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Instagram vs. Snapchat: as minhas ‘stories’ são melhores do que as tuas

A competição entre os maiores gigantes da tecnologia mundial não é novidade para ninguém. Contudo, no que diz respeito às redes sociais, as faces desse combate traduzem-se na apropriação e integração de funcionalidades dos competidores. Caso mais recente é do Instagram Stories, uma “cópia” aprimorada das histórias do Snapchat

A influência das redes sociais no admirável mundo digital e digitalizado em que vivemos é inegável. Pode criticar-se a excessiva dependência de grande parte dos seus utilizadores, mas negar a predominância que as mesmas assumem é impossível. Para muita e boa gente, estes são hoje os canais escolhidos para comunicar, procurar, divulgar e partilhar informação, mas também para socializar, comprar, reclamar, difamar, insultar, ofender, elogiar, declarar, ouvir e escutar, entre outras coisas.

Para se ter uma ideia, o número de utilizadores registados no Facebook fariam do rei das redes sociais o terceiro maior país do mundo em número de habitantes. Isto, per se, diz muito da taxa de utilização destas plataformas que nunca se estranharam e rapidamente se entranharam nos hábitos digitais diários de, pelo menos, um terço da população mundial.

Em Portugal, por exemplo, são já 4,8 milhões de portugueses a utilizar a app mobile do Facebook.

E como em tudo o que envolve tecnologia de ponta, as mudanças são enormes e extremamente frequentes e a competição, essa, não lhe fica atrás.

O caso mais recente chama-se Instagram Stories. Para muitos trata-se uma “cópia” aprimorada das Histórias do Snapchat. O que não está totalmente distante da verdade, mas, na era da pós-verdade, é preciso perceber como é que as coisas se passam. E o que se passa, passa e muito pelo sentido pejorativo e oportunista que a pobre coitada da palavra cópia carrega consigo na sua atormentada existência. Copiar nunca foi uma atividade que recolhesse grande admiração ou estima por parte da sociedade. Com exceção dos monges copistas, nenhum outro oficial da cópia recebeu grandes louvores pelos seus feitos.

Mas isso é outra história.

O segredo para olhar para esta história com o filtro certo consiste em olhar para a dita “cópia” de outra forma que não aquela com que quase sempre se olhar para uma imitação. Com desdém. Com reprovação e indignação. Só que a questão é, obviamente, ligeiramente mais complexa do que isto.

Virgínia Coutinho, diretora de Marketing de uma conhecida empresa de social media analytics, a Socialbakers, explica que “as empresas de tecnologia têm um departamento de ‘Inteligência Competitiva’ que, para além de obter e agregar informações dos concorrentes para o departamento comercial, o Marketing, que por sua vez trabalha em parceria com o departamento de Produto e de Estratégia. Ora, este departamento em particular tem a complicada missão de identificar as funcionalidades e os produtos que foram – ou vão – ser lançados pelos concorrentes e avaliar se faz ou não sentido replicar o modelo, tentando sempre melhorar o original.”.

Mas façamos uma espécie de #throwback.

Virgínia Coutinho lembra que “o Facebook é um perito em aquisições de concorrentes e empresas complementares. Duas das suas mais conhecidas compras são o Instagram (em 2012) e o Whatsapp (2014). Em 2010, tentou também adquirir o Foursquare. Não chegaram a nenhum acordo e alguns meses depois, voilá, integrou a principal funcionalidade desta rede de geolocalização: os check-ins.

Depois existem ainda os rumores históricos que garantem que Mark Zuckerberg passou anos a tentar comprar o Twitter e que, mais recentemente, tentou adquirir o Snapchat. Depois de ter visto a sua generosa oferta recusada, era previsível que o Facebook (empresa) copiasse algumas das principais funcionalidades do Snapchat para as suas redes sociais. E isso é perfeitamente normal, presumível e até legítimo”. As notícias mais recentes só vêm dar conta disto mesmo, como esta que confirma a integração que o Facebook se prepara para fazer de funcionalidades do Snapchat na sua aplicação, disponível para iOS e Android.

Um exemplo das histórias do Snapchat

Um exemplo das histórias do Snapchat

É de “guerra” que se trata e isso é muito fácil de explicar porque, diz a autora do livro “The Social Book: tudo o que precisa de saber sobre o Facebook”, “todas elas lutam pelo mesmo, ou seja, todas elas lutam e procuram encontrar formas de conseguir reter a atenção dos utilizadores por períodos de tempo cada vez maiores e garantir um lugar nos orçamentos dos anunciantes.”

Mas há alguém que saia a ganhar no meio de tudo isto? Claro que sim. Os utilizadores. Graças a este nível de competição, passam a poder contar com cada vez mais funcionalidades em várias plataformas.

Ivo Madaleno, consultor e formador na área das redes sociais, acredita que “desde que seja saudável, a competição é e será sempre vantajosa para os consumidores. Em termos de funcionalidades, tem algumas diferenças pouco significativas… acima de tudo o que faz a diferença é o alcance e massa crítica desde o dia um. Para a grande maioria dos utilizadores, o alcance desde o primeiro dia, ou seja o número de pessoas que vê as “stories”, é várias vezes superior ao alcance das histórias no Snapchat.”

Se é normal que os maiores aglutinem e “devorem” os mais pequenos, que foi, de certa forma, a forma como o Homem foi levando a vida até aqui, é também igualmente normal que as empresas consideradas concorrentes ou com produtos complementares sejam alvo da cobiça e do interesse dos “Donos Disto Tudo”.

Frequente é também o aparecimento de startups que têm um único fim: serem adquiridas pelas grandes empresas dos seus sectores.

A diretora de Marketing da Socialbakers acrescenta ainda que “muitas das vezes estas empresas são adquiridas para serem "mortas", isto é, a empresa compradora pode apenas ter o objetivo de ficar com a equipa, com os clientes, integrar uma única funcionalidade ou até mesmo impedir que os concorrentes possam comprar esta empresa. Quem não está disposto a vender a sua startup a um gigante como o Facebook, o Google ou outro que tal, saberá que mais dia, menos dia (regra geral, sempre mais cedo que tarde) tem o seu negócio condenado à extinção.” Na China, abre-se uma empresa e passado uma semana já existem 10, ou 100 concorrentes com produtos iguais, muitas das vezes até com nomes e logótipos parecidos. Sem dúvida que serão as empresas com melhor execução (marketing e gestão com papéis de destaque) que sairão vencedoras.

O ano em que já entrámos promete ser um ano de mudanças e de apostas fortes.

A realidade virtual e a realidade aumentada são já mais do que tendências, são caminhos a seguir e a ser seguidos, o que de resto já tem sido amplamente noticiado. Já no que às redes sociais diz respeito, procura assegurar-se que a disponibilização de novas funcionalidades ajude a manter, por períodos de tempo cada vez maiores, os utilizadores nas plataformas. A aposta quase geral destas nos formatos live mostra isso mesmo.

O Instagram Stories não tem sequer um ano de vida mas já ajudou, à boleia daquela que é a principal tendência das grandes plataformas de social media, o vídeo, a transformar (e muito) a face do Instagram.

O diretor de produto da plataforma, Vishal Shah, diz que “o Stories revolucionou a face da última época natalícia. Foi a primeira vez que pudemos ver realmente aquilo que as pessoas fazem quando estão em casa, com as suas famílias, durante o Natal, num nível de intimidade e partilha que normalmente não estamos habituados a ver no Instagram”.

Para Ivo Madaleno “não necessitamos de estar todos os dias a inventar a roda, apenas precisamos de perceber como a podemos usar de forma melhor, mais eficiente, até inventarmos uma ‘nova roda’ que acaba com a utilidade da primeira. Dito isto, as Stories, do ponto de vista de implementação, como tem sido hábito em praticamente tudo o que tem sido feito no Instagram, com todas as novas funcionalidades que vão sendo acrescentadas, estão a correr realmente muito bem (...) e o alcance das publicações é ‘absurdo’ só por estar no ecossistema Instagram/Facebook.”

Contra isto o Snapchat (ainda) não pode competir. Mas que não se pense que isso afeta o crescimento da empresa de Evan Spiegel, que um dia disse “não” a uma oferta de Mark Zuckerberg.

O problema que ainda dá muitas dores de cabeça a quem usa profissionalmente o Snapchat é a ausência de estatísticas e medições fiáveis e credíveis do desempenho e alcance das histórias, o que não permite aos anunciantes conhecerem dados efetivos e reais sobre o desempenho das campanhas que estão a pagar. Isto acontece porque o Snapchat não tem uma API (application program interface).

Há empresas a gastar fortunas em publicidade na rede do fantasminha, a contratar atores de Hollywood para fazer vídeos não menos cinematográficos que depois têm um alcance e uma visibilidade que não podem ser rigorosamente medidos e analisados ao pormenor. Este pequeno grande pormenor tem de aborrecer quem está a gastar dinheiro.

No entanto, isto não significa que o Snapchat possa estar com medo que os seus utilizadores saltem o muro (é preciso cuidado a falar de muros por estes dias) para o outro lado e passem todos para o Instagram.

Virgínia Coutinho diz mesmo que “a partir do momento em que um grupo de jovens começa a usar uma rede social com regularidade, será difícil de os convencer a utilizar uma outra. Já li inclusive vários artigos escritos por adolescentes, onde comparam o Instagram Stories ao Snapchat, e o Snapchat continua a ser o seu favorito, de longe. Por isso, mesmo que o Facebook tenha conseguido integrar as principais funcionalidades do Snapchat, como as Stories no Instagram e os filtros no Messenger, não significa que tenha conseguido atrair o público do Snapchat. ”

Contudo, e não será mentira nenhuma afirmá-lo, a “cópia” que o Instagram fez foi tão boa que não só aprimorou pormenores como lhe acrescentou vida própria e, quase instantaneamente, transformou o Instagram Stories num sucesso estrondoso. Para se ter uma noção da capacidade de alcance, estamos a falar de uma funcionalidade lançada em agosto e que, em pouco mais de cinco meses já tem tantos utilizadores ativos como a base total de utilizadores diários do Snapchat. 150 milhões de utilizadores diários a publicar vídeos de curta duração, sem limite em termos de quantidade, e que desaparecem ao fim de 24 horas.

Está também anunciada – para muito breve – a chegada da publicidade ao Instagram Stories.

O grande trunfo do Snapchat sempre foi o facto das imagens e mensagens serem efémeras, o que agrada muito a uma geração que tem algum receio da pegada digital que vai deixar e que considera este tipo de comunicação em tempo real mais natural e autêntica.

A conclusão a que se chega é que o Snapchat não tem nada a recear e que os utilizadores são os grandes beneficiados com a quantidade e variedade de ofertas que têm à sua disposição nas diversas plataformas existentes.