Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

O enorme salto qualificativo de Portugal ainda não retirou o país da cauda da OCDE

PROGRESSO. No início dos anos 80, menos de um quarto dos jovens portugueses continuava a estudar depois de terminar o ensino básico. Hoje todos têm de se manter na escola até concluir o 12º ou até aos 18 anos

RUI OCHÔA

Dados da organização mostram o progresso registados nos últimos 50 anos nas qualificações dos jovens adultos. Quase toda população da Coreia do Sul entre os 25 e os 34 anos tem no mínimo o ensino secundário. Em Portugal são 67%

Isabel Leiria

Isabel Leiria

texto

Jornalista

Sofia Miguel Rosa

Sofia Miguel Rosa

infografia

Jornalista infográfica

Portugal 1965: apenas 8,8% dos jovens adultos concluem o ensino secundário, num país que acaba de aprovar o alargamento do ensino obrigatório dos quatro para os seis anos de escola e em que mais de 30% da população não sabe ler nem escrever. Nenhum outro país da OCDE apresenta qualificações tão baixas na população entre os 25 e os 34 anos.

Portugal 2015: a percentagem de conclusão deste nível de ensino na população entre os 25 e os 34 anos atinge os 67%, crescendo 58 pontos percentuais em cinco décadas. Foi o terceiro maior salto registado entre um conjunto de 31 países da OCDE para os quais há dados.
O problema é que o país partiu tão atrasado que, apesar de ter descolado da cauda da organização e de se ter afastado de México e Turquia, continua a integrar o grupo dos seis países da organização (em 33) que ainda não conseguiram alcançar a fasquia dos 80% de jovens adultos com pelo menos o ensino secundário.

O problema é que o país partiu tão atrasado que, apesar de ter descolado da cauda da organização e de se ter afastado de México e Turquia, continua a integrar o grupo dos seis países da organização (em 33) que ainda não conseguiram alcançar a fasquia dos 80% de jovens adultos com pelo menos o ensino secundário.

Este retrato da evolução das qualificações foi publicado esta semana na última edição do “Education Indicators in Focus”, da responsabilidade da OCDE, e ilustra bem os ritmos diferentes a que deu a expansão do sistema de ensino secundário nos vários países, sobretudo a partir das décadas de 60 e 70, como consequência do reconhecimento crescente da importância da Educação para o desenvolvimento das economias.

infografia sofia miguel rosa

Recuando a 1965, nenhum país da OCDE tinha mais de 80% dos seus jovens adultos com o ensino secundário concluído. Mas no início deste século todos à exceção de seis (México, Turquia, Espanha, Portugal, Itália, Islândia) alcançaram este nível, que é hoje considerado o mínimo para se conseguir entrar com sucesso mercado de trabalho e garantir um emprego ao longo da vida. Em meio século, a percentagem de população entre os 25 e os 34 anos com o secundário completo quase duplicou, passando de 43% para 84% em 2015.

O recorde dos EUA e a ascensão da Coreia do Sul

Mas há 50 anos, o panorama era mais diverso. Havia países, como os Estados Unidos ou a Alemanha, à beira de atingir a fasquia dos 80%. “Os Estados Unidos desenvolveram o seu sistema público de educação de forma consistente a partir do século XIX. Em 1969 conseguiram chegar à barreira dos 80%. Este feito notável é uma das bases do poder económico, social e político que vieram a conquistar na segunda metade do século XX“, considera Dirk Van Damme, chefe da divisão de inovação e avaliação do progresso do Departamento da Educação e Competências da OCDE. E não é por acaso, acrescenta, que EUA e Alemanha, duas das nações então mais avançadas em matéria de qualificação da população jovem, “lutaram em lados opostos na II Guerra Mundial”.

No entanto, ambos desaceleraram a partir de 1965 e acabaram por ser ultrapassados neste indicador por outros países, como a República Checa (o país que tem atualmente a população adulta mais qualificada), a Polónia , a Eslovénia e a Coreia do Sul.

Este pequeno país asiático protagoniza a mais bem sucedida história de aumento de qualificações da sua população: em 1965, pouco mais de 20% dos jovens adultos tinham o ensino secundário. Em cinquenta anos, o número subiu 75 pontos percentuais e praticamente chegou aos 100% (98,3%). “Apesar de haver dúvidas quanto à sustentabilidade desta expansão, sobretudo quando a fasquia foi elevada ao ensino superior, e os riscos de uma 'inflação educativa' é um feito histórico impressionante que alimentou, sem dúvida, o sucesso económico do país”, analisa Dirk Van Damme.

Outros dos países a registar uma evolução assinalável é a Irlanda, que viu a percentagem de população entre os 25 e os 34 anos com pelo menos o ensino secundário crescer 64 pontos percentuais neste período e está agora acima dos 90% (em 1965 era de apenas 27%).

No caso de Portugal, o maior salto aconteceu entre 2005 e 2015. Recorde-se que a escolaridade obrigatória foi alargada até ao 9º ano em 1986 e estendida até ao 12º (ou aos 18 anos de idade) em 2009. O entretanto extinto programa de qualificação e certificação da população adulta também pode ter tido algum impacto.