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“Os pais são os grandes ativistas dos transexuais”

António Pedro fErreira

Entrevista a Margarida Faria, presidente da AMPLOS

A nova lei da Identidade de Género, como o Expresso noticiou a 30 de dezembro, traz várias mudanças para as crianças e jovens transexuais. Além de baixar a idade legal, dos 18 para os 16 anos, para mudar de sexo e nome no registo civil, vai também permitir que nas escolas as crianças sejam tratadas pelo género com que se reconhecem. O documento, apresentado esta semana pelo Governo, vai ainda acabar com a obrigatoriedade de apresentar um relatório clínico para a alteração do registo civil. As associações de ativistas saúdam estas alterações.

Quando tomaram consciência dos problemas das crianças transexuais?
Num encontro em Santiago do Chile, em 2009, conhecemos pela primeira vez pais de crianças transexuais. Esta é uma realidade concreta. Com as pessoas trans que nos procuram percebemos que, desde muito pequenas, tinham consciência da sua identidade de género, e que essa não correspondia ao sexo de nascença. Quando apareceram as primeiras famílias de crianças transexuais, para nós foi natural. Os pais percebem muito bem qual é o sofrimento destas crianças. São eles que as acompanham e sofrem com o seu sofrimento. Por isso é que os pais são os grandes apoiantes e ativistas desta causa. Não há como os pais para entenderem e afirmarem a identidade dos seus filhos.

É fundamental serem tratadas na escola pelo nome com que se identificam?
Muitas vezes, as crianças fazem a transição social na escola, mesmo sem comunicarem aos pais, porque para elas é importantíssimo. É o reconhecimento de quem são e estarem sempre a ser tratados em desconformidade com a sua própria identidade leva a situações complicadas, de baixa autoestima, de vergonha, de culpabilidade. Isso não é favorável ao desenvolvimento da pessoa e do seu carácter.

Acha que as escolas estão preparadas para esta realidade?
As crianças sofrem represálias. Fazem a transição social, muitas com o apoio dos pais, que falam com as escolas e com os conselhos diretivos. O que está a acontecer é que depende do bom senso das direções das escolas, de serem mais ou menos disponíveis para a diferença. Com uma indicação vinda do Ministério da Educação vai ser diferente. Até aqui, havia um vazio. Não vai haver nem menos nem mais crianças transexuais. Há um documento legal para enquadrar as situações nas escolas e apoiar estas crianças. As indicações burocráticas vão ajudar imenso estas crianças, até o facto de estar a ser falado na comunicação social ajuda. Vai torná-las, e às suas famílias, mais felizes. É o reconhecimento de que existem. Não há nada pior do que a invisibilidade.

Ainda é um choque para os pais a homossexualidade e a transexualidade dos filhos?
São muitos anos de preconceito, culturalmente reforçado por uma sociedade que é profundamente heterossexual e machista. E isso tem a ver com estereótipos de género e com o receio de que os filhos não correspondam às expectativas sociais, mais do que com o receio de que sejam discriminados. E isso é das coisas que a mim mais me custa entender. Uma psicóloga norte-americana, que estuda as famílias dos jovens transexuais nos EUA, disse-me que lá a maior preocupação dos pais é com a segurança dos filhos. Os pais chegam à AMPLOS, muitas vezes, mais preocupados com eles próprios e com o que as pessoas vão pensar, como vão dizer aos outros. Deviam estar ao lado dos filhos e enfrentar o preconceito, protegendo-os.

Ainda são comuns casos de rejeição familiar?
Sim. Recolhemos denúncias de pessoas que são vítimas de violência familiar. Há jovens que são excluídos do seio familiar por causa da sua homossexualidade. Mas claro que não é pela sua homossexualidade, é pela própria formação dos pais e de um conjunto de situações em que eles estão integrados, de infelicidade e de preconceito. Ainda existe algum consenso social, não assumido, em certos meios, de que os pais têm uma justificação para agirem como agem. Há cada vez menos situações drásticas, mas passarem por alguma desorientação e tristeza, isso ainda acontece.

Perfil

Margarida Faria é socióloga e investigadora na área do desenvolvimento e da alimentação e, desde 2009, dedica-se também à causa LGBTI. Juntamente com o marido, fundou a AMPLOS (Associação de Mães e Pais pela Liberdade de Orientação Sexual e Identidade de Género) depois de descobrir a homossexualidade de uma das filhas. A associação centra-se na luta contra a discriminação e tem alargado o seu trabalho ao meio escolar e comunitário. É também vice-presidente da FDS — Familias por la Diversidad Sexual —, uma ONG que junta associações semelhantes à AMPLOS em 22 países.