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Escola Alexandre Herculano de portas fechadas e com futuro incerto

LUCÍLIA MONTEIRO

A escola secundária do Porto lutava há muito contra as mais variadas adversidades. Esta quinta-feira foi dia de dizer “basta”, e as portas foram encerradas

André Manuel Correia

Os problemas na Escola Secundária Alexandre Herculano, no Porto, persistem há já vários anos e nenhuma intervenção de requalificação foi efetuada até ao momento, com a degradação do edifício a colocar em causa a segurança de 970 alunos que atualmente frequentam o antigo liceu. Esta manhã, devido à água que se infiltra nas salas de aulas sempre que chove com mais abundância, entre muitos outros problemas de segurança e de conforto mínimo, a direção da escola decidiu dizer “basta” fechou as portas. Até quando, ainda não se sabe.

O Expresso visitou, em agosto de 2016, o emblemático liceu portuense com mais de 100 anos de história, por onde já passaram figuras como Manuel Alegre ou Rui Reininho, e pôde constatar as notórias carências com que a Alexandre Herculano se depara.

Os problemas estruturais passam pelas coberturas, a parte informática, as infiltrações, as más condições dos espaços, a desatualização dos recursos pedagógicos e até uma praga de ratos, contava-nos, por essa altura, o diretor Manuel José Lima.

Nos dias de chuva, as infiltrações de água são minorada – ou tenta-se, pelo menos – com a colocação de baldes espalhados pelos longos corredores. Os alunos e professores tentam resistir ao rigor do inverno e levam mantas de casa para resistirem ao frio que se instala nas salas de aula. Também o ginásio não pode frequentemente ser utilizado e um dos laboratórios está encerrado por questões de segurança.

“Os alunos e os pais gostam da escola e gostam dos professores, mas queixam-se do desconforto, do frio agudo, da falta de recursos pedagógicos e as condições das salas são francamente más”, explicou Manuel José Lima.

LUCÍLIA MONTEIRO

O Sindicato dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais do Norte, através de um comunicado, refere que esta manhã “a escola não abriu por falta de condições, uma vez que chove em várias salas”. A nota acrescenta que este é “só mais um episódio que revela a sua degradação, colocando permanentemente em risco a segurança e a saúde de trabalhadores e alunos”.

Em 2009, foi aprovado um projeto para a requalificação que implicava o investimento de 15 milhões de euros pelo Estado. Dois anos mais tarde, o edifício é classificado como “monumento de interesse público” e o Governo estipula que deve “ser objeto de especial proteção”.

Nesse mesmo ano, Nuno Crato, à data ministro da Educação, trava o processo. Enquanto isso, outros estabelecimentos de ensino da cidade, como a Escola Secundária Rodrigues de Freitas, foram intervencionados ao abrigo do programa de modernização Parque Escolar.

Umas das vozes mais ativas na defesa da escola tem sido o deputado socialista Tiago Barbosa Ribeiro que encabeçou o movimento público “Não deixamos cair o Alexandre” e que, em agosto, em declarações ao Expresso, dava conta de uma situação “absolutamente intolerável” e apelava ao empenho de todos os poderes públicos. “Pensar o Porto sem o Alexandre não seria, certamente, a mesma coisa”, acrescentou então o deputado.

“Nas conversas mantidas com o Ministério da Educação, tenho sentido uma enorme vontade de resolver o problema. Ainda não há nada público, mas têm existido essas conversas e a disponibilidade é total”, frisava Tiago Barbosa Ribeiro.

No entanto, a referida vontade e disponibilidade da tutela em resolver os problemas da Alexandre Herculano acabaram por não se materializar numa melhoria das condições da instituição de ensino público, com o Ministério da Educação a garantir apenas estar a trabalhar para que a situação se resolva o mais rapidamente possível.

A Câmara Municipal do Porto frisa, num comunicado oficial desta tarde, que “quaisquer obras referentes ao Liceu Alexandre Herculano são da exclusiva responsabilidade do Estado central – mais precisamente do Ministério da Educação – e não da autarquia”. Ainda assim, o município assevera ter manifestado “há meses, junto do Ministério (...) preocupação e a disponibilidade para custear 50% da comparticipação nacional da obra necessária”.

Por enquanto ainda é desconhecido o futuro da escola, dos alunos, docentes e funcionários. Ninguém sabe quando as portas da Alexandre Herculano se abrirão novamente, sendo que esta manhã foram os próprios alunos a solicitar à direção para fechar o antigo liceu.

Por esta emblemática e histórica escola portuense, situada no Bonfim, passaram jovens que ali se fizeram homens, tais como Manuel Alegre, Álvaro Siza Vieira, Belmiro de Azevedo, Rui Reininho, Pedro Abrunhosa, entre muitos outros.

“Recordo os bons professores que me ajudaram muito na minha adolescência literária. Deram-me a conhecer poetas. Lembro-me também dos colegas, nomeadamente o José Augusto Seabra e o José Miguel Leal da Silva, com quem fundei o jornal escolar ‘Prelúdio’”, contou ao Expresso Manuel Alegre, que começou a frequentar o liceu em 1950.

Passados todos estes anos, embora por outros motivos, a história da Alexandre Herculano continua a ser pautada pela resiliência. Mas até a força dos mais resilientes se esgota e tudo tem um fim. Será este o capítulo final de uma história tão rica? Resta saber o que poderá ser feito.