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“Graças a Deus sou tão sereno”

PRELATURA. O fundador do Opus Dei foi santificado e o novo prelado, Fernando Ocáriz, será o primeiro líder da Obra a não ter trabalhado diretamente com Josemaria Escrivá (na foto) Paolo Cocco/REUTERS

Paolo Cocco/REUTERS

Uma medalha de Maria e uma ponte tentam aproximar duas formas distintas de viver a Igreja. O Papa nomeou o novo líder do Opus Dei e foi assim, suavemente, que Francisco e Fernando começaram a relação que vai confrontar o Pontífice e o responsável pela Obra

Um homem que aceita descrever o seu sentimento de orfandade e a solidão de quem dedicou a vida à religião. Que partilha o que sentiu na intimidade quando assistiu às últimas horas de vida do seu mestre. Foi um homem assim, espantosamente tranquilo, o escolhido para liderar um dos mais controversos movimentos da Igreja Católica.

Monsenhor Fernando Ocáriz é, desde o início desta semana, o novo prelado do Opus Dei. Alguém que prefere falar em pontes, seguindo a linguagem do Papa Francisco, e sublinhar o que pode unir alguns dos fiéis mais conservadores da Igreja católica a um dos seus pontífices mais irreverentes.

“Agora, percebendo que ele nos deixou, sinto-me órfão e triste. Mas, logicamente, também sereno, porque, graças a Deus, a fé que nos deu faz-nos perceber que temos um intercessor no Paraíso. Alguém que vai cuidar de nós, ainda mais do que quando estava nessa terra, e que já era muito.” O início do texto de Fernando Ocáriz reflete o pensamento do sacerdote no momento em que teve de enfrentar a morte de Javier Echevarría, seu antecessor à frente da Opus Dei. Pela mão, leva o leitor a enfrentar a contradição que atravessa todos os católicos, a mistura de sentimentos quando se vê morrer alguém amado: a tristeza da partida e a crença de que assim poderá encontrar Deus.

LÍDER Fernado Ocáriz é o novo responsável pela Obra

LÍDER Fernado Ocáriz é o novo responsável pela Obra

Andreas Solaro/AFP

Na segunda-feira, o congresso eletivo da prelatura (formado por sacerdotes e laicos apenas do sexo masculino) reuniu-se em Roma e a escolha de Fernando Ocáriz terá sido rápida. No final da tarde do mesmo dia, o Papa aceitou a sua nomeação. E a reação do novo prelado foi tranquila, sublinhando que Francisco tinha “agido com grande afeição”. E revelando também que o Pontífice lhe tinha enviado uma prenda, “uma bonita medalha da Madonna”.

As palavras do novo prelado procuraram marcar a necessidade de aproximação entre duas formas distintas de vivenciar a Igreja católica. Recuperando a expressão de Francisco de que é necessário construir pontes, Ocáriz lembrou que “pode haver amizade mesmo quando os amigos têm ideias diferentes”. Disse ainda aos jornalistas que se sentia inadequado para suceder ao fundador da Opus Dei, Josemaria Escrivá, e aos seus seguidores, Alvaro del Portillo e Javier Echevarría, falecido a 12 de dezembro.

Número dois da Opus Dei — Obra de Deus, em latim — desde 2014, Ocáriz sobe agora à liderança da Obra, dizendo estar calmo perante o desafio. “Graças a Deus eu sou tão sereno, mesmo quando não devia estar!”, desabafou depois de assumir um cargo do qual só será libertado pela morte.

O seu plano para a Obra foi anunciado na sequência da sua nomeação e é igualmente simples: procurar o bem da pessoa, o que, segundo Ocáriz, mais não será do que “o encontro com Jesus Cristo”. Lembrou a necessidade de combater a falta de ideais e de esperança, a necessidade de dar apoio pastoral às famílias, exigências já recordadas também pelo Papa Francisco.

ESCRIVÁ. O fundador continua a ser a principal referência para os fiéis do Opus Dei

ESCRIVÁ. O fundador continua a ser a principal referência para os fiéis do Opus Dei

Paolo Cocco/REUTERS

Fernando Ocáriz nasceu em Paris, há 72 anos, o filho mais novo de um casal de espanhóis fugido da Guerra Civil, que no total teve oito crianças. Licenciado em Teologia e em Ciências Físicas, foi como estudante de Teologia que conviveu com o fundador da Obra, Josemaria Escrivá, na década de 60, em Roma. Em 1970 dirigiu-se a Navarra, para concluir o seu doutoramento e, em 1971, foi ordenado sacerdote. É também consultor de vários organismos da Cúria: o Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização, a Congregação para o Clero e a Congregação para a Doutrina da Fé.

Durante 22 anos Ocáriz acompanhou o anterior prelado, Javier Echevarría, nas suas visitas pastorais a mais de 70 países e é por isso, considerado um homem de continuidade. Mas, por outro lado, é a primeira vez que o novo prelado não trabalhou diretamente com o fundador da Obra.

SORRISO Fernado Ocáriz é fiel do Santuário de Fátima

SORRISO Fernado Ocáriz é fiel do Santuário de Fátima

Andreas Solaro/AFP

O novo prelado conhece bem Portugal, tendo, segundo a Agência Ecclesia, visitado várias vezes o santuário de Fátima e até já havia dito pretender regressar este ano. Num comunicado enviado à Ecclesia, o gabinete de imprensa da Prelatura do Opus Dei nacional, presente no país desde 1946, informou que o monsenhor Fernando Ocáriz, até agora vigário auxiliar, passa a ser o terceiro sucessor de Josemaria Escrivá.

O Opus Dei foi fundado em 1928 e assume-se como um movimento que visa sensibilizar os católicos para a importância da vida religiosa no “dia a dia, na família e no trabalho”, com base, ainda segundo a Agência Ecclesia, “numa proposta formativa, teológica, espiritual e apostólica, que passa por retiros, aulas de formação, círculos sobre temas da vida cristã e acompanhamento espiritual pessoal”. Estima-se que, no mundo, mais de 92.600 pessoas pertençam à Obra, das quais, 2.083 são sacerdotes e 57% mulheres.

Como prelatura, a Opus Dei está estruturada de modo hierárquico próprio, é liderada pelo prelado e conta com sacerdotes e diáconos que com ele colaboram. A sua atividade é considerada complementar à das dioceses e, para alguns fiéis, o compromisso com a Obra passa pela decisão de assumir o celibato apostólico.