Siga-nos

Perfil

Expresso

Sociedade

O liceu resistente com mais de 100 anos que luta para não ver o fim

Lucília Monteiro

A Escola Secundária Alexandre Herculano tem uma longa história de resistência e luta para não ver o fim. Esta manhã foi fechada porque chovia lá dentro, decisão tomada pela direção do estabelecimento do Porto onde estudaram, entre outros, Manuel Alegre e Rui Reininho. Ambos contaram as principais memórias que guardam do antigo liceu, numa reportagem publicada no Expresso Diário em agosto do ano passado e que agora recuperamos

A Escola Secundária Alexandre Herculano, no Porto, foi em tempos um dos maiores liceus da cidade e um bastião da resistência contra a repressão do Estado Novo. Nos presentes dias, a resiliência manifesta-se sobretudo contra as condições precárias que a escola secundária enfrenta.

Este é um outono rigoroso que perdura há vários anos e teima em não dar tréguas a uma instituição de ensino com mais de 100 anos de história. Estamos em agosto, mas o verão e as notícias refrescantes não chegam. Ao longo dos anos, a Alexandre Herculano, situada na freguesia do Bonfim, tem sido vetada ao esquecimento pelo poder central.

À boa maneira portuense, o antigo liceu faz das tripas coração e continua de portas abertas para mais de 700 alunos. Noutros tempos, pelos vastos corredores chegaram a passar 3 ou 4 mil jovens, contou Manuel José Lima, atual diretor do estabelecimento de ensino.

Os problemas estruturais passam pela questão das coberturas, a parte informática, as infiltrações, as más condições dos espaços, a desatualização dos recursos pedagógicos e até a praga de ratos.

Lucília Monteiro

“Os alunos e os pais gostam da escola e gostam dos professores, mas queixam-se do desconforto, do frio agudo, da falta de recursos pedagógicos e as condições das salas são francamente más”, explica o diretor, enquanto fez uma visita guiada ao Expresso pela escola.

Nos dias de chuva, tenta-se conter as infiltrações de água com baldes. O ginásio não pode frequentemente ser utilizado e um dos laboratórios está encerrado por questões de segurança.

O antigo liceu é a única escola pública do Porto que possui uma piscina. Durante algum tempo esteve desativada, mas foi recuperada quando a escola celebrou o seu centenário.

Lucília Monteiro

A escola secundária conta um espaço museológico de história natural e outro de Física. Distingue-se também por receber alunos surdos e pela existência de uma unidade para jovens com deficiências profundas. A inclusão social é, aliás, um dos principais elementos da Alexandre Herculano.

O estabelecimento acolhe alunos dos mais variados contextos socioeconómicos, fruto da sua localização na parte Oriental da cidade. “Temos casos de alunos institucionalizados. Para muitos deles, a escola é uma segunda oportunidade de vida”, frisou Manuel José Lima.
“Há muitos miúdos que a única refeição decente que fazem é aqui. Temos 96 reforços alimentares”, acrescentou o diretor, que recorda o caso de um aluno que todos os dias levava um tupperware para a escola e a funcionária da cantina guardava-lhe sopa para ele levar para casa. “Dava para ele e para a família”, sublinhou.

Lucília Monteiro

Um “não” lacónico à revitalização da escola

Em 2009, foi aprovado um projeto para a requalificação, que significava um investimento de 15 milhões para o Estado. Dois anos mais tarde, o edifício é classificado como “monumento de interesse público” e o Governo estipula que deve “ser objeto de especial proteção”.

Nesse mesmo ano, Nuno Crato, à data Ministro da Educação, travou o processo. Enquanto isso, outros estabelecimentos de ensino da cidade, como a Escola Secundária Rodrigues de Freitas, foram intervencionadas ao abrigo do programa de modernização Parque Escolar.

Lucília Monteiro

Ao diretor da escola nunca foi dada uma explicação e foi informado da decisão através da comunicação social. “Questionei [o ministro] sobre a requalificação. Respondeu dizendo que não estava prevista a realização de obras e não nos deu nenhum tipo de informação sobre a data provável para uma futura intervenção. Foi um ‘não’ muito lacónico”, descreveu Manuel José Lima.

A mobilização da cidade

Recentemente, no Porto, gerou-se uma enorme mobilização para defender a escola e devolver-lhe a dignidade. Exemplo disso é o movimento cívico “Não deixamos cair o Alexandre!”, dinamizado pelo PS Porto e com o deputado socialista Tiago Barbosa Ribeiro a ser uma das vozes mais ativas.

O movimento resultou na criação de uma petição online, que conta com quase 3000 mil assinaturas. Recentemente, a 15 de julho, foi também apresentado um projeto de resolução na Assembleia da República por parte do Partido Socialista.

Na opinião de Tiago Barbosa Ribeiro, a situação é “absolutamente intolerável” e exige o empenho de todos os poderes públicos. “Pensar o Porto sem o Alexandre não seria, certamente, a mesma coisa”, acrescenta o deputado.

“Nas conversas que tive com o Ministério da Educação tenho sentido uma enorme vontade de resolver o problema. Ainda não há nada público, mas têm existido essas conversas e a disponibilidade é total”, destacou Tiago Barbosa Ribeiro.

Lucília Monteiro

Também o PCP e o Bloco de Esquerda já apresentaram projetos de resolução para pôr fim à agonia da escola. Em conversa telefónica, o deputado do BE, José Soeiro, garantiu que o partido já interpelou o Ministério da Educação.

O deputado bloquista reitera o “papel muito importante” do antigo liceu. “Acolhe alunos de uma diversidade social muito grande e é uma escola com uma história fundamental no movimento estudantil do Porto”, destacou José Soeiro.

As antigas memórias de rebeldia e resistência

O edifício de fachada imponente foi edificado em 1906 e projetado pelo arquiteto Marques da Silva. Por aquelas salas de aulas passaram várias personalidades, como Manuel Alegre, Rui Vilar, Álvaro Siza Vieira, Belmiro de Azevedo, Manuel Sobrinho Simões, Rui Reininho, Miguel Guedes, Pedro Abrunhosa, entre muitos outros.

Manuel Alegre entrou para o Liceu Alexandre Herculano em 1950, e lembra o “ambiente carregado e cinzento”, porque, como explicou, “o salazarismo era isso”.

Lucília Monteiro

“Recordo os bons professores que me ajudaram muito na minha adolescência literária. Deram-me a conhecer poetas. Lembro-me também dos colegas, nomeadamente o José Augusto Seabra e o José Miguel Leal da Silva, com quem fundei o jornal escolar ‘Prelúdio’”, contou o histórico socialista.

Manuel Alegre era bom aluno a Português, Francês e História, mas exalta sobretudo as provas de natação, onde chegou a sagrar-se campeão nacional de iniciados, e os jogos de futebol com os amigos. “Eu era bom na bola”, garantiu.

Na memória guarda ainda o momento em que o amigo e poeta José Augusto Seabra, então com 17 anos, foi preso e torturado a chicote por motivos políticos.

Diferente foi o percurso de Rui Reininho, vocalista dos GNR. Entrou em 1965 e era bom aluno em línguas, mas confessa que a “preguicite” não o deixava ser melhor nas ciências exatas. “Andava ali entre o Medíocre Mais e o Suficiente Menos”, contou o músico, sempre num registo bem-humorado.

“Era um liceu muito clássico, quase entre a tropa e o seminário. Éramos só gajos e a formação era muito tradicionalista”, afirma Rui Reininho, que vivia a cinco minutos da escola e, se estivesse atrasado, uma “corridinha” era suficiente para não chegar atrasado.

Recupera o dia em que, a meio de uma aula, um colega entrou a meio de uma aula de uma docente ligada ao Partido Comunista. “Lembro-me da professora nos ter pedido para não incomodarmos o nosso colega, porque ele tinha recebido uma notícia muito triste. Depois, no intervalo, viemos a saber que o pai dele tinha sido ‘engavetado’ pela PIDE”.

Entre o corpo docente, “havia professores mais alinhados com o regime e outros que eram mais do reviralho”, explicou Rui Reininho, que ainda fez parte do coro da escola, mas tinha “uma rebeldia muito chanfrada na cabeça” e “aquilo exigia alguma harmonia”.

O espírito e arte de ser alexandrino

Manuel José Lima recorda que “era uma escola muito bem-humorada e muito aberta. A esse nível, é algo que se foi mantendo ao longo do tempo”. Na opinião do diretor, “há um espírito e arte de ser alexandrino. É uma forma de estar”.

O corpo docente é “dedicado”, enaltece o diretor, e “a resiliência ainda se mantém, mas tem de haver um esforço grande para que ela não se vá desgastando”.

Lucília Monteiro

Há alguns anos, no jardim da escola, estavam plantadas duas ameixoeiras. Num dia de tempestade, uma delas foi atingida por um raio e a outra foi arrancada pelo vento. Já sem as árvores, o jardim ainda se mantém tratado, dentro do possível, com a boa vontade dos funcionários. Assim resiste a Escola Secundária Alexandre Herculano, à espera da bonança, porque um raio não cai duas vezes no mesmo sítio e o vento não pode levar tudo.

Ao terminarmos a visita ao emblemático liceu, na fachada do edifício uma frase de Alexandre Herculano ganha relevância. “A instrução tem por alvo o benefício do cidadão e a utilidade de República”, lê-se. Ao mesmo tempo, na varanda do primeiro piso, o senhor Rocha, funcionário na Alexandre Herculano há 13 anos, ia hasteando a bandeira portuguesa.

Lucília Monteiro

[Texto original publicado no Expresso Diário de 10 de agosto de 2016]