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Samsung: quando os elétrodos se tocam

Samsung forneceu mais detalhes sobre a falha que levou a um processo de recolha de mais três milhões de smartphones Galaxy Note 7, com um custo de quase cinco mil milhões de euros

Em agosto, se alguém pedisse ao diretor do Negócio de Comunicações Móveis da Samsung que escolhesse um mal menor e indicasse o terminal para ser alvo de um processo de recolha à escala global, dificilmente teria como resposta o “Galaxy Note 7”. Por mais de uma vez, os especialistas na matéria classificaram o phablet da Samsung como a máquina mais poderosa desde que alguém fez a primeira chamada de telemóvel em 1973.

As reservas de Note 7 esgotaram semanas antes de estrearem em vários países (em Portugal também). Nem o preço de topo de gama impediu a Samsung de superar os três milhões de unidades vendidas. Mas passados quase seis meses, Koh Dong-jin, diretor do Negócio de Comunicações Móveis da Divisão Samsung Electronics, teve mesmo de se sentar à frente de um batalhão de jornalistas para desempenhar o menos desejado dos papéis.

Foi assim, numa conferência de imprensa realizada esta manhã em Seul, capital da Coreia do Sul, que surgiu a confirmação oficial de que os incêndios, explosões e derretimentos de Galaxy Note 7 se deveram a falhas de design e fabrico de baterias provenientes de dois fornecedores.

Desde o aparecimento dos primeiros incidentes que as baterias dos dispositivos eram apontadas como a principal causa de problemas. O facto de os incêndios ocorrerem, invariavelmente, durante o período de carregamento de baterias também não dava muita margem para dúvidas – mesmo para os consumidores menos versados na matéria. Os responsáveis da Samsung poderão ter julgado que tinham chegado ao mais indesejável dos cenários quando anunciaram, numa primeira tentativa de reparação dos danos, uma primeira recolha para a substituição de baterias, mas não tiveram de esperar muito mais tempo para confirmar que o cenário poderia ficar ainda pior.

Afinal, as falhas estavam presentes em baterias de dois fornecedores – e não apenas nas baterias de um. Terá sido devido a esse fator que o próprio processo de recolha inicial acabou por não pôr fim aos casos de incêndio e obrigou a Samsung a lançar mão de um processo de recolha de todas as unidades do modelo tecnologicamente mais poderoso que alguma vez havia saído dos respetivos laboratórios – mas que, entretanto, já fora banido dos aviões de várias companhias aéreas.

Na explicação fornecida esta manhã, a Samsung revela que as falhas detetadas nas baterias de ambos fornecedores tinham por origem o contacto entre elétrodos positivos e negativos. Nas baterias de um dos fornecedores, o elétrodo negativo estava mal posicionado e inviabilizava a ação do separador de elétrodos; nas baterias de um segundo fornecedor, foram as saliências do elétrodo positivo que levaram à perfuração da fita isolante e do separador e estabeleceram contacto direto com o elétrodo negativo.

Ambos os tipos de falhas potenciam curto-circuitos. E processos de recolha à escala global. No caso do Galaxy Note 7, a recolha terá tido um custo superior a 5,3 mil milhões de dólares (cerca de 4,9 mil milhões de euros).

Quem são os fornecedores de baterias?

A Samsung não avançou com os nomes dos fornecedores das baterias defeituosas, mas a BBC e outros media não desperdiçaram a oportunidade de retomar as notícias do passado recente que apontavam a Samsung SDI (que pertence ao conglomerado industrial sul-coreano) e a Amperex Technology (uma empresa chinesa) como os fornecedores que terão produzido as baterias que deram origem aos incêndios.

Koh Dong-jin lembra que a recolha dos Galaxy Note 7 também pode ter uma virtude: “As lições que resultam deste incidente estão profundamente refletidas na nossa cultura e processos”, prometeu o responsável da Samsung, em declarações publicadas pela Reuters.

As palavras podem ter sido escolhidas cirurgicamente pelo executivo sul-coreano, com vista à recuperação da imagem da Samsung, mas há também consequências de âmbito prático no processo de fabrico e montagem de futuros modelos de telemóveis. De ora em diante, a Samsung Electronics vai passar a ter uma nova cartilha de verificação de baterias. Teste de durabilidade, inspeção visual, raio-X, testes de carga e descarga, testes de composto orgânico volátil total, teste de desmontagem, teste de consumo acelerado e teste de tensão de circuito aberto completam a lista de oito critérios a que as baterias de telemóveis Samsung passam a estar sujeitas antes de entrarem no circuito comercial.

Aos critérios específicos para a segurança das baterias, juntam-se o aperfeiçoamento da norma que determina que materiais poderão ser usados nas unidades de armazenamento energético, novos suportes que aumentam a proteção da bateria dentro do dispositivo móvel, e ainda a inclusão de novos algoritmos que têm em conta a temperatura, a duração e a corrente durante os carregamentos destes smartphones.

Os renegados

O Galaxy Note 7 começou a ser vendido fora de época, com a nítida intenção de ter à venda o mais poderoso dos topos de gama ainda antes de a Apple dar a conhecer o iPhone 7, em setembro. Caso batesse certo, este lançamento poderia reforçar a imagem da Samsung enquanto marca que não precisa de esperar pela arquirrival Apple para ditar as tendências de mercado. Para uma percentagem marginal dos compradores dos Galaxy Note 7, essa ousadia continua a fazer sentido – ou não tivessem esses mesmos consumidores feito orelhas moucas aos sucessivos alertas, incentivos e campanhas de recolha dos phablets que têm baterias defeituosas.

Apenas 96% dos 3,06 milhões de Note 7 vendidos acabaram por ser recolhidos pela Samsung (que teve de enviar pequenas caixas anti-incêndio para os vários pontos do mundo, a fim de reduzir a 0% a propagação de um incidente nos vários tipos de transporte de mercadorias).

JUNG YEON-JE /AFP / Getty Images