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Miguel Vieira, o primeiro português com roupa para 'ragazzo' em Milão

andré de atayde

A 15 de janeiro de 2017 Miguel Vieira tornou-se o primeiro designer português com marca própria a desfilar no calendário oficial da Semana da Moda para Homem de Milão. Nesse dia fez-se história 'Made in Portugal'

André de Atayde

André de Atayde

texto, vídeo e fotos, em Milão

Jornalista

Em 1966 a FIAT revolucionou o conceito de espaço com a apresentação do FIAT 124 no Salão Automóvel de Genebra, mais tarde considerado Carro do Ano e apresentado em três versões: familiar, Spider e Coupé. No mesmo ano nascia Miguel Vieira em São João da Madeira e, embora não o soubesse, o seu destino havia de estar traçado em Itália.

Se lhe tivessem dito que ia ser um dos designers de moda portugueses mais importantes da atualidade iria, certamente, achar exagerado. Se a essa informação acrescentassem que no dia 15 de janeiro de 2017 seria o primeiro criador português com marca própria a apresentar uma coleção na Semana de Moda para Homem em Milão, diria que era uma brincadeira.

Se às duas afirmações anteriores, e evidentes, lhe tivessem dito que tudo seria feito com pouco trabalho e sem espírito de sacrifício, ter-se-ia rebolado a rir. Mas se lhe dissessem que a apresentação da coleção outono-inverno 2017/2018 naquela cidade italiana marcaria um ponto de viragem na sua forma de encarar o mundo, o dele e o dos outros, responderia prontamente que sim.

"Estive quinze anos à espera deste dia", disse no final do desfile. Década e meia a alimentar uma vontade e um sonho bem visíveis no sorriso nervoso de quem tinha acabado de ver o seu trabalho com seis meses de maturação apresentado em 10 minutos de desfile, essa pequena parcela de uma hora inteira que define a "vida ou morte" de um designer de moda. Aqui houve vida e aclamação. E o começo de uma nova etapa na vida de Miguel Vieira. "Este momento era muito especial. Costumo ficar sempre nervoso, mas hoje estava ainda mais", confessou.

Andemos para trás na linha do tempo. Falta meia hora para o desfile e nos bastidores a confusão habitual. Experimentar roupas, acertar cabelos e maquilhagem. Cose-se uma linha, tira-se um vinco ali e outro acolá. Acerta-se o passo, decide-se quem entra primeiro e quem segue na cauda do desfile. Um ensaio de trinta minutos para preparar uma eternidade. Num instante é hora de começar.

Desfila-se em tons de cinza, preto, azul marinho, vermelho e branco 'marshmallow', que lembra a areia de uma praia paradisíaca. Há diversos padrões em mistura e sobreposição de tecidos, pincelados 'aqui e ali' de outra cor. Veste-se lã, caxemira e alpaca. Quem vê sente-se aconchegado — faz muito frio em Milão por esta altura.

As coleções trazem conceitos associados. A que Miguel Vieira apresentou pretende ser uma reflexão sobre a forma como o outro olha para nós. 'Reflexos' parte da ideia de jogo de espelhos e da perceção imagética do 'nós' face aos outros. "As roupas que usamos são o reflexo de nós mesmos ou o reflexo de como os outros nos veem nelas", é a pergunta que deixa no ar.

andré de atayde

"Dei um 'refresh' a esta coleção. Principalmente porque vi 312 modelos no 'casting' e quis misturar estilos completamente diferentes. Uns com tatuagens, outros com rastas ou 'piercings', que fossem mais contemporâneos e atuais. No fundo mostrar que a coleção, mais clássica, pode ser vestida por todo o tipo de homem", explica.

O sorriso alarga-se no rosto de Miguel Vieira. De volta aos bastidores, o designer recebe amigos, conhecidos e convidados. Aquele sentimento de dever cumprido parece correr-lhe nas veias. Está cansado e feliz. Aceita elogios retribuindo com abraços. Nota-se bem que este foi um momento importante na sua vida. "Estou muito feliz, por mim e pelo meu país", diria mais tarde. Ele que tem 'Made in Portugal' tatuado no corpo. Não porque se esqueça de onde nasceu, mas para que outros se lembrem que foi por cá que tudo começou.

O Expresso viajou a convite do Portugal Fashion