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Esta gripe 
é mais letal, 
com ou sem frio

Vírus atual provoca sintomas severos e mata mais. Dezembro teve a maior mortalidade numa década e o ritmo não abrandou. Evitar espaços cheios é o melhor remédio

Vera Lúcia Arreigoso

Vera Lúcia Arreigoso

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Jornalista

Carlos Esteves

Carlos Esteves

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É da vida: todos os anos temos inverno e, como tal, faz frio e há gripe. A diferença este ano é que o vírus gripal em circulação é mais perigoso. Tem características genéticas que lhe permitem provocar sintomas mais graves nas pessoas que infeta e, por isso, maior capacidade de matar. Quem é jovem ou está bem de saúde consegue fazer-lhe frente; quem tem uma saúde débil ou idade avançada pode não resistir, mesmo tendo sido vacinado. O frio só é uma arma quando a defesa não está preparada.

Os números mais recentes disponibilizados pelas entidades nacionais e internacionais confirmam o que os virologistas já sabiam: o subtipo A(H3N2) provoca gripes a sério. Da última vez que esteve por cá, no inverno de 2014/15, fez daquele janeiro o mais mortífero em dez anos. Regressou agora e com uma intensidade ainda maior. O passado mês de dezembro é também já o que mais mortes soma na década e logo na primeira semana de janeiro foram ultrapassados os, até agora, recordes de 2015.

Não se sabe quantas vítimas mortais estavam vacinadas contra a gripe, mas sabe-se que neste inverno em que a mortalidade está muito elevada, também há uma das mais expressivas imunizações da população contra o vírus. Portugal comprou 1,2 milhões de doses e apenas 20 mil estão por administrar, gratuitamente, nas unidades públicas de saúde. Na rede privada, as farmácias adquiriram 100 mil unidades para venda.

infografia carlos esteves

A explicação para muitas mortes, apesar da vacinação elevada, pode estar no facto de os óbitos serem sobretudo por outros problemas — pneumonia, por exemplo, ou por uma alteração detetada no agente infeccioso. Os peritos da Organização Mundial da Saúde e do Centro Europeu para a Prevenção e Controlo das Doenças afirmam que o vírus sofreu uma mutação. “Cerca de dois terços do A(H3N2) caracterizados pertencem a uma nova subclasse genética”, lê-se na última nota informativa.

O novo subgrupo é confirmado pela responsável pelo Laboratório Nacional de Referência para o Vírus da Gripe e Outros Vírus Respiratórios do Instituto Ricardo Jorge (INSA), Raquel Guiomar. “Identificámos mutações que lhe conferem algumas diferenças mas ainda semelhante à estirpe vacinal”, explica a virologista. Os cientistas também sabem que o A(H3N2), por ser forte, resiste mais às vacinas — que no geral das gripes são mais eficazes a evitar que os sintomas se compliquem do que a impedir que se fique doente.

E a temperatura parece que ‘nem aqueceu nem arrefeceu’ o ataque do vírus. Os dois períodos com o maior número de mortos até agora, dezembro — especialmente nos últimos dias — e a primeira semana do ano, foram precisamente os mesmos em que as temperaturas variaram para baixo e para cima, respetivamente, perante o esperado. “De acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), no mês de dezembro o valor médio da temperatura mínima do ar foi de 5,55o C, correspondendo a uma anomalia de -0,5o C relativamente ao normal” e em janeiro, “na semana 1 de 2017, foi de 5,4o C, valor superior ao normal para o mês de janeiro”, é referido no mais recente boletim de vigilância da gripe do INSA.

Os números internacionais mostram que mesmo em países com temperaturas muito reduzidas não se morreu mais por isso. Aliás, Portugal tem valores mais expressivos sobre o número de mortes e tempo mais ameno comparativamente com o resto da Europa. França e Itália são outros dos exemplos próximos da realidade lusitana. Também em todos estes países a atividade gripal tem sido moderada. Só a Finlândia teve já uma circulação intensa do vírus, ainda assim sem uma expressão na mortalidade semelhante à registada no Sul, por exemplo. Segundo os especialistas, o problema não está na temperatura, mas na resposta. E Portugal não acerta.

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“O frio permite que o vírus sobreviva mais tempo no ambiente (na maçaneta de uma porta, num interruptor ou dentro do elevador) e o tempo seco favorece a dispersão das partículas virais”, explica a virologista Raquel Guiomar. Mas o que mata é a fragilidade do hospedeiro, seja pela idade avançada, pelas doenças que tem ou pela incapacidade em manter-se adequadamente quente.

“Em Portugal temos muitos doentes com muitas doenças em simultâneo e, por isso, a mortalidade é maior do que entre os nórdicos, que vivem melhor; por exemplo, não têm casas húmidas”, salienta Venceslau Hespanhol, presidente da Sociedade Portuguesa de Pneumologia. O especialista não tem dúvidas de que “o que faz viver muito e melhor não é a medicina, é o bem-estar geral e os idosos de agora são as pessoas que viveram em épocas muito duras e que hoje têm múltiplas doenças; temos taxas elevadas em tudo”.

Presidente do Colégio de Medicina Interna da Ordem dos Médicos, Armando de Carvalho, dá outro exemplo do que mudou e faz aumentar a mortalidade. “Antigamente a infeção viral tratava-se em casa com uma boa hidratação e antipiréticos e hoje as pessoas estão muito envelhecidas e debilitadas e precisam de internamento.” E descreve a realidade nos hospitais de Coimbra, onde trabalha: “Nos últimos 20 anos, a média de idade dos doentes aumentou 10 a 15 anos, para mais de 75 anos. Este inverno é semelhante ao de há dois anos, com muitos internamentos, sobretudo por pneumonias. Temos 138 camas e há poucos dias tínhamos mais de 40 doentes em camas fora do serviço, quando no ano passado tivemos apenas 20.”

A literacia em Saúde também faz a diferença: “É fundamental porque permite que as pessoas saibam o que lhes faz bem ou mal e em Portugal não existe”, garante Venceslau Hespanhol. A gripe está aí e o ideal é que se mantenha afastada.

Os especialistas do INSA ainda não sabem se o pico da epidemia já passou, mas a atividade do vírus tem sido constante e poderá estar para ficar ainda mais algumas semanas. Assim sendo, e sobretudo quem não se vacinou, deve minimizar-se o risco de contágio, evitando “o contacto com pessoas doentes, golpes de temperatura, ter uma alimentação adequada — e a vitamina C não diminui o risco de ter gripe —, seguir a regra das crianças de ficar em casa quando há febre e não acorrer à Urgência por qualquer motivo, porque é ali que há mais vírus em circulação”, aconselha Armando de Carvalho.

A gripe é mais forte este ano, mas não está sozinha. Vários outros vírus respiratórios estão no ambiente e têm sido eles os culpados em diversas situações. “Os muitos casos de tosse que demora a passar” são um exemplo. O médico Venceslau Hespanhol explica ainda como se distinguem estas infeções respiratórias de um verdadeiro episódio gripal: “A gripe é aquela doença que temos e de que daí a cinco anos ainda nos lembramos”.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 21 de janeiro de 2017