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#Relações. Como a tecnologia matou o amor

TINDER. A 'app' de encontros mais famosa do mundo veio revolucionar a forma como nos conhecemos

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Nunca como hoje tivemos tantas opções para encontrar alguém. Então, porque é que isso é cada vez mais difícil?

Numa das cenas do filme “Uma Mente Brilhante”, o matemático John Nash (interpretado por Russell Crowe) está no bar com quatro colegas quando entram cinco jovens mulheres. O equilíbrio é perfeito. O problema? Todos querem a mesma rapariga, uma cativante loira de olhos verdes. Os amigos de Nash citam Adam Smith, o pai da Economia moderna. “Numa competição, as ambições individuais servem o bem comum.” Nash hesita, não parece convencido. “O Adam Smith tem de ser revisto. Se formos todos atrás da loura, vamos bloquear-nos, nenhum de nós vai conseguir conquistá-la. Depois, iremos ter com as amigas e elas irão virar-nos as costas, porque ninguém gosta de ser uma segunda opção.” O matemático propõe outra abordagem. “Mas e se ninguém se fizer à loira? Não nos atropelamos e não insultamos as outras mulheres. É a única forma de ganharmos. É a única forma de termos todos sexo.” A teoria de Adam Smith estava incompleta. “O melhor resultado para o grupo acontece quando cada parte faz o que é melhor para si. E para o grupo”, explica.

O “Equilíbrio de Nash” foi formulado nos anos 50 do século passado e valeu-lhe um Nobel da Economia, mas seria necessário rever a teoria para poder aplicá-la às relações de hoje. Muito por culpa das redes sociais, nunca tivemos tantas oportunidades para sermos felizes: aquela mulher que sempre admirámos está à distância de uma mensagem no Facebook, o amor pode nascer de um 'match' no Tinder, o engate invadiu até o Linkedin, uma rede de contactos profissionais... As possibilidades multiplicaram-se como nunca e, contudo, basta falar com pessoas solteiras para perceber que não ficou mais fácil encontrar quem se procura.

Perante tanta abundância de escolhas, bloqueamos. Tornámo-nos mais exigentes, mais indecisos, mais frustrados, sempre à procura de algo melhor. E também mais impacientes: despachamos alguém mal surge o primeiro grão na engrenagem, com a mesma facilidade com que fechamos uma janela no Facebook e abrimos outra. “Olá, o que fazes esta noite?” Alguns, mais audazes, talvez vistam a pele do Henry Chinaski das “Mulheres” de Bukowski: “Bora foder?”

O psicólogo Barry Schwartz chamou-lhe “o paradoxo da escolha”: essa liberdade não nos faz mais livres ou mais felizes, antes aumenta a nossa insatisfação. Sempre ávidos de encontrar algo melhor, tornamo-nos peritos na incapacidade de assumir as nossas decisões. De dar passos em frente. De arriscar. Quase precisamos de uma folha Excel para nos lembrarmos dos dados de todas as pessoas que conhecemos no Tinder ou no Facebook, mas raras vezes procuramos conhecer verdadeiramente alguém.

Este paradoxo não é apenas no amor. Como explicar que, numa era em que o sexo é tão acessível como um hambúrguer do McDonald's, os jovens adultos o pratiquem menos do que as gerações que os antecederam, como apontam vários estudos? Andamos tão entretidos a acumular 'matches' no Tinder, ou a saltar de janela em janela no Facebook, ou a trocar fotos e vídeos com bolinha vermelha no WhatsApp, que nos esquecemos que há um mundo lá fora. Temos tantas oportunidades para sermos felizes, por uma noite ou por uma vida, e boicotamo-nos. Não aprendemos nada com Nash.