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Sem-abrigo abrem polémica na Madeira

Uma reportagem sobre as pessoas que vivem nas ruas da baixa do Funchal levou 16 associações do Porto a assinar um comunicado de repúdio e a fazer uma participação à ERC. O Diário de Notícias da Madeira, o jornal que publicou o artigo, não comenta o caso. A posição oficial do matutino será conhecida na edição deste domingo

Marta Caires

Jornalista

“Sem-abrigo mancham a cidade turística” é o título da reportagem do Diário de Notícias da Madeira que está a agitar as redes sociais e já levou a um comunicado de repúdio assinado por 16 associações e a uma participação à ERC. O jornal não comenta o caso por enquanto e promete uma tomada de posição pública nas páginas da edição deste domingo.

A reportagem sobre as pessoas que vivem e dormem nas ruas da baixa do Funchal fez a manchete do matutino madeirense a 22 de janeiro e demorou pouco até que a polémica se instalasse nas redes sociais, com fortes críticas ao título, às fotografias que mostram caras, ao facto de não se ter falado com nenhuma das pessoas visadas e à excessiva preocupação com o cartaz turístico. Daí até ao comunicado conjunto das 16 associações do Porto foi uma questão de dias.

O repúdio foi tornado público esta quinta-feira à noite na página do Facebook da associação SOS Racismo, que é também uma das signatárias do texto. O comunicado lamenta que as pessoas em situação de sem-abrigo sejam tratadas no artigo como “uma vergonha” e “um mau cartaz” para o Funchal. “São ainda levantadas, na notícia, questões que atentam contra a dignidade das pessoas visadas, as quais parecem não ter sido ouvidas”. Os subscritores insurgem-se contra “o caráter profundamente discriminatório”, pois o foco não é vulnerabilidade de quem vive na rua, “mas o sentimento de desconforto que parecem causar por existirem e serem visíveis”.

O mesmo texto, assinado por associações como os Precários Inflexíveis, a Associação Apuro, a Street Store do Porto, a Street Store de Braga, o Projeto Identidade, as Panteras Rosa ou a Saber Compreender, lamenta ainda a forma como são caracterizadas as pessoas que vivem na rua na reportagem, onde “aparecem como mendigas, dependentes de álcool e usando estratagemas rebuscados para angariar dinheiro”. Um desses “estratagemas” é o recurso a cães e gatos.

Segundo Nuno Silva, do núcleo do Porto da SOS Racismo, a iniciativa partiu de várias associações que apoiam pessoas que vivem nas ruas do Porto, que desenvolvem projetos junto dos sem-abrigo e que ficaram indignadas com a reportagem. “É um discurso inadmissível”,diz, e por assim entenderem, depois de uma reunião, ficou decidido fazer um comunicado, participar à Entidade Reguladora, dando conhecimento ao Sindicato dos Jornalistas e à Comissão da Carteira. As associações também solicitaram ao Diário de Notícias da Madeira que tome “uma posição pública sobre a matéria”.

“A posição pública do Diário de Notícias da Madeira será tomada na edição deste domingo”, conforme garante Ricardo Miguel Oliveira, diretor do jornal. O assunto está a ser ponderado de todos os ângulos, em todas as vertentes, incluindo do ponto de vista jurídico. E para já é tudo quanto a direção do Diário de Notícias tem a dizer, mais detalhes só na edição de domingo. Ou seja uma semana após a publicação da reportagem e depois de muita discussão nas redes sociais.