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Plano Nacional de Leitura: Livro de Valter Hugo Mãe “não tem carácter erótico ou pornográfico”

Comissão de especialistas do PNL recorda ainda que as obras recomendadas “não são de leitura obrigatória”, mas “sugestões para leitura autónoma em contexto de contrato de leitura estabelecido entre cada aluno e o professor”

Na sequência da reunião desta segunda-feira à tarde para reavaliar a adequabilidade do livro “O nosso reino”, de Valter Hugo Mãe, ao 3º ciclo do ensino básico, a comissão de peritos do Plano Nacional de Leitura (PNL) esclarece, em comunicado, que “a referida obra não tem qualquer caráter erótico ou pornográfico” e que alguns excertos “foram descontextualizados em relação ao conjunto da narrativa”.

Em causa está o primeiro romance do escritor português, que retrata a época do final do Estado Novo pelos olhos de uma criança de oito anos, numa época de mudança e libertação do jugo da ditadura mas, ao mesmo tempo, de permanência de algumas tradições e valores do Estado Novo.

A obra causou polémica no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, por ter sido indicada para alunos do 8º ano de escolaridade - e por incluir duas páginas (81 e 145) de linguagem sexual mais explícita -, como noticiou o Expresso este sábado. Alguns encarregados de educação pressionaram no sentido do livro ser retirado das listas do PNL e da escola, pelo facto de essas duas páginas incluírem conteúdo sexual que consideram “violento” e “inapropriado” para alunos do 3º ciclo.

A consequência mais imediata foi a retirada da obra das listas de livros para leitura autónoma no 3º ciclo: em vez disso, a obra passará a estar incluída no ensino secundário. Mas a comissão de especialistas recorda que “as obras recomendadas pelo Plano Nacional de Leitura não são de leitura obrigatória”, constituindo apenas “sugestões para leitura autónoma em contexto de contrato de leitura estabelecido entre cada aluno e o professor”.

Ao Expresso, a escola justificou a escolha com o facto de Valter Hugo Mãe ser “um autor reconhecido pela sua obra” e “escolhido por especialistas” no âmbito do PNL. “O departamento de Português e Latim não percebe esta confusão”, declarou este sábado a professora Rosário Andorinha, coordenadora do departamento. “Qualquer dia temos também de defender a escolha de uma obra do Nobel José Saramago!” A ideia, segundo explica, é abordar com os alunos questões de língua, memória, narração e “prepará-los” para autores como Gil Vicente e José Saramago, em anos posteriores.

Também o poeta brasileiro Ferreira Gullar, no prefácio da 7ª edição deste romance, sublinhou “a escrita altamente sofisticada [deste livro], como um poema em prosa”.