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Peter Thiel: o techie de Trump

PRÓXIMOS. O acariciar de Trump a Peter Thiel, durante a reunião promovida com os CEO das principais empresas de tecnologia dos EUA, deu origem a dezenas de interpretações – nenhuma delas positiva para ambos

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Peter Thiel é o guru tecnológico da equipa que está a assegurar a transição de Trump para a Casa Branca. Ocupa, nas listas que a Forbes adora fazer, o 79º lugar nos mais ricos da tecnologia e o 73º na lista dos mais poderosos do mundo.

Thiel foi um dos fundadores da PayPal e dos primeiros a investir na Facebook. Na altura, deu um cheque de meio milhão de dólares a Zuckerberg, o que permitiu à jovem empresa começar a trilhar a senda de sucesso reconhecida por todos. Em troca, Thiel ficou com, “apenas”, 10% da Facebook. Hoje, tem um lugar no conselho de administração da empresa (é o segundo diretor mais antigo, logo a seguir a Zuckerberg), mas vendeu a quase totalidade das ações da Facebook em 2010 quando a empresa entrou em bolsa. Ficou ainda mais rico e reforçou a sua participação na Funders Fund, uma capital de risco. Entre outras atividades, é cofundador da Palantir – uma empresa que faz software de análise de dados e que é apoiada pela CIA e tem clientes como o FBI.

Peter Thiel foi um dos mais fervorosos apoiantes da eleição de Trump e doou mais de 1 milhão de dólares para a campanha – o que não o livrou de ser alvo de uma campanha de difamação onde se chegou a dizer que recebia transfusões de sangue de jovens para ele, Thiel, se manter novo e revigorado (ver AQUI) – mentira, mas a verdade é que Thiel já investiu em várias empresas da área da biotecnologia que estudam formas de parar o envelhecimento das células. Algumas recorrem à parabiose, a transfusão de sangue de animais mais jovens em animais mais velhos.

Peter Thiel é emigrante, é HOMOSSEXUAL, é um empresário da tecnologia onde as empresas são caracterizadas pelo seu perfil multicultural e é um esclarecido quanto a algumas evidências científicas – como a evolução da espécie humana e a existência do aquecimento global. Ou seja, não haveria nada que ligasse este homem aos ideais postulados por Trump. Certo? Errado.

A semana passada, Thiel deu uma entrevista ao New York Times onde deixa transparecer que está perfeitamente alinhado com Trump. Da ENTREVISTA destaco, particularmente, a reação de Thiel ao vídeo revelado durante a campanha, no qual Trump exclama um finíssimo “grab them by the pussy” quando está a falar sobre técnicas de galanteio a elementos do sexo feminino.

Ora, e o que diz Thiel? “Por um lado, a gravação foi claramente ofensiva e inapropriada. Ao mesmo tempo, fico preocupado com o facto de existir uma parte de Silicon Valley que é híper politicamente correta sobre o sexo. Um amigo meu tem uma teoria que o resto do país tolera Silicon Valley porque as pessoas dali (de Silicon Valley) não têm assim tanto sexo. Não estão a divertir-se muito”.

Este artigo poderia acabar aqui nesta minha tradução livre do branqueamento que Thiel tenta fazer à alarvidade dita por Trump. Mas a entrevista, em estilo indireto, merece ser lida. Principalmente, porque Thiel vai deixando cair pérolas como esta: “Mas existe um momento onde a não existência de corrupção pode ser uma coisa má. Pode significar que as coisas se tornaram demasiado chatas”. É quase impossível acreditar que um homem com o perfil de Thiel possa pensar desta forma. Será mesmo assim ou estará a desempenhar um papel? E, se é ator, qual é o argumento que segue?

No final da entrevista, fico com a sensação que Peter Thiel sabe algo que nenhum de nós conhece sobre Trump. Ou percebeu que “The Donald” é um cordeiro em pele de lobo facilmente controlável pelos que o vão rodear, e tornar inofensivo, ou que o novo presidente dos Estados Unidos (que toma posse esta sexta-feira) acredita piamente no que defende e, por isso, tem de ser mantido sob controlo apertado para que não comece uma guerra mundial a partir do Twitter. Espero, sinceramente, que a entrevista ao New York Times faça parte de um qualquer guião seguido por Thiel, no qual está escrito que ele deve manter-se o mais perto possível de Trump – mesmo que, para isso, tenha de renegar tudo aquilo em que acredita.