. Fui falar com várias pessoas e apresentei o ‘Desenhar Contigo’”, diz Teresa. “Lembrei-me de fazer uma oficina de desenho e arte gráfica. Com esta componente mais lúdica, queria a ajudar quer as crianças, quer as famílias a vivenciarem da melhor forma possível aquelas longas horas de espera no hospital. É um tempo que é vivido de forma muito penosa, que tem angústias e medos à mistura”, explica.

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Imagem cedida por Teresa Ruivo

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Imagem cedida por Teresa Ruivo

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Imagem cedida por Teresa Ruivo

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Imagem cedida por Teresa Ruivo

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Imagem cedida por Teresa Ruivo

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Imagem cedida por Teresa Ruivo

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Imagem cedida por Teresa Ruivo

Não tem a pretensão em ajudar a lidar com a doença, quer apenas que se esqueçam por instantes do porquê de estarem naquele sítio. A sala de espera transforma-se num ato “de criatividade e satisfação”.

Cada criança tem um caderno. Desenham quando querem e o que querem, até porque há dias em que a vontade não aparece. Quando são chamados para a consulta, vão a correr, pois sabem que cá fora está à espera uma página em branco com mil e uma possibilidades de deixar voar a imaginação.

“Se a criança estiver distraída e não estiver a pensar porque está ali, já é um dia ganho. É engraçado ver a evolução ao longo todo tempo, perceber o que faziam e o que fazem agora. Além disso, criam-se dinâmicas engraçadas entre as várias idades, pois estão ali crianças até aos 16 anos. Às vezes até os pais alinham”, conta a urban sketcher.

Há muito tempo que Teresa Ruivo queria fazer voluntariado, mas foi a sua paixão pelo desenho que a levou até ao sítio certo, onde pode partilhar o que de melhor sabe. Só pode ir à sexta-feira, o trabalho não permite mais.

“Há meninos que pedem para a consulta ser nesse dia, porque é o dia do ‘Desenhar Contigo’”, refere com algum orgulho.