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Projeto português Propolar apoia logística internacional na Antártida

Portugal é um dos países mais afetados pelas alterações climáticas e as regiões polares são os locais onde estas alterações se tornaram mais evidentes. Por isso, as universidades portuguesas estão a apostar na investigação polar

MARK RALSTON/GETTY IMAGES

Portugal vai fretar um avião para transportar 122 cientistas e técnicos de seis países até uma base de investigação polar na Antártida. Todos os anos há mais de 20 investigadores portugueses a trabalhar neste continente e no Ártico, onde estudam principalmente os efeitos das alterações climáticas

Virgílio Azevedo

Virgílio Azevedo

Redator Principal

Portugal vai contribuir pela sexta vez, através do Propolar - Programa Polar Português, para a logística científica na Antártida fretando um avião que transportará cientistas e técnicos entre Punta Arenas, no Chile, e o aérodromo Teniente Marsh na ilha do Rei Jorge, na Antártida, revelou a Universidade de Lisboa.

A missão está marcada para 19 de Janeiro e faz parte da Campanha Antártica Portuguesa 2016-17, que decorre até março com o apoio de vários países parceiros. Os voos (ida e volta) transportarão 122 membros dos programas polares de Portugal, Bulgária, Chile, China, Espanha e Coreia do Sul.

Como Portugal não possui infraestruturas permanentes na Antártida, as campanhas antárticas portuguesas são baseadas na cooperação internacional, estabelecida pelo Propolar durante a última década, com países como a Argentina, Bulgária, Brasil, Chile, China, Espanha, EUA, Coreia do Sul e Uruguai, e na gestão e partilha de logística com os programas polares parceiros.

Sete projetos nacionais


A Campanha Antártica Portuguesa é financiada pelo Propolar através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e integra sete projetos de investigação, levando 19 cientistas portugueses e 3 investigadores espanhóis a várias áreas da Península Antártica, nomeadamente nas ilhas do Rei Jorge, Decepção e Livingston (arquipélago das Shetland do Sul), na Caleta Cierva (Costa Danco), e na ilha de Amsler (arquipélago de Palmer).

Os sete projetos nacionais nesta área são coordenados por seis universidades e centros de investigação públicos, estando principalmente focados nas áreas das ciências biológicas, da criosfera, do ambiente e da Terra. São eles:

ANTIMUNE - Evolução e constrangimentos da resposta imunitária em peixes nototenioides, que constituem 35% das espécies de peixes e 90% da biomassa de peixes encontrados a sul do Círculo Polar Antártico.
CIRCLAR - Cartografia e monitorização de círculos de pedras ordenados, com imagens de alta resolução na Antártida Marítima.
CRONOBYERS - Estudo da deglaciação das áreas livres de gelo na ilha Livingston (ilhas Shetland do Sul, Antártida) durante a época geológica do Holoceno, que começou há 11.500 anos e se estende até hoje.
GEOPERM III - Estudo geológico, geoquímico e do “permafrost” (solo permanentemente gelado) nas penínsulas de Fildes e Barton (ilha do Rei Jorge, Antártida).
Hg-PLANKTARCTIC - Interações entre fito e zooplâncton e o ciclo do mercúrio, em águas da ilha da Decepção com fontes vulcânicas de mercúrio.
PERMANTAR 2016-17 - Evolução do “permafrost” e alterações climáticas no ocidente da Península Antártica.
PERMATOMO - Estudo geoeléctrico da evolução do “permafrost” junto à Base Antárctica Búlgara (ilha Livingston) e à Base Antárctica Coreana (ilha do Rei Jorge).

Mais de 20 cientistas portugueses por ano


O Propolar é coordenado pelo Instituto de Geografia e Ordenamento do Território (IGOT) da Universidade de Lisboa e é gerido por uma comissão composta por membros de cinco centros de investigação das universidades de Lisboa, Algarve, Coimbra e Porto.

O programa promove o conhecimento das regiões polares e o seu papel na dinâmica da Terra, facilitando a cooperação internacional e proporcionando condições logísticas que permitem anualmente o acesso de mais de 20 cientistas e jovens investigadores ao Ártico e à Antártida.

Investigar as alterações climáticas...em Portugal


Mas afinal, o que ganha Portugal com a investigação polar? Teresa Cabrita, diretora executiva do Propolar, afirma ao Expresso que “essa é a pergunta que todos fazem, mas a principal razão é que Portugal é um dos países mais afetados pelas alterações climáticas e as regiões polares são os locais onde estas alterações se tornaram mais evidentes”.

Assim, “é mais fácil perceber os mecanismos biológicos e os processos químicos associados a este fenómeno nestas regiões, transpondo depois os resultados da investigação para o terrritório nacional”. Em Portugal “não temos condições adequadas para o desenvolvimento destes estudos porque há uma grande sazonalidade no clima”, ao contrário do que acontece nas zonas polares, “que são os laboratórios ideais para este tipo de investigação”. Por outro lado, o Propolar “permite-nos testar uma série de equipamentos sensíveis às temperaturas”.

É por isso que o programa “já envolve investigadores de universidades de todo o país, que constituem uma comunidade extremamente ativa e dinâmica, que consegue alcançar resultados rapidamente”, conclui Teresa Cabrita.