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Vitinho, o “boneco com o condão de criar ternura”

Imagem cedida pelo autor

Era ele que nas décadas de 80 e 90 mandava os meninos para a cama. “Vamos lá dormir”, cantava. Mas havia uma pessoa a quem o Vitinho tirava o sono: José Maria Pimentel, o criador do miúdo traquinas de fato e chapéu amarelo que “marcou uma geração”. No dia que achávamos ser o 33.º aniversário do boneco, descobrimos um segredo guardado há anos

Poucos minutos antes ou depois das 21h, na RTP, lá estava ele todos os dias. “Está na hora da caminha/ Vamos lá dormir” (inevitavelmente vai ler isto a cantarolar). Com a primeira nota musical a soar, todos os meninos e meninas, hoje homens e mulheres, sabiam que eram tempo de acabar com a brincadeira: lavar dentes, vestir o pijama e xixi-cama.

Esta quinta-feira, o “boneco com o condão de criar ternura” faz 33 anos (ou pelo menos achávamos nós). Se o Vitinho pôs muitos a dormir, houve pelo menos uma pessoa a quem tirou o sono: José Maria Pimentel. O escritor e ilustrador de 60 anos criou o menino de ar traquina e descalço, que diz ser uma mistura dele próprio, com a sua filha mais velha e ainda com Huckleberry Finn. Porque é que o Vitinho deixou marca numa geração? “Era real”, responde em entrevista.

Como surgiu o convite para desenhar o Vitinho?
Isso é o início do livro. Foi uma colega de publicidade, a Mariana Botelho Neves, que me desafiou para fazermos um grupo e concorrermos à conta do Miluvit [papa infantil da marca Milupa que iria ser lançada]. Ela entendia, e bem, que este era um produto que deveria ser lançado com uma personagem e que essa seria o melhor interlocutor para as crianças. Pediu-me para construir a personagem. Apresentamos a proposta e ganhámos. Ficou o Vitinho na Milupa até a Alemanha ter decidido, em 2004, que não queria mais comunicação local.

Imagem cedida pelo autor

Lembra-se do dia em que soube que o seu Vitinho não ia estar mais nas embalagens?
Quando retiraram o Vitinho, retiraram-me também. Nessa altura, eu trabalhava praticamente todos os produtos da marca. Tinha o meu ateliê, era praticamente a agência de publicidade e vivia da Milupa. Portanto, quando despediram o Vitinho despediram-me a mim. Fiquei arrasado, não porque dependesse emocionalmente do Vitinho… Até porque ele punha toda a gente a dormir, mas deixava-me sem dormir. Manter vivo uma personagem por mais de 30 anos é muito trabalhoso. A determinada altura, todos se encantavam com ele, mas eu só me gastava. Foi uma relação muito conflituosa, embora agora seja diferente.

[interrompe] Tenho que lhe dizer uma coisa que é muito importante… Já era para ter contado e esta oportunidade é muito boa para repor esta verdade. Está a falar comigo porque é 2 de fevereiro. Mas este dia tem uma história muito gira. Há seis anos, ligou-me alguém da Google Portugal e iam lançar os Google Doodles no país. Faziam uma questão enorme de que o primeiro fosse do Vitinho e fiquei muito empolgado com a ideia. Disseram-me que tinham um bom pretexto para isso, calhava sempre bem que aquilo fosse uma efeméride e lembraram-se de que o Vitinho estaria a fazer 25 anos. Era verdade: era o ano dos 25 anos da série [foi criado em 1984 e só chegou à televisão dois anos depois]. Lá na Google, fizeram as contas e caía que nem ginjas os 25 anos. Eu nunca tinha feito contas e, nessa altura, o Vitinho estava praticamente inativo. Pediram-me para arranjar um pretexto para o dia 2 de fevereiro de 2011. Bem puxei pela cabeça, mas não tinha meio de saber o que tinha acontecido há 25 anos. Pensei que aquilo também não teria muita importância, pois o ano estava correto. E é com esta inocência que foi feito.

Nesse dia, o diretor de marketing da Google ligou-me muito eufórico a dizer que tinha aparecido na televisão, na rádio, nos jornais, em tudo o que era lugar, a notícia dos 25 anos do Vitinho. Ninguém sabia se a comemoração era ou não a 2 de fevereiro. Ninguém sabia que tínhamos combinado aquilo. E ficou ali marcado para sempre. Agora, quando estava a fazer a pesquisa para o livro que estou a escrever, descobri a data em que a série foi emitida pela primeira vez e, claro, não tinha nada a ver com o dia 2 de fevereiro. Foi no dia 16 de outubro de 1986. Quando descobri, fiquei com uma culpa enorme que guardo até hoje. Não vem mal nenhum ao mundo, mas foi veiculada uma informação errada…

O Google Doodle divulgado a 2 de fevereiro de 2011

O Google Doodle divulgado a 2 de fevereiro de 2011

Quando uma pessoa começa um projeto novo nem se lembra de decorar a data. Provavelmente, não se recorda do dia em que começou a desenhar o Vitinho…
Não, de todo…Recordo-me, sim, de que quando foi desenhado saiu em dez minutos.

Como foi o esse processo?
Quando se inicia um projeto novo nem nos apercebemos qual é o momento em que começamos a idealizá-lo. Quando é que começa realmente o projeto: quando o pensamos ou quando o lápis toca no papel? Não sabemos… Com personagens, às vezes demoro semanas. O Vitinho saiu em dez minutos. Se nasceu em dez minutos, era porque já estava a refogar na minha cabeça de alguma maneira. Quis que tivesse um ar rural, que andasse descalço e que trepasse às árvores. Ele aproximou-se dessa ideia do Huckleberry Finn, porque não queria que fosse como Tom Sawyer, que tinha algo de rebelde. Queria que tivesse doçura e o Huckleberry Finn é o amigo do Tom Sawyer de que gostei sempre. Era um menino valente, arejado, esperto e expedito. Era aquilo que se podia chamar um bom menino. Nessa altura [1984], não houve personagem mais gasta do que a criança reguila e insuportável. Quando nasce uma personagem destas? Muito provavelmente quando eu nasci, porque me reflito muito nele. Nasce quando nasceu a minha filha mais velha, porque tem muito da expressividade e do temperamento dela. Portanto, quando o lápis encosta ao papel e fazemos uma personagem em dez minutos, ela não nasceu ali. Já vem de trás, tem uma vida inteira a refletir-se naquele desenho.

A personagem não é só o desenho. Quem é o Vitinho?
Tenho muita dificuldade em responder isso. Há pouca coisa que faço que não acredito que seja verdadeira. Não acredito muito nas ficções baseadas em… Gosto de figuras complexas e o Vitinho é um bom exemplo disso. Diria que é, tal como tudo o que faço, algo que existe e é verdadeiro. Só assim é que as pessoas criam empatia. Sei exatamente quando as coisas não me vieram cá de dentro, verifico que não têm o mesmo impacto. Se selecionar um conjunto de conceitos que estiveram na construção do Vitinho, diria que para mim era importante que fosse rural, menino com quatro anos, possivelmente na fase em que já sabe umas palavras e está a aprender a ler e gostei muito da ideia de estar descalço (o que sempre me criou alguns problemas).

Sou africano e adoro andar descalço. Ando assim praticamente o dia todo, mesmo quando trabalhava nas agências de publicidade, tinha sempre os sapatos ao lado. Não tinha mais ideia nenhuma senão fazer o Vitinho assim. Acabei depois, sem dar muito por isso, por refletir nele uma quantidade enorme de coisas minhas. Deve ter sido a personagem que projetei com mais características pessoais. Sempre fui um bom menino, mas nunca fui sossegado. Era traquinas.

É reconhecido por ser o pai do Vitinho?
No meu meio profissional é o rótulo mais comum e, por sinal, também incómodo. Ser o pai do Vitinho é uma forma muito redutora de me classificarem profissionalmente, mas para aqueles que não privaram profissionalmente comigo e não me conhecem além dessa faceta, sou o gajo dos bonecos. E desenhar nem é aquilo de que gosto mais. É apenas uma forma de expressão, tal como é escrever, cantar ou dançar. Lá calha ter sido o Vitinho que ganhou maior notoriedade. Mas não me incomoda que outras pessoas reconheçam isso, porque normalmente traz ternura.

Como acha que seria o Vitinho nos dias de hoje, com 33 anos?
Existe um período em que o Vitinho surgiu com várias idades (conforme as idades a que se adequavam os produtos da Milupa), mas estou a combater isso. Ele foi mercenário e um vendido a vida toda, e agora estou a tentar redimi-lo [risos]. Percebi que convinha retomar o Vitinho na fase em que aparecia no “Boa Noite”, que é a versão mais memorizada. Quero isolá-lo das outras versões. Não gostava de o fazer aparecer assim, até porque me choca um bocado a ideia dele ser adulto. Talvez seja um bocado influência do Peter Pan. Não me aborrece nada, nem me parece imaturo, que ele não cresça, pois é aquela referência por ter aquela idade. Se tivesse 33 anos, não suscitava a mesma coisa.

Já lá vão 20 anos desde que a série deixou de ser emitida. O que tem o Vitinho de especial para ter marcado uma geração e reconhecerem o boneco?
Acho que há dois fatores. O primeiro, que é o facto de ser um boneco, mas verdadeiro. A complexidade que tem transforma-o numa figura humana, embora em desenho. Isso torna-o mais reconhecido e aceite. E depois há outra coisa, pela qual não tenho qualquer mérito e que me ultrapassa: esteve na televisão durante dez anos. Dito de uma maneira mais dura, uma perfeita lavagem ao cérebro. São para aí duas gerações a ver todos os dias o boneco. Foram quatro filmes muitas vezes repetidos. Há uma parte hipnótica que com certeza explica o porquê da notoriedade perdurar.

As crianças de hoje conhecem o Vitinho?
Os que são filhos da geração Vitinho conhecem. Não as gerações anteriores, mas os miúdos que estão a nascer agora e têm até cinco anos conhecem, porque os pais são a geração Vitinho e cantam as músicas. Esta é uma oportunidade que eu agarro agora ou nunca mais se repetirá.

Lá mais para o final do ano vai relançar o Vitinho. O que está a preparar?
Estou a trabalhar n’ “O Grande Livro do Vitinho”, que conta o que foram estes anos todos. Foi uma quantidade tão grande de acontecimentos, envolvendo tanta gente em produções, em várias coisas, em ternuras. Este boneco tem o condão fabuloso de criar ternura à sua volta. Vai ser a oportunidade de retomar tudo isso, com uma oportunidade nova: é a primeira vez na minha vida que o boneco me pertence.