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“A eleição de alguém como Trump aumenta a preocupação sobre o papel das cidades no crescimento verde”

Em entrevista ao Expresso, o urbanista britânico Philipp Rode defende que “as cidades mais compactas podem ser as mais eficientes e sustentáveis desde que se projete e planeie de forma correta e inovadora”. O professor da London School of Economics é um dos oradores na conferência do Green Project Awards, que se realiza em Serralves na segunda-feira

Carla Tomás

Carla Tomás

Jornalista

Para Philipp Rode, diretor executivo do programa “LSE Cities”, na britânica London School of Economics, a recente tomada de posse de Donald Trump como presidente dos EUA, vem "reforçar a ideia de que perante as possíveis falhas dos Estado-nação está nas mãos das cidades manter a aposta no crescimento de uma economia verde". O consultor em urbanismo é um dos convidados da nona edição dos prémios “Green Project Awards” (GPA), que decorre pela primeira vez no Porto. Será a sua primeira visita à cidade e o que conhece de Portugal resulta de uma passagem por Lisboa durante um interrail pela Europa nos anos 90.

Defende o conceito de "cidades compactas", mas como é que uma cidade mais densa em termos populacionais e com edifícios em cima uns dos outros pode ser "verde" e sustentável?
Isso depende do que entendemos como "verde". No sentido literal, referimo-nos a espaços com árvores e vegetação natural, que são importantes, mas uma cidade sustentável, além de integrar espaços naturais, tem de assegurar qualidade de vida. E o principal argumento para defender o conceito de uma cidade compacta ou de um crescimento urbano compacto está associado à importância da eficiência ambiental e de recursos. Quanto melhor for o acesso a pessoas, bens e serviços, maiores os benefícios sociais e económicos da vida urbana. As cidades mais densas ou compactas podem ser as mais eficientes e sustentáveis desde que sejam projetadas e planeadas de forma correta e inovadora. Temos de olhar para as diferentes responsabilidades que tem uma cidade, a importância da sua autonomia política para definir mudanças em termos de planeamento do espaço, estruturas físicas, arquitetura ou transporte, pensando que estas coisas não são pensadas apenas para o próximo ciclo eleitoral, mas que vão perdurar nos próximos 50 a 100 anos.

Essa é uma das mensagens que vai passar na conferência?
Sim e também a de que precisamos de ver novas ideias a serem testadas no terreno em vez de estarmos apenas a levantar hipóteses ou discussões teóricas sobre projetos concretos para as cidades. É uma forma de democratizar a experimentação de ideias verdes.

Uma cidade compacta permite modos de mobilidade mais sustentáveis, mas também acarreta sobrelotação e consequente maior poluição. Como contornar isto?
Ao nível dos transportes é fácil de entender esta lógica das cidades compactas. Se tivermos uma maior massa crítica de pessoas num mesmo espaço, as deslocações nesse espaço tornam-se mais acessível e curtas. Devido a uma maior proximidade entre as pessoas, as suas casas, o trabalho e os serviços, podem andar a pé, de bicicleta ou usar outros meios de transporte mais sustentáveis evitando a motorização individual. Numa cidade mais compacta também temos mais eficiência energética nos sistemas de aquecimento e de arrefecimento, potenciado pela proximidade dos edifícios.

Mas se os edifícios estiverem em cima uns dos outros perde-se luz e aquecimento natural. E nos países do Sul da Europa esta é uma forma de poupar energia.
É verdade, mas por comparação com os sistemas de aquecimento e arrefecimento em termos de consumo energético, a questão da iluminação tem um peso menor. E devemos pensar em toda a energia necessária para colocar as infraestruturas a funcionar para construir estradas, sistemas de esgotos e tudo o que faz parte da infraestruura de uma cidade. Quanto mais dispersa for a edificação, mais quilómetros serão necessários para construir estradas, canalizações para abastecimento de água ou distribuição de energia. Na Europa, temos aumentado a eficiência energética aumentando a densidade urbana. Por outro lado, também podemos argumentar que uma forma de vivência mais compacta contribui para o que chamamos de economia circular ou economia de partilha de que o "car sharing" é o exemplo mais óbvio.

Dê-me exemplos de cidade que estão nesse caminho?
Um dos melhores exemplos é Londres. Desde a década de 90, a população da cidade passou de 6,4 para 8,6 milhões de pessoas. E este aumento de dois milhões de habitantes aconteceu nas áreas centrais da cidade e não nas periferias. Londres assitiu a um crescimento verde, mantendo uma economia forte e tendo registado um aumento de 40% na utilização do transporte público nas deslocações diárias.

E comparando com Copenhaga, onde metade da população anda de bicicleta?
Precisamos de contextualizar estratégias e perceber a individualidade de cada cidade. Copenhaga (com meio milhão de habitantes) tem uma dimensão muito diferente de Londres. E, tal como Estocolmo, tem apostado num urbanismo sustentável e tem feito muito pela eficiência energética. Por seu lado, Estocolmo tem apostado na experimentação de eco-bairros, onde testam as últimas tecnologia verdes para casas individuais e transporte local e a capital sueca é economicamente mais bem sucedida que a dinamarquesa, sendo a narrativa do crescimento verde mais forte em paralelo com o bem estar económico e a inovação económica.

E de que outros exemplos pode falar fora da Europa?
Podemos saltar para outros contextos fora da Europa. Singapura é um importante caso de estudo, algumas área de Hong Kong também. Em cidades da América Latina destaco Bogotá, Medellin e Belo Horizonte. Por exemplo em Bogotá reformaram o funcionamento dos transportes públicos no final dos anos 90, num contexto de recursos escassos, e apostaram em corredores rápidos para autocarros urbanos (TRansMilenio) que percorrem as principais vias e bairros da cidade. com a rapidez de circulação do metro. Só em Bogotá há 40 mil pessoas a circular por hora.

Diz que a economia verde é a “a nova economia”, mas é uma realidade ou ainda um mero conceito?
É um pouco dos dois. A ideia de uma economia verde e do crescimento sustentável têm vindo a ser discutidas há muito tempo e muitas das pessoas preocupadas com as questões ambientais sentem-se provavelmente frustradas com o pouco que se mudou até agora. Eu acho que não é uma questão de escolha. A nova economia tem de ser uma economia mais verde tendo a consciência dos limites planetários. Se não perseguirmos um crescimento económico tendo em conta um ecossistema mais ecológico, a humanidade vai enfrentar grandes problemas no futuro. Esse argumento é aceite pela maioria das pessoas, mas talvez não por Donald Trump.

E o que pensa desta nova realidade? É Donald Trump, como presidente dos EUA, uma ameaça à nova economia verde?
A minha preocupação é saber como é que as cidades vão viver este ciclo de economia verde e a eleição de alguém como Trump torna esta preocupação ainda maior. Quando os Estado-nação não são suficientemente progressistas, devemos concentrar-nos no que podem fazer algumas das suas cidades ou regiões usando os seus sistemas políticos para continuarem a apostar na mudança para o crescimento económico verde. Temos de avançar para a discussão em torno das cidades que têm feito essas mudanças reais e há vários exemplos positivos em vários pontos do mundo.

Tem defendido a questão da importância da autonomia alimentar das cidades. É importante termos hortas urbanas e produzirmos batatas no centro das cidades pensando numa eventual crise extrema ou na possibilidade de uma guerra?
É um argumento de resiliência, sem dúvida. Quanto mais longa for a cadeia de fornecimento bens necessários às pessoas, como os alimentos, maior a probabilidade de esse fornecimento ser interrompido por um qualquer evento extremo. E claro que quando falamos de segurança alimentar estamos a pensar que temos de conseguir alimentar uma região com recursos regionais. É quase impossível alimentar uma cidade apenas com os alimentos que se possam cultivar nesse espaço urbano, mas é possível e desejável haver produção agrícola ou hortas urbanas nas cidades porque também contribuem para melhorar a qualidade do ar, a paisagem ou a temperatura ambiente. E também são importantes por razões de saúde e bem estar para a nossa condição humana.