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“Tenho fé que Donald Trump não seja um novo Hitler”

PREOCUPAÇÃO Yiossuf Mohamed Adamgy nasceu no norte de Moçambique há 66 anos. Vive em Portugal desde 1977 e, como a maior parte dos islâmicos portugueses, é muçulmano sunita. Fundou a revista “Al Furqán” em 1981

josé caria

Para Yiossuf Mohamed Adamgy, o diretor da “Al Furqán” — uma das principais revistas da comunidade muçulmana portuguesa —, o Presidente Donald Trump está a ignorar que os EUA foram construídos “nas costas dos muçulmanos”. E não acredita que o decreto “ilegal e discriminatório” que proíbe a entrada no país de pessoas de sete países muçulmanos durante 90 dias venha a travar o terrorismo. “O terrorismo não conhece nacionalidades: tanto pode ser islâmico como asiático ou americano.” Um depoimento na primeira pessoa

Texto Yiossuf Mohamed Adamgy (depoimento recolhido e editado por Hugo Franco), José Caria (foto)

O decreto de Donald Trump que impede a entrada de muçulmanos oriundos de sete países, bem como de refugiados, é ilegal, discriminatório e um ataque direto ao Islão. O Presidente norte-americano ignora que os muçulmanos fazem parte da América desde a sua fundação. Um terço dos escravos da América era muçulmanos. Os Estados Unidos foram praticamente construídos nas costas dos muçulmanos. As contribuições dos muçulmanos para a História da América foram muito importantes. E mais. A cópia do Corão do Presidente Thomas Jefferson tem assento na biblioteca do congresso americano, o que mostra a importância do pensamento muçulmano na fundação do país.

Trump, como Presidente dos EUA, é responsável por todos os americanos, independente das suas crenças e raças. Tem de garantir liberdade e justiça para todos. Se não o fizer, irá criar mais radicalismos e também incidentes diplomáticos, como foi o caso recente do parlamentar britânico conservador, Nadhim Zahawi, que lembrou que também ele foi afetado pelo decreto: ele e a mulher não poderão entrar nos EUA pois nasceram no Iraque, embora tenham passaporte britânico. O mundo inteiro está contra estas políticas de Donald Trump. Só os mais conservadores estão do lado dele.

A discriminação por fé e religião não pode ser uma resposta ao terrorismo, que não conhece nacionalidades: tanto pode ser islâmico como asiático ou americano. E não é este tipo de decretos que o vai travar.

josé caria

Subscrevo as palavras dos responsáveis das Nações Unidas. Considero que este decreto é uma ação mesquinha e ilegal e faço votos para que a indignação global contra estas medidas do Presidente dos EUA ganhe cada vez mais força de modo a que Trump volte atrás com tudo isto. Tenho fé que Donald Trump não seja um novo Hitler.

A islamofobia já existe há algum tempo e está pior. Com esta tensão tende a agravar-se. Portugal é um país pequeno, pacífico e hospitaleiro. Mas receio que possa ser também afetado com o que se passa fora de portas, pois o mundo é hoje uma aldeia global. Tudo o que se passa noutros sítios contagia e contamina a população. Nunca se sabe o que poderá acontecer.

É preciso lembrar que o terrorismo ligado a organizações como o Daesh nada tem que ver com o Islão. É feito sobretudo por pessoas perturbadas e manipuladas. A nossa religião está a ser usada por Trump como bode expiatório. Além disso, os muçulmanos não podem ser metidos todos no mesmo saco. Em todo o caso não prevejo que no futuro próximo o Presidente norte-americano venha agravar este tipo de restrições contra os muçulmanos.

Acredito que alguns destes países de maioria muçulmana que foram afetados pela medida possam agora fazer algum tipo de represálias contra os EUA. Mas não se deverão precipitar porque estão todos à espera que haja uma espécie de marcha-atrás por parte de Washington. E oxalá que assim seja, pois esta situação não nos leva a lado nenhum.

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