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Morreu o homem dos Oceanos que nasceu no Alentejo profundo

Posse de Mário Ruivo como ministro dos Negócios Estrangeiros do V Governo Provisório. Agosto de 1975

ARQUIVO EXPRESSO

Ser ministro foi um acaso na longa vida de Mário Ruivo. Portugal e o mundo respeitaram as suas opiniões como biólogo, oceanógrafo e democrata que defendia uma política de desenvolvimento sustentado para todos. Era amigo de longa data de Mário Soares e esteve preso no Aljube ao mesmo tempo que o ex-Presidente. Partiu esta quarta-feira aos 89 anos

“Mário Ruivo era uma grande figura da ciência portuguesa à escala internacional, uma personalidade ímpar na problemática dos oceanos. Com a sua desaparição, que agora sucede — poucos dias depois do seu amigo Mário Soares, com quem relevou o papel de Portugal nesses domínios —, Portugal perde uma das suas grandes personalidades com prestígio científico reconhecido pelo mundo”, diz o embaixador Francisco Seixas da Costa nas ‘notas pouco diárias’ do seu blogue.

A sua ação e a sua reputação como biólogo e oceanógrafo cedo atravessaram fronteiras. Mário João de Oliveira Ruivo nasceu em Campo Maior a 3 de março de 1927, e licenciou-se em Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa em 1950. Nos seus tempos de estudante, foi dirigente do MUD Juvenil e em 1947 esteve preso no Aljube, ao mesmo tempo que Mário Soares. Os dois homens ficaram amigos para o resto da vida e partiram no mesmo mês e no mesmo ano.

Depois de se licenciar, foi para França, onde aprofundou os seus estudos em oceanografia e gestão de recursos vivos na Sorbonne. Na década de 1970 dirigiu a divisão de Recursos Aquáticos e do Ambiente do Departamento de Pescas da FAO, a organização da ONU para alimentação e agricultura (1974-79), sediado em Roma. Entre 1980 e 1988, foi presidente do Comité para a Comissão Oceanográfica Intergovernamental da UNESCO. Mais tarde foi coordenador da Comissão Mundial Independente para os Oceanos e membro da Comissão Estratégica dos Oceanos, bem como conselheiro científico da Expo 98.

Ministro por 41 dias

No verão de 1975, foi ministro dos Negócios Estrangeiros no V Governo Provisório, depois de ter sido secretário de Estado das Pescas nos II, III e IV Governos Provisórios. Cidadão empenhado, a 4 de setembro de 2015 recebeu o Prémio Cidadão Europeu desse ano, uma distinção que reconhece pessoas ou organizações que promovem o entendimento e a integração dos cidadãos na União Europeia e a cooperação entre países.

Mário Ruivo nas comemorações do 10 de Junho de 1998

Mário Ruivo nas comemorações do 10 de Junho de 1998

RUI OCHOA

Os anos de juventude

Muito jovem “militou na clandestinidade, colaborando com o Partido Comunista Português desde o Liceu, em Évora”, lê-se na página de facebook “Antifascistas da Resistência”.

No pós-II Guerra Mundial foi dirigente do MUD Juvenil. No final da década de 1950 integrou o conselho editorial da revista “Seara Nova”.

“Tinha trabalhado com o professor Flávio Resende na Faculdade de Ciências de Lisboa e embora não pudesse ser assistente nas universidades e estivesse impedido de continuar a trabalhar no Instituto de Biologia Marítima como investigador auxiliar ou adjunto, voltou a Portugal e não deixou de investigar na área das pescas. Foi assim que, em 1954, passou a ir todos os anos com os bacalhoeiros até à Terra Nova e, depois, a bordo do GIL Eanes até á Gronelândia e, também, nos bacalhoeiros, até ao Círculo Polar Ártico”, lê-se na sua biografia na página “Antifascistas da Resistência”. “.Quando foi informado [pelo director do Instituto de Biologia Marítima] de que havia um sério risco de ser preso, vai para Itália, onde ficou 13 anos até à Revolução” de 1974. Nos anos que passou em Roma, ingressou nos quadros da FAO, organização das Nações Unidas para a alimentação e agricultura.

Reações

O ministro da Cultura, Luís Filipe Castro Mendes, lamentou a morte de Mário Ruivo, realçando o seu contributo para “a promoção de políticas públicas para o desenvolvimento sustentável”. Numa nota de pesar, lembra o “homem da ciência e da cultura", por quem "tinha uma elevada estima e consideração pessoal”.

Para Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da República, “o professor Mário Ruivo foi um reputado cientista, pioneiro na defesa dos oceanos e no lançamento das políticas de ambiente em Portugal”. Numa nota enviada à agência Lusa, Ferro Rodrigues lembra o “destacado antifascista, desde cedo ligado aos movimentos da resistência, que exerceu inúmeros cargos e funções relevantes no Governo português”.

Para o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, Manuel Heitor, o “vulto ímpar da cultura e ciência em Portugal”, que “deixa um legado extraordinário na rede de investigadores”, que “continuam a trilhar o caminho por ele preconizado para uma aliança entre a ciência, a tecnologia e a sociedade”.

Também a ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, evoca a “personalidade reconhecida, democrata, opositor do regime fascista e grande defensor do oceano como elo primordial de ligação entre os povos, e recurso fundamental para o futuro da Humanidade”.

Mário Ruivo era pai do assistente de realização João Pedro Ruivo e de Joana Ruivo, atualmente a fazer um MBA na Harvard Business School. Era irmão da socióloga Beatriz Ruivo, que foi professora na Universidade de Aveiro, e do artista plástico Henrique Ruivo, e casado com a professora universitária Maria Eduarda Gonçalves.

O velório é na Gare Marítima de Alcântara. O funeral sai esta quinta-feira, às 15h, para o Cemitério dos Prazeres, em Lisboa, depois de uma breve cerimónia na Gare Marítima de Alcântara.

  • Considerado um cientista e político pioneiro na defesa dos oceanos e no lançamento das temáticas ambientais em Portugal, Mário Ruivo esteve ligado a movimentos antifascistas desde a sua juventude até abril de 1974