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Sociedade

Terapia da fala é cara e pouco acessível

Marcos Borga

Estudo da Deco mostra que a ajuda especializada não chega em tempo útil aos alunos das escolas públicas. Consultas privadas são a alternativa, mas nem todas as famílias conseguem pagar a intervenção

Ter dificuldades em ler, escrever ou falar é comum mas há situações que carecem da ajuda de profissionais para serem ultrapassadas, sobretudo quando se é criança. Os terapeutas da fala nas escolas públicas não conseguem dar apoio dedicado e atempado e o recurso aos privados torna-se a única solução. Mas as consultas têm um preço elevado, prolongam-se no tempo e poucas famílias conseguem suportar o encargo. As conclusões, a publicar na revista "Teste Saúde" de fevereiro, são da associação Deco, que vai "questionar o Ministério da Educação sobre o assunto".

As perturbações na linguagem têm consequências no desenvolvimento das crianças, e dos adultos que vivem com o problema, mas não são suficientemente graves para a opção pelo ensino especial. Como tal, quase nunca há apoios financeiros do Estado porque "fora destas condições o subsídio é muitíssimo difícil de obter", escrevem os autores do estudo, realizado entre novembro e dezembro de 2016 com 274 terapeutas da fala de 209 consultórios.

A análise da oferta nesta área permitiu perceber que "mais de metade dos estabelecimentos analisados dispõe de acordos, protocolos ou convenções para permitir descontos nas sessões", lê-se. O preço mais praticado é 40 euros pela primeira consulta, de avaliação. Depois, caso seja necessário o acompanhamento é traçado um programa à medida. "Desenrola-se ao longo de várias sessões, cujo preço mais frequente é de 35 euros", podendo ir até aos 70 euros para os mais pequenos e 75 euros para adultos.

Preços altos em Coimbra, Lisboa e Santarém

A deslocação do terapeuta ao domicílio, à escola ou a outra clínica é possível, implicando normalmente um custo acrescido, por exemplo de cinco euros, pela deslocação. "Os distritos de Coimbra, Lisboa e Santarém praticam preços acima da média do país nas consultas", seja para crianças ou para adultos. Segundo o estudo, "os Açores e a Madeira têm a oferta mais barata", "com valores muito abaixo dos recolhidos na generalidade das regiões".

Para quem não tem seguro de saúde, por exemplo, a intervenção torna-se dispendiosa. "Por isso, apesar de o ideal serem duas sessões semanais, os terapeutas tendem a reduzir o número para metade. Mesmo assim, serão em média 140 euros a cada mês, um valor incomportável para muitas famílias, estando os subsídios estatais sobretudo direcionados para os alunos do ensino especial."

Terapeutas só com carteira profissional

Nas crianças, as dificuldades manifestam-se por problemas na leitura, de articulação e de troca de sons e na aprendizagem de novo vocabulário. Já nos adultos, os sinais podem ser perturbações nas funções auditiva, visual e cognitiva, na respiração ou na deglutição. Os autores do estudo, a divulgar na "Teste Saúde", alertam para a necessidade de verificar as competências dos terapeutas, que têm de ter carteira profissional, na página da Administração Central do Sistema de Saúde na internet.