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Brrr! (ou como o frio afeta o corpo humano)

foto vasco pinhol

Todas as línguas associam o frio à morte, enquanto o calor é associado à vida. Mas, afinal, o que é o frio e como é que ele “mexe” connosco? Sabe que a temperatura de equilíbrio num ser humano nu é 28º Celsius? (este artigo foi publicado originalmente na revista do Expresso de 29 de novembro de 2008)

Vasco Pinhol

Lá fora está tudo branco, chegar ao pé da janela é suficiente para tolher os movimentos, encolher os ombros num calafrio e afundar as mãos nos bolsos. O manto de neve que arredonda todos os sinais do homem e da Natureza estende-se até ao arrefecer do horizonte. Tudo parou.A nossa relação com o frio é fisiológica, universal e intensa.

Todas as línguas associam o calor à vida e à humanidade e guardam o frio para adjetivar a morte e a desumanidade. É um apto sinal da nossa mal disfarçada indexação à biologia, da qual não poderemos nunca escapar, como o mostram bem expressões como “o sangue quente que ferve nas veias” ou “um olhar frio, distante, letal”. Não há paisagem mais desoladora do que a descrita numa frase como “uma planície vasta, gélida, que tolhe até a imaginação”. Ou haverá?

Para os portugueses, o frio é mais um estado de espírito que uma realidade mortal. Os nossos brandos costumes são acompanhados por branda meteorologia; temos temperaturas negativas mas ocorrem em zonas de fraca densidade demográfica.

Moramos maioritariamente perto da beira-mar, onde a temperatura amena do oceano serve de tampão às grandes variações térmicas. No interior do país, a amplitude térmica anual chega a 18 graus celsius, mas junto à costa não ultrapassa os oito. Queixamo-nos muito de frio durante o inverno, mais por falta de condições de isolamento térmico das nossas casas e locais de trabalho do que propriamente por exposição ao real frio. Mas que é, então, esta coisa do frio?

É aos 28º C que se atinge a temperatura a que, no ser humano sem vestuário, a produção metabólica de calor em repouso iguala a perda de calor - a denominada temperatura fisiologicamente neutra. São poucos os locais do planeta em que estas condições estão reunidas de forma consistente ao longo do ano - pode dizer-se que o homem nu é um primata equatorial e todas as aproximações aos polos implicarão sempre combinações cada vez mais floreadas de vestuário. No limite, contudo, a perceção do frio é profundamente subjetiva e dependente do indivíduo. Todos nós temos dias em que, por alguma razão, sentimos mais frio que noutros.

À falta de uma pelagem farta e quentinha, o corpo humano possui vários mecanismos de adaptação ao frio, nomeadamente um sistema que mantém o sangue longe da superfície - diminuindo as perdas de calor e aumentando o isolamento térmico -, a que se chama vasoconstrição periférica, e um sistema que produz mais energia interna para aquecer, por aumento da taxa metabólica. Mas, para além destes mecanismos objetivos, a perceção que cada um tem do frio depende do limiar de resistência ao tremor e da aclimatação que consegue obter por exposição continuada às baixas temperaturas.

O corpo adapta-se ao frio

Uma das mais estudadas aclimatações humanas ao frio é a das mergulhadoras tradicionais japonesas Ama, que há mais de 2000 anos se dedicam à apanha de algas, ouriços e pérolas, em apneia. A condutividade térmica da água do mar é 26 vezes superior à do ar e há que ver que as Ama tradicionais mergulham em águas de 10 graus apenas com um tecido a tapar as partes pudendas, uma máscara rudimentar e uma notável boa vontade (o uso dos fatos de mergulho em neoprene era, até há pouco tempo, vedado às Ama pelas associações sindicais de pesca japonesas - as mulheres têm mais tecido adiposo e, consequentemente, maior isolamento térmico que os homens, pelo que o uso de fatos de mergulho poderia, segundo os sindicalistas, criar uma situação de “concorrência injusta”).

Nos estudos realizados, todos os parâmetros físicos das Ama são superiores aos da população normal em que se inserem, o que denota profundas adaptações fisiológicas, nomeadamente a nível cardiorespiratório, rácio entre tecido adiposo e muscular, maior profundidade da vasoconstrição periférica e limiar de tremor mais alto. As Ama são a prova inequívoca de que o corpo humano não só se adapta psicologicamente como fisiologicamente ao frio.

109 dias a pé, com 45 graus negativos e ventos de 80 km/h

Esta adaptação é também paradigmática nos grandes exploradores polares. A civilização ocidental prima por uma ética de descoberta que pretende desvendar o Mundo para o explicar; as fronteiras da exploração têm sido metodicamente deslocadas e os limites humanos continuamente reescritos; subimos às montanhas mais altas e descemos aos oceanos mais profundos e, para além de alguns de nós irem à Lua, outros atravessaram os polos a pé. Torry Larsen e Rune Gjeldnes, dois oficiais das tropas especiais norueguesas, foram os primeiros seres humanos a atravessar o Polo Norte a pé, sem apoio. Durante 109 dias enfrentaram temperaturas de -45 graus e ventos de 80 km/h.

AVENTURA Torry Larsen já depois de ter passado o Polo Norte, durante a viagem a pé entre a Sibéria e o Canadá

AVENTURA Torry Larsen já depois de ter passado o Polo Norte, durante a viagem a pé entre a Sibéria e o Canadá

FOTO CORTESIA TORRY LARSEN

Explica Larsen: “Durante a travessia, tivemos uma situação em que o frio era tão intenso que me senti a desfalecer, tive de vestir à pressa mais roupa e caminhar com mais intensidade até me recompor. Se tivéssemos parado para montar a tenda tínhamos entrado em hipotermia e, provavelmente, morrido.”

35 graus, o limiar

A hipotermia ocorre quando a temperatura corporal profunda baixa para menos de 35 graus e os processos celulares começam a ser afetados. O indivíduo hipotérmico começa por apresentar arrastamento na fala, rigidez muscular, alterações visuais e uma crescente desorientação. Por vezes, dá-se uma vasodilatação paradoxal que produz uma sensação súbita de calor, levando a que dispa a roupa em vez de reforçar a proteção; quando se chega a este estado, se não há um aquecimento ativo rápido, seguem-se alterações cardíacas, respiratórias, confusão mental crescente a que se segue uma sensação de paz profunda, coma e morte.

FOTO CORTESIA RUNE GJELDNES

Uma das características comuns aos que morrem de hipotermia todos os anos nas grandes cidades é o serem encontrados com expressões faciais de quem adormeceu no sono dos justos. Quem saiba como o corpo humano evolui para a hipotermia, sabe bem que a diferença entre a sobrevivência e a morte depende, muitas vezes, de uma simples decisão tomada a montante da fase de confusão mental.

Na travessia do Polo Norte a pé, estes dois exploradores perderam mais de 53 kg de massa corporal e, na fase final da viagem, dormiram apenas 3-4 horas por noite, porque o movimento noturno da placa de gelo anulava a distância percorrida durante o dia; chegaram ao ponto de recolha, no Canadá, sem comida, sem água e no absoluto limiar da resistência. “Nos dias que correm, quase todas as explorações acabam, mais cedo ou mais tarde, por ser emuladas em menor tempo ou em distâncias maiores. Mas neste caso nunca mais ninguém tentou sequer repetir o que fizemos.”

Quanto mais velhos, mais sensíveis ao frio

Mas não é preciso ser um explorador polar para sentir na pele as agruras do frio. Todos temos uma tia-avó que veste um casaquinho de lã à noite, em junho. A termorregulação é uma das capacidades que mais envelhece connosco: a idade provoca alterações na amplitude dos ritmos circadianos, diminuindo a produção de energia e baixando a temperatura; o envelhecimento implica perda de massa muscular e diminuição do reflexo da vasoconstrição periférica, o que nos torna mais sensíveis às diferenças de temperatura e nos deixa uma janela de conforto bem mais diminuta.

Dos 30 aos 70 anos de idade, o nosso corpo produz menos 20% de calor e, como o avanço da idade raramente nos torna mais saudáveis, esta diferença é frequentemente agudizada pelas quase universais doenças concomitantes. Nas grandes doenças, a perda de peso, a redução da massa muscular e as consequentes dificuldades em manter uma boa adaptação do corpo às variações térmicas aceleram frequentemente o desfecho fatal.

Em condições normais, a nossa resposta à fome é regulada por um complicado sistema neuroendócrino que aumenta o apetite, poupa o tecido muscular, recruta a energia armazenada na gordura e baixa a taxa metabólica. Na grande doença, a desnutrição patológica não é acompanhada desta regulação, sendo frequentemente agravada pelo estado de espírito negativo do doente, que entra numa espiral descendente cujo desfecho é o pior.

Estes estados de desnutrição profunda são acompanhados, tanto objetiva como subjetivamente, de muito, muito frio. Os mais afetados são sempre os idosos e as crianças. Nestas últimas, o drama prende-se com a relação matemática entre a massa corporal e a área corporal exposta, ou seja, para cada quilo de peso a quantidade de área exposta ao frio é, na criança, muito superior à do adulto.

Os bebés prematuros, por exemplo, têm de ser mantidos em incubadoras com calor irradiante porque os golpes de frio aumentam-lhes o metabolismo e provocam faltas de oxigenação. Nestes casos, o calor humano pode ser razão literal de sobrevivência: uma das técnicas (descoberta na Colômbia, não por investigação experimental mas por observação empírica em hospitais que não dispunham dos meios modernos de cuidados de neonatalogia) mais eficazes para manter o bebé a uma temperatura favorável implica colocá-lo - como fazem os cangurus - sobre a mãe, que assim lhe transmite o calor necessário.

Como tudo o que é da experiência humana, o frio é uma longa viagem com um fim simplificado. Tal como o grande frio interior, os grandes espaços de frio surpreendem pelas ausências. A ausência de cor, pela omnipresença monocromática da neve e do gelo. A ausência de movimento, pela nulidade dos sinais da vida. A ausência de som, porque todos os ruídos são absorvidos sem devolução.